A bondade deve estar ligada ao saber. A simples bondade pouco adianta; é o que tenho constatado. Mahatma Gandhi
Castigado por uma chuva torrencial desde a saída do emprego numero dois até a chegada ao estacionamento do hospital, encosto a moto preocupado com o horário. Devo estar muito atrasado, pois não faltaram problemas no trajeto: é corrente que escapa, pneu que fura, chuva, se fosse supersticioso já teria voltado para casa tomando estes fatos como sinais dos céus de que minha noite não seria boa. Mas não sou, portanto são 18:50 quando, ainda com as mão ensopadas, registro meu cartão e corro para p Pronto Socorro sem, sequer, tirar a capa de chuva ou os sacos plásticos que envolvem meus sapatos. – “Preciso comprar um par de botas”- pensei enquanto passava pelo corredor e observava as pessoas olharem com desaprovação aquela figura com capa de chuva e sacos plásticos nos pés.
A porta vai e vem não revela grandes surpresas, está lotado, como estava nos últimos plantões. As cirurgias ortopédicas estão paradas e por isto não há vazão para os pacientes desta especialidade, consequentemente eles abarrotam as macas a espera de sua vez que pode ser amanhã, depois ou depois ou...
Me preparo rapidamente e vou para emergência já me desculpando com a enfermeira VR, do dia, pois uma pessoa que passa doze horas no PS só pensa em ir embora quando ver o relógio marcar seu horário de saída.
- VR, me desculpa. Passa este B.O. para mim.
- Não se preocupe. Uma vez ou outra, acontece da gente atrasar.
Me passou o plantão. Um idoso com AVC e que acabara de convulsionar na sala 01 e na dois outra idosa: esta com desconforto respiratório, ainda sendo admitida pelas técnicas entre elas a LC, nossa japa, que chega as seis e, portanto, sempre está a par dos pacientes quando eu assumo.
No corredor a MC (docinho), que também entra uma hora mais cedo, já termina de receber a infinidade de pacientes e logo temos a companhia da VC (florzinha) completando o trio de enfermeiros. Na linha de frente LC, AND e PT na emergência; LC (loira) e FB na admissão; JN, MC (auxiliar), NV, ADL, AD (glória) SL e JB dão conta do corredor, semi e observações.
Temos vários estagiários divididos entre três ou quatro professoras o que torna o PS mais congestionado ainda.
Primeiro SAMU da noite, homem de 77 anos, diabético caiu em casa. Está com hipoglicemia, pálido e sudoreíco. Tratamos a hipoglicemia, ele acorda mas apresenta um código marrom daqueles que contaminam todo o PS. Logo a seguir a FB me chama:
- Enfermeiro, ele esta com hematêmese...
Vou avaliar e fico apreensivo com o que vejo. Ele não está só vomitando sangue vivo. Está parando.
- Levem para a emergência. Rápido.
Mal chegou a emergência e já parou. Iniciamos a reanimação e a JL, cirurgiã, entubou. Massagem, drogas e ele voltou. Colhemos os exames e o resultado me deixou confuso. O homem tinha uma leucopenia de 400, uma gasometria maluca com 237 de PaO2. Fez hipotensão, entrou a nora, precisou de acesso central eu fui falar com o JN, cirurgião do horário.
- Você não quer passar este cateter? Olha os exames.
- “Putz”, não dá J. O cara vai sangrar pra caramba. Dá pra você tentar um PICC?
- Posso tentar. Mas PICC não é milagroso...
- Tenta lá. Se você não conseguir eu disseco uma veia.
Pedi para a LC preparar o material e fui receber outro resgate. Homem, 42 anos, vítima de agressão. Tem os lábios cortados e sente fortes dores no braço esquerdo. Esta arredio e sempre que a mães chega perto simula um desmaio. Isto sem contar o odor desagradável que exala dos seus pés. Levado para sutura onde o bucomaxilo resolvel o problema dos lábios e o cirurgião descartou outros traumas, foi para o RX. O ortopedista não viu novas fraturas. Novas porque antigas o cara tem um monte. Ainda refere dores no braço esquerdo mas recebeu alta de todo mundo. Vai ficar em observação mas precisa de um banho. Aí começam os problemas. Ele não quer banho, fica agressivo, ofende até que eu perco a paciência:
- Você vai pro banho sim. E vai agora. Tem mais: eu vou te levar.
- Eu não posso sentar, minha vista escurece.
- Não tem problema. Eu acendo a luz – falei enquanto o colocava a cadeira de banho e levava para o chuveiro. Lá a valentia dele sumiu. Retirado de perto da mãe, passou a falar baixinho e pedir por favor. O RN deu o banho e o colocou em uma maca. Neste meio tempo recebeu alta.
- Não sei, não – falei para a VC e AD – o braço deste cara não está bom. Não gosto dele. Mas não vou dormir se ele perder o braço porque eu não fiz meu trabalho direito.
Chamei o ortopedista:
- Reavalia este cara pra mim. Não estou gostando do braço dele.
- Vamos repetir o RX então. Enfermeiro é “zica”, quando cisma tem coisa. - disse o médico demonstrando respeito por minha opinião.
Repetido o RX, encontrou-se uma fratura no braço esquerdo. Vai ser imobilizado. Minha consciência esta tranquila. A AD não perde a chance de provocar:
- É chefinho, pensei que só coração de mãe fosse enorme...
- Nem vem.
- Deixa ele AD – interveio a VC – ele é brabo. (risos) e insensível.
- É só o meu trabalho – resmunguei.
- É. A gente sabe. E como sabe – disse a Glória, com um sorriso.
Volto para a emergência, o PICC esta pronto. Depois de algum sofrimento e com ajuda da PT e LC, consigo passar o cateter. Mas o paciente para logo em seguida e desta vez não volta bem. Sangra pelo tubo orotraquel e uma hora depois é declarado morto. Ligo para a filha e quando esta chega, junto com a esposa do paciente a impressão que eu tenho é de que tanto a família quanto o paciente vão descansar.
- Ele morreu?- pregunta a esposa.
- Sim...
- Já esperava. Nunca parou de beber, não tomava os remédios...
Papeis entregues, orientações dadas, vou receber outro resgate. Ou melhor, dois resgates. Colisão de carro com poste e duas moças com fraturas nos braços. As moças trajam-se de maneira sumária e ambas referem estar grávidas. Ao perguntar sobre o acidente uma me fala:
- Estávamos com meu amigo e ele foi dar um beijo nela – disse apontando a amiga – aí o carro foi para o poste.
Moral da história: quando estiver com duas moças com roupas mais curtas que a vida e mais justas que Deus, pare o carro antes de beijar.
Uma vai precisar de cirurgia, outra fraturou a clavícula, mas esta de alta.
Depois disto o plantão ficou tranquilo. Rotinas, conversas e vamos passando a noite. O dia amanhece com chuva e os primeiros colegas da manha começam a chegar.
- Estranho. Com chuva e nenhum motoqueiro esta noite. – comentei após passar o plantão para o MC.
Por hoje chega. Pego a moto e rumo para o emprego numero dois. Está chovendo muito, outra moto atravessa a minha frente eu freio e a minha moto desliza. Pronto. Não queria um motoqueiro caído? Caí.Tudo bem, levanto, observo a queimadura na mão direita e decido: nada de resgate. Vou embora.
Até amanhã.
Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons. Sigmund Freud
acho q essa é a semana das fraturas de umero
ResponderExcluirnoite de chuva e nenhum motoqueiro, tem coisas que só Freud explica, .....
ResponderExcluir