“Nada é tão contagioso como o exemplo”. François La Rochefoucauld
Eram quase 18h00 quando estacionei a moto em seu cantinho “quase” reservado. Subo para diretoria a tempo de ouvir as recomendações da chefa quanto à onda de violência que assola o estado e a cidade. Converso um pouco e logo vou registrar meu ponto e caminhar para o PS.
Está relativamente calmo hoje. Esperava coisa pior, considerando o que eu deixara no plantão anterior. Assumimos o plantão MC, DS e eu (enfermeiros), e a equipe de técnicos e auxiliares que se não está completa também não está desesperadora. Arruma aqui, coordena ali e vamos colocando a casa em ordem, pelo menos para a nossa forma de trabalhar.
Na admissão LCC (Fiona) e AD (Glória) estão às voltas com os resquícios da tarde, pacientes que chegaram antes das 18h00 e já deveriam ter recebido um destino. Na emergência AND está sozinha, pois a SD ligou avisando que não virá. No corredor IV e CL vão se desprender já que teremos que mandar a NV para emergência.
O plantão começa: admite um, avalia outro, orienta mais um e de repente começam a entrar pacientes com as fichas em branco.
- Moço, quem é o enfermeiro J?
- Sou eu. Posso ajudar?
- Não tem médico lá na frente e meu marido está se sentindo mal e vomitando.
- Também não tenho médico aqui, senhora. O que atende lá é o mesmo que atende aqui. Infelizmente teremos que esperar.
Disse isto enquanto avaliava visualmente o paciente, que sudoreíco e com náuseas estava à minha frente. Dez segundos se passam e eu peço para LCC:
- Coloque ele na maca, vamos fazer um eletro e verificar os sinais.
Ainda cuidávamos do primeiro quando chega uma senhora empurrando a irmã na cadeira de rodas:
- J, ainda bem que você está aqui. Olha para ela, não está bem. Veio no médico ontem e hoje já é a segunda vez. Lá na frente não tem médico.
- Eu sei, meu anjo. Mas você sabe que precisa esperar lá.
Mais uma vez mudei de ideia. A paciente estava suando se queixando de “um vazio”. Peguei-a no colo e passei para maca a pele fria e pegajosa me fez suspeitar de hipoglicemia, mas logo a LCC me tirou isto da cabeça informando a glicemia de 106.
- Vamos colher exames e fazer um eletro, enquanto aguardamos o médico chegar – pedi para as meninas.
Neste momento, uma Enfermeira que acompanhava alunos de graduação em seu estágio de emergência me pergunta:
- É sempre assim?
- Hoje está tranquilo – respondi enquanto esperava o aparelho de ECG terminar seu trabalho.
- Mas e depois? – perguntou, se referindo à conduta pós-exames.
- A gente encaminha para o médico. Menos neste caso. Ela está infartada. Vamos para a emergência.
As meninas, nem esperaram eu terminar a frase e já estavam com a paciente na porta da sala. Assim que entrou na emergência ela apresentou PCR. Começamos as manobras e logo chegou a LCN, clínica de plantão.
- O que aconteceu, J?
- IAM, o ECG está aí na maca. Parou agora.
A intubação estava difícil olhei para AND e pedi a máscara laríngea.
- Só tem esta. - disse me entregando uma máscara infantil.
- Serve por enquanto – respondi.
Passei a laríngea infantil e alguns instantes depois troquei por uma apropriada. Mas nossos esforços foram em vão. Após uma hora de manobras a paciente foi declarada morta. Fiquei chateado, ainda penso no que deu errado, ainda acho que poderia ser diferente.
Saldo da emergência: um óbito e a AND com a mão cortada por um bisturi. Pelo menos estava estéril. Mesmo assim vamos perdê-la por três plantões, começando agora. Ou seja, a NV vai ficar só para cuidar da emergência.
Os exames do rapaz com nauseas chegaram, ele esta bem, vai passar no consultório.
A MN me chama para verificar um defeito no termõmetro da geladeira:
- Não sei o que acontece, só marca 25 graus e não consigo mudar para máxima e mínima. Acho que ta quebrado
Chegando no posto, percebi o motivo; o termõmetro não estava funcionando. Ainda estava com o adesivo sobre o visor por isso a marcação de 25 graus e a pilha estava fora do local. Após retirado o adesivo de 25C e instalada a pilha o ele “voltou” a funcionar e marcar a temperatura certa. (risos)
O resto do plantão foi o que a gente chama de mamão com açúcar. Poucas admissões e nenhuma emergência, só manutenção dos casos internados e sustos com as notícias vindas de fora que a todo instante informavam a chegada de baleados que, por sorte, não chegaram.
Madrugada tranquila, exceto pelas costumeiras reclamações de demora no atendimento. Plantão acabando.
Passo o plantão e na saída encontro o sobrinho da paciente que foi a óbito.
- Enfermeiro. Posso falar com você?
- Pois não. – respondi, me preparando para ter paciência.
- Sou técnico de enfermagem e o que eu vi aqui hoje me fez pensar na minha profissão. Já tinha desistido de fazer faculdade pois tinha uma ideia errada do enfermeiro. Você me deu uma lição de competência e me fez ter vontade de ser enfermeiro tambem. Obrigado.
- Não fiz nada. Sinto por sua tia.
- Ela não morreu sem assistência, isto é importante. Bom descanso pra você
- Obrigado
Para mim é o bastante
Até amanhã.
“Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça”. Leonardo da Vinci
"As pessoas perguntam qual é a diferença entre um líder e um chefe. O líder trabalha a descoberto, o chefe trabalha encapotado. O líder lidera, o chefe guia." Rosevelt
ResponderExcluirApesar de o chamarmos de chefe, você é o lider desta equipe, nunca nos sentimos sos.
Existe cuidado sem cura, mas não existe cura sem cuidado.
ResponderExcluirFlorence Nightingale
Parabéns!Sempre acreditei que você seria um enfermeiro acima da média.
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