“Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer.” Frank Lloyd Wright
Eram seis da tarde quando, após vencer o infernal trânsito paulistano de sexta feira a tarde, estacionei minha moto no lugar de sempre. Estranhei o fato das meninas ainda não estarem no sofá, dei uma olhada no relógio. “Seis horas” – pensei enquanto me dirigia à diretoria para retirar minha pasta receber da chefa as últimas orientações. Estamos passando por um processo de mudanças na gestão do hospital então cada dia uma novidade. Mas hoje não temos nenhuma. Pego minhas coisas, me despeço da RG e vou para o sofá observar o movimento e pensar em decisões difíceis que tenho que tomar com relação ao plantão.
Já são 18h45m quando me dirijo ao Pronto Socorro, passo pela porta vai e vem e tenho a grata surpresa. Está tranquilo. Se continuar assim, teremos uma noite calma.
DS e MC já estão recebendo o plantão, VC está presa no trânsito e deve se atrasar, mas os problemas começam a aparecer. A escala do PS que já esta apertada fica completamente quebrada com os problemas desta noite. MT que havia vindo da UTI não se adaptou ao ritmo do PS e voltará para internação, DL e IV e NV que estão na escala de hoje, não comparecerão e a catatau continua de licença médica com dores nas costas, ou seja, temos um furo de 5 em uma escala feita “na medida”. Temos problemas e para complicar as escalas nas unidades de internação não estão nada folgadas. Todos os setores estão apertados.
Mexe aqui, muda ali e no final ficamos com Glória e EL no corredor, LN e ND na emergência, LC e SD na admissão. Na internação o JB cuida da masculina, LZ (emprestada da CM) ficou com a feminina, LD e SL com a semi. Isto só foi possível porque a AG ficou cobrindo dois setores lá na frente. Todos em seus postos: começa a batalha.
Não demora muito e o que estava vazio começa a ficar lotado. Uma queda de moto aqui, uma dor abdominal ali e vamos enchendo a casa de observações e internações.
A assistente social me chama:
- J, tem uma garota de 15 anos, vítima de violência doméstica.
- O pai bateu nela? – perguntei.
- Não. Foi o namorado.
- E onde ela está?
- Consultório da cirurgia.
A garota já estava sendo atendida então não dei muita atenção ao caso. Ainda tinha muita coisa para fazer. Precisava conversar com as enfermeiras, não estou gostando da qualidade (falta de) da assistência aos pacientes internados e pretendo cobrar delas a responsabilidade por isto. Além disto, preciso pensar na escala do hospital. Há necessidade de mudanças.
Estou com dor nas mãos e nauseado a VC percebe que não estou em um dia bom.
- Chefe, você está de mau humor hoje. Está com dor?
- Sim. Mas também estou bravo. (risos)
A WL, cirurgiã de plantão, me chama no consultório. Há algum problema com a garota de 15 anos.
- Diga doutora.
- Então J. O caso dela é cirúrgico e ela se recusa a operar. O problema é que só tem 15 anos e não há nenhum parente que possa autorizar ou se responsabilizar.
Virei-me para a garota, magra, franzina, dentes mal cuidados, aparentava ter bem menos que quinze anos e ainda assim já tem um filho de quase dois anos:
- Qual o teu nome, meu anjo?
- T***. Eu não vou operar.
- Vou te explicar uma coisa e só vou explicar uma vez, portanto preste atenção. Você sofreu um trauma na barriga e se você não operar poderá morrer e deixar teu filho sem mãe. Isto você entendeu?
- Sim.
- Então agora vou te explicar outra coisa. Tem duas formas de fazermos isto e já vou te adiantar “ VAI SER FEITO”. É você quem vai escolher como vamos fazer. A primeira forma é: eu te preparo para cirurgia, com a sua ajuda enquanto tentamos localizar sua mãe. Você vai para o centro cirúrgico e resolve o seu problema.
- E qual o outro jeito? – perguntou a menina.
- Vou chamar dois mamutes da segurança vamos amarrar você, colocar vc para dormir, te preparar para a cirurgia e resolver o teu problema. Qual você prefere?
- Você vai ficar comigo?
- Prometo que enquanto eu puder estarei do teu lado.
Ela escolheu o primeiro jeito. Mas ficou muito manhosa, tanto que eu tive que puncionar sua veia, pois com as meninas ela ficava tirando o braço, sua mãe chegou entes que fosse levada ao centro cirúrgico. A mãe era o reflexo futuro da filha. Magra, desnutrida e com sinais de sofrimento esculpindo o rosto.
A chegada da mãe deixou-me ainda mais indignado. Ela acha normal o namorado bater na filha.
- Senhora, sua filha tem quinze anos e foi espancada.
- Foi o namorado dela.
- Sim. E a senhora não vai dar queixa?
- Não. Ele é o homem dela. Isto é normal.
Quase não acreditei quando ouvi. Passei-lhe as informações e sai. Já estava quase perdendo a calma. Não sei de que adianta leis como Maria da Penha ou coisa parecida se o povo não tem o básico; educação
A menina foi operada, ficou fora de perigo. Enquanto atendíamos outra paciente WL, PT e eu discutíamos as condições sociais da menina. Chegamos a conclusão de que somos felizes.
O plantão ia tranquilo a ponto das meninas me cobrarem o blog.
- Parece que a gente nem trabalha mais.
- Está bem. Amanhã eu escrevo – prometi.
A VC me chama para “fumar”.
- Chefe, vamos fumar?
- Vamos sim. Estou precisando.
Ir fumar, significa sair um pouco do PS, ficar do lado de fora e se acalmar de alguma situação estressante. Óbvio que alguns, como a VC aproveitam para fumar mesmo.
Ficamos uns dez minutos lá fora e quando voltamos a MC tinha levado uma paciente do corredor para emergência. Estava pálida com abdome distendido e gaspeando.
- Ela não tem pulso – falei.
Iniciamos a RCP e com apenas um ciclo ela voltou. Passei a máscara laríngea e depois a LCN, clinica, entubou. A paciente melhorou e piorou várias vezes na madrugada. Não sabíamos mais o que fazer, a causa das PCRs eram desconhecidas, corrigimos o PH, demos volume, sangue e mesmo assim não conseguimos salvá-la. Às seis da manhã, estávamos dizendo à família que sua mãe, de 58 anos, não voltaria viva para casa. Isto é triste.
Passamos o plantão e enquanto esperava a VC para tomar café meditava sobre a falta de funcionários, quando um colega me perguntou:
- E aí J. Pensando na vida?
- Na verdade, estava pensando na morte. E na falta de funcionários.
-É mesmo, não é? E depois ainda querem que façamos milagres.
- Verdade.
Saímos do PS, VC e eu e ao olhar para traz e lembrar-me da frase do colega eu constatei:
“Hoje nossa equipe fez milagres”
"Os milagres acontecem às vezes, mas é preciso trabalhar tremendamente para que aconteçam". Peter Drucker
A cada dia uma nova superação!!!!!
ResponderExcluirVc nem imagina o quanto. Aquilo é um inferno kkkkkkkkkkkkkkkkkk
ExcluirEu imagino, mas admiro como no final tudo se resolve, admiro que apesar de tantas limitações vcs tão o sangue por este lugar!!! E isso que falta em muitos!!!
ExcluirAdoro a parte "Tem duas formas de fazermos isto e já vou te adiantar “ VAI SER FEITO”. É você quem vai escolher como vamos fazer" me lembra quando trabalhamos juntos no MJ. Você ja demonstrava que seria um enfermeiro diferenciado. Ainda me pergunto porque faz questão de continuar no setor público. Felicidades amigo.
ResponderExcluirAna
Nossa!!!! Achei que não iria mais publicar.
ResponderExcluirja tava com saudade do blog....
ResponderExcluirvc realmente é um espetáculo de enfermeiro
Faz muita falta quando não escreve, vc tem diversos admiradores que aguardam ansiosos pela sua publicação!!!!!
ResponderExcluirJose milagreiro! gostei! matematicamente isso nunca daria certo, mas como vale a experiência, o perfil de liderança e administrador (de conflitos também). bjs
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