sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quinta feira: feriado? Dever e prazer


“O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em ação, e não da necessidade de insistir com os outros para que façam qualquer coisa.” Madre Teresa de Calcutá
O relógio já marcava seis e meia da tarde, quando estacionei a moto e corri a registrar o ponto acreditando estar mais atrasado do que realmente estava. Minha coluna pedia em desespero para que me livrasse do peso da mochila que ela transportava e o trajeto do estacionamento ao Pronto Socorro pareceu-me muito mais longo que eu me lembrava. Em contrapartida meu corpo celebrava uma sensação de bem estar há muito não sentida. Estou de bem com o mundo, com a vida com o PS cheio, com tudo e desta forma chego ao palco do show da noite.
A porta vai e vem oferece resistência a minha passagem já denunciando a existência de uma maca a travar sua abertura e isto só acontece quando está superlotado. A profusão de macas e pacientes me deixa, por alguns instantes, inerte; observando o local, escolhendo o melhor caminho até os fundos e planejando uma forma de melhorar as condições.
Docinho e Edna, já receberam o plantão, mais uma hora e a Lindinha chega para, conosco, completar o time de enfermeiros. Na emergência as técnicas SD e LCN já estão a pleno vapor, com quatro pacientes sendo três em uma sala e um isolado por tuberculose na outra. Na admissão os nomes se repetem SD e LCC, mas as pessoas são outras e o trabalho ali também já começou. O corredor ficou por conta de AD (Glória), SH e CL.
Enquanto faço uma revisão na escala, observo a movimentação da equipe. Beijos de olá se misturam com brincadeiras verbais e trocas de informações sobre os pacientes. É incrível como um grupo tão heterogêneo consegue trabalhar de forma síncrona. Olho no relógio, exatamente uma hora após recebermos o plantão e o corredor já está organizado com os pacientes separados por sexo e sendo medicados. A medicação está um problema, por algum motivo deixaram faltar dipirona e paracetamol no hospital. Assim em caso de dor moderada resta usar tramal e, para as mais brandas, psicologia. Em caso de febre? Bem nestes casos tem o mercado negro. Auxiliares, enfermeiros e técnicos “contrabandeiam” de outros hospitais onde trabalham para que não fiquem a ver seus pacientes sofrer sem ter absolutamente nada a fazer a respeito. Realidade de nosso serviço público.
Primeiro SAMU da noite, rapaz 28 anos. Estava jogando futebol e ao dar um drible o corpo foi e o joelho ficou. Chora feito criança. Pudera, sua patela está deslocada, vai ter que reduzir. Chamo o ortopedista e após um bloqueio local colocamos o joelho do corintiano no lugar. Liberado, vai passar o feriado com uma tala e sem futebol.
Os bombeiros trazem um homem que acabou de bater o carro. O cheiro de álcool denuncia o motivo. Tem queixas diversas mas sem sentido, num momento dói o braço, em outro a perna, depois a barriga. Avaliado, raios x, nada a fazer. Mas não dá para liberar, vai passar a noite na observação.
Enquanto esperava recebe a visita da polícia.
- Boa noite. O corsa preto que bateu na avenida é teu?
- Sim, seu guarda. Um cara me fechou.
- Sei. Bem isto aqui é teu também – disse o policial entregando um papel.
- O que é isto?
- Uma multa. Licenciamento vencido há mais de 30 dias.
Foi a última vez que ouvi a voz do paciente, se encolheu e ficou quieto o resto da noite.
Outra guarnição dos bombeiros, motoqueiro 28 anos. Bateu a moto em um carro. Teve sorte, somente arranhões. Medicado e liberado.
Mai um resgate e desta vez os rapazes nos trazem um capotamento, o rapaz parece bem, está choroso e bastante nervoso com a situação.
- Não podia ter acontecido – diz ele.
- Já aconteceu. Pode me dizer do que se lembra? - perguntei.
- Sei não moço, estou há 36 horas sem dormir. Fui fazer um serviço para ganhar R$100,00 e capotei o carro.
Com ele não aconteceu nada. Avaliado, medicado e liberado.
A MC me chama:
- Enfermeiro, você não quer tentar uma veia no paciente da emergência. Esta hipotenso e com um acesso que não está bom.
Fiz um comentário sobre o estado do paciente e fui para lá.
- Oi LCN, prepara o material para eu puncionar a jugular.
- Já está aqui.
Em instantes a veia estava pronta. Saindo da emergência a MC pergunta.
- E aí?
- Eu sou f### - respondi.
- E modesto.
Volto para admissão e a SD faz a mesma pergunta.
- Já está com acesso.
- Isto que é fogo – diz ela – a gente não consegue e ele vai lá e faz.
A partir daí a noite ficou calma. Um paciente aqui, outro aqui. Nada de extraordinário. No balcão aproveitamos para colocar a conversa em dia e falar amenidades. A AND me cobra, de novo, uma publicação com as frases do Enfermeiro J. A AD reclama que não escrevo todos os blogs e a PT completa:
- Quando não tem blog, parece que ninguém trabalhou (risos).
- Está bem vou publicar. E frase de hoje será: Com cuspe e com jeito.. (usada para situações em que devemos ir com calma para conseguir o que queremos).
Enquanto conversávamos, viajei mentalmente pensando no quanto este trabalho me dá prazer. Prazer pelo fazer, prazer pelo ser. Um trabalho que me completa e impele meus passos a cada dia em busca de melhoria.
Jantei dois lanches do Mac que a SD buscou para mim e fazia minha digestão quando a LCN chamou. O paciente da sala 01 parou. Encontro ela fazendo as compressões, chamamos o médico, mas desta vez não deu. No dia em que faria 48 anos, foi declarado morto. Coincidências da vida, ou da morte. Preparamos o corpo, ligo para a família e vou para a sala adiantar uma papelada que a AL preparou. Na volta encontro SDN na emergência com um paciente em óbito, vítima de um IAM fulminante não tivemos êxito na reanimação, e a Dra. AL, SD e PT, na admissão, as voltas com uma paciente em broncoespasmo. O que está morto não precisa de mim. Fico com elas na admissão ate levar a paciente para emergência. Melhorou, mas algo me diz que vai para o tubo.
Um rapaz entre se queixando de dor no peito, está pálido e eu o coloco em uma maca. Quando percebo o enfermeiro do dia está à porta para receber o plantão. Passo o plantão e minhas preocupações para ele.
Fim de plantão, AND e eu vamos pelo corredor, minha coluna sente novamente o peso da mochila mas minha cabeça está leve como uma pluma. Sensação de dever cumprido.

MC enfermeiro do dia, que fazia parte de nossa equipe, esta fazendo extra na UTI hoje.
- Tudo certo lá, J. Vamos tomar um café.
- Vamos sim. – e lá fomos nós, celebrar a amizade com um café da manhã.
- Até amanha.
Cada um deve procurar a profissão que a sua vocação lhe pede e depois, aplicar-se a ela tenazmente, se quizer triunfar. Benjamin Franklin

6 comentários:

  1. Mesmo em um plantao calmo, como este. Dá para sentir o amor pela arte da enfermagem, aflorando em vcs. Parabéns.

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  2. Sou estudante de enfermagem. E quando crescer, quero ser igual ao J.

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    1. Luana, não quero te deixar triste não. Ja trabalhei com um monte de gente e tirando os dias de chatice extrema que parece ate TPM o J é inigualável. Praser como ele não é facil naum.... muitos querem e ate invejam e atavam por isto mas conseguir... ate agora ninguem, né Painho?

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  3. Calmo demais... quero sangue.... rsrsr

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  4. "A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta." (Mario Quintana)

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  5. "Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia." (Arthur Schopenhauer)

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