Quando nada parece dar certo, vou ver o cortador de pedras a martelar numa rocha talvez 100 vezes, sem que uma única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra abre-se em duas e eu sei que não foi aquela que conseguiu isso, mas todas as que vieram antes. (Jacob Riis)
São 18:30. Após assistir a mais uma derrota do Palmeiras, chego ao Hospital quase “em cima da hora, se formos considerar o meu padrão. Passo pelo relógio, registro minha entrada e vou direto ao Pronto Socorro.
A visão é desoladora, o PS está lotado. Não há lugar para nada e a confusão de pacientes, acompanhantes e funcionários, ajuda a deixar a coisa ainda mais difícil. Recebemos o plantão e as meninas do corredor se apressam em organizar o local de forma que consigamos avaliar os pacientes e entender o que acontece com cada um deles.
Este mês, a escala de enfermeiros está apertada, com a AND de férias ficamos sobrecarregados e assim será até fevereiro. Hoje estamos MC e eu. A baixinha é ligeira, vai evoluindo e admitindo todos que chegam além de atender a intercorrências nas observações. Eu assumo a emergência e admissões e vamos tocando o plantão.
Meu plantão começa com atendimento a uma auxiliar de enfermagem de outra instituição, que acabara de se acidentar com uma agulha contaminada. Seu atendimento no local do acidente foi correto. Mas ainda resta uma infinidade de papéis a preencher, como a Docinho está ocupada me proponho a fazer esta tarefa que, devo confessar não gosto nenhum pouco.
Enquanto preencho os papeis do acidente observo um rapaz que está na sendo admitido. Está muito pálido a ponto de eu pedir que colham o um hemograma dele. Após ser colocado no leito ele já está corado e eu chego a conclusão que sua palidez era fruto exclusivamente do medo da punção venosa. Acabo os papeis, dou as orientações para a profissional acidentada vou atender ao primeiro SAMU da noite; motociclista, 25 anos, estava entregando pizzas quando chocou-se com a traseira de um carro. Recebo e, mesmo antes dos raios X, é possível ter certeza da fratura do punho. Na admissão JB e LC, rapidamente providenciam o acesso venoso para que possamos aliviar a dor do rapaz, pelo menos por enquanto já que ele ainda será submetido a redução cruenta o que dói muito.
No corredor externo sou abordado por um usuário que pede uma maca pois seu parente não consegue andar. Vou avaliar e encontro um rapaz de 17 anos chorando de dor enquanto tenta se locomover com o auxílio de muletas. Colocamos na maca, acesso venoso e só de deitar a dor alivia. O ortopedista avaliou, tramal, dipirona e observação. Vai passar a noite conosco.
Uma mulher de 40 anos chega já imobilizada. Passou no consultório e vai ficar internada, fraturou e luxou o cotovelo. Enquanto preencho os papeis da admissão vou conversando com a nora que passa informações como mecanismo do trauma, alergias, medicações de rotina etc. Ao terminar o histórico a moça pede para ficar como acompanhante, pergunto:
- Qual o grau de parentesco?
- Sou nora dela – respondeu a bonita moça.
- Casada como o filho dela, então.
- Não. Sou casada com a filha dela.
Fiz cara de quem não ligou para a informação e continuei as anotações e deixei que ela ficasse com a sogra.
Na emergência, recebemos uma mulher de 56 anos, dor precordial. Veio de um P.A, observação e exames. Vai ficar a noite toda. Mas está tranquila, sem dor e com os sinais estáveis.
Voltando do jantar encontro um senhor com 180 quilos e pressão de 22x13, veia, lasix e capoten. Três horas depois a pressão estaria controlada.
Mais um SAMU, idosa de 70 com mal de Alzheimer e vomitando, medicada, exames e internação.
Chega tanta gente que não temos mais macas, mesmo assim observo que as meninas mantem o corredor organizado de forma que o plantão flui com tranquilidade.
Mais uma internação, um auxiliar de enfermagem com colecistite. Está tranquilo, vai aguardar cirurgia para o dia seguinte.
São quase duas da manhã quando uma adolescente de pouco mais de 15 anos me procura:
- Moço, será que você pode me ajudar?
- Espero que sim. Se você me disser o que acontece...
- É que eu estava fazendo sexo com meu namorado e a camisinha estourou...
- Sim. E o que você precisa?
- De um exame pra saber se estou fértil...
- Não funciona bem assim... Podemos até calcular seu período fértil se você tiver a menstruação bem reguladinha, mas não é garantia de nada.
- Ferrou, sou toda desregulada...
- Inclusive da cabeça, né menina? Então vem aqui.
Levei-a ao consultório onde ela recebeu a receita para a “pílula do dia seguinte” mais vinte minutos de conversa e ela saiu para comprar o medicamento. Espero que tenha adiantado
Uma idosa com suboclusão intestinal é a última paciente da noite e o nosso plantão chega ao fim.
Passo o plantão, lotado com mais pacientes que eu encontrei. Ainda arrumei tempo para convecer o médico a pedir uma tomografia de coluna para o rapaz da dor nas costas, sio cansado, mas com aquela sensação de que o melhor foi feito. Por mim e por minha equipe.
Até amanhã
Só aqueles que têm paciência para fazer coisas simples com perfeição é que irão adquirir habilidade para fazer coisas difíceis com facilidade.
(Johann Christoph Von Schiller)
Pronto socorro acolhe várias dores, se assim posso dizer, tal qual a dor de um acidentado, puramente física, quanto a de uma pessoa psicologicamente abalada em sofrer a dor das consequencias de seus atos, confortante quando, como neste plantão, se consegue amenizar as duas. AM
ResponderExcluirÉ enfermeiro parece que temor que mudar nossa visão sobre as relações afetivas e conjugais na contemporaneidade. Afinal 'casamentos' homossexuais é uma realidade principalmente na nossa área. Um grande beijo. Elis Regina
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