No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação, não existe meio termo. Ou você faz uma coisa bem feita ou não faz. Airton Senna
pmdv
Já passavam alguns minutos da seis quando cheguei ao hospital para mais uma noite de plantão. No caminho minha cabeça viajava em busca de soluções para problemas administrativos de um e outro emprego e aqui o problema é a falta de enfermeiros. Já sentado no sofá e folheando os documentos administrativos ao som da Legião Urbana e seu “Faroeste Caboclo” a minha volta algumas estagiárias tagarelas falam mal de sua professora e uma colega. Algumas funcionárias de nosso plantão já estão esperando o horário de entrada ou já passaram dele uma vez que deveriam ter entrado as seis. Com a minha chegada vão, disfarçadamente, se dirigindo aos setores.
Junto com a VC chega também o horário de assumir meu plantão e juntos nos dirigimos ao PS. Chegando à porta a VC externa um desejo:
- Bem que atrás desta porta poderia estar tranquilo e vazio..
- Tá bom... – respondi desanimado.
E estava. Apenas seis pacientes no corredor e dois na emergência. Tão tranquilo que não me preocupei com a falta anunciada de uma funcionária. Em instantes o noturno A assume o plantão e estamos prontos para mais uma noite.
Estou recebendo o plantão do MC na emergência quando ouvimos barulhos vindo da sala ao lado.
- Pelo jeito é emergência – diz o MC.
- Vamos lá então – completei.
Ao chegar na sala, com o chão molhado e ensaboado pela auxiliar de limpeza que resolver fazer uma terminal sem nos avisar, um cena assustadora nos aguarda. Na cadeira de rodas um homem com câncer no pescoço, tinha esta região literalmente aberta, com se fora degolado. Sua irmã, aos gritos, pedia que fizéssemos alguma coisa. Ao colocar o paciente na maca a coisa piorou e muito, começou a sangrar profusamente e em jatos que alcançavam facilmente dois ou três metros de distância. Não precisava ser professor de anatomia para concluir pelo rompimento da artéria carótida. Por sorte SG, o cirurgião de plantão, que é cirurgião de cabeça e pescoço, estava presente e as intervenções foram rápidas.
- Preciso de uma Portex número oito – pediu.
A equipe hesitou tentando entender o que ele pedia, eu intervi.
- Uma cânula de traqueostomia oito.
O clima está tenso, o SG querendo agir rápido pedia duas três coisas ao mesmo tempo e já recebera uma resposta irritada da MZ que não gostou da forma como ele a apressou:
- Vamos filha, não temos a noite toda.
- Se você espera eu terminar uma coisa eu faço outra... – respondeu a MZ que apesar de ser enfermeira, ainda trabalha como auxiliar e é destas baixinhas que não levam desaforo para casa, ou para lugar algum.
Apesar de gostar da resposta, decido interferir para que o atendimento não seja prejudicado:
- Calma. Calma todo mundo.
- Não estou nervoso – respondeu o SG.
- Nem precisamos ficar – completei.
O paciente esta piorando e um jato de sangue atravessa a sala passando entre a MZ e eu, não sem atingir seus braços.
- MZ, vai limpar isto – pedi – LC me dê um par de óculos de segurança, por favor.
- Preciso de luz – pediu o SG – não consigo visualizar a artéria...
O MC saiu a procura e voltou com um foco retirado da observação. Tirou o suporte de soro e encaixou o foco. Perfeito. Temos luz. Graças a criatividade do MC.
O RD escorrega na sala ao tentar sair para buscar material de cirurgia, o MC providencia lençóis jogados ao chão para absorver a agua ensaboada e nos dá um mínimo de segurança no trabalho.
O cheiro de sangue, misturado com o odor exalado pelo tumor, dá uma sensação desagradável. Me pergunto por que tem que ser assim. Não deixo de pensar como se sente uma pessoa que esta literalmente sendo consumida viva, com sua cognição preservada e seu corpo cada vez menos seu…
Aos poucos e de forma rápida o ambiente fica sob controle e com o improviso feito pelo MC para que tivéssemos um foco auxiliar, o cirurgião consegue localizar e pinçar a “boca” da artéria que jorrava sangue.
- Agora ficou bom – disse alguém.
- O bom é inimigo do ótimo – respondeu SG.
- Inspirado Doutor. – brinquei - vou usar isto nas minhas aulas.
A primeira parte da noite foi dedicada a este paciente, pinça, corta, segura, solta e no final das contas conseguimos deixar a família entrar para visitar um paciente descorado e sedado. Mas vivo.
A AND, enfermeira da clinica cirúrgica, me procura com um problema;
- J. Acho que você pode me ajudar. Tem um paciente de ressecção de tumor de próstata que está recebendo irrigação contínua. A sonda obstruiu, falei com o cirurgião Dr SG que mandou ligar para o urologista que por sua vez pediu para que eu trocasse a sonda. Já tentei desobstruir e não deu certo.
- Mas tarde eu vou até lá?
- Vai trocar a sonda? – perguntou, esperando uma resposta negativa.
- Acho que não. Vou tentar desobstruir. Se não der certo amanhã eles resolvem...
Antes de jantar, passei pela clínica e com uma parafernália adaptada com sonda nasogástrica, seringas e soro, consegui desobstruir a sonda vesical e a face de alívio do paciente ao sentir a bexiga esvaziando me deixou feliz.
- Está melhor seu A. – perguntei esperando a resposta positiva.
- Está ótimo. – respondeu o paciente.
- Ótimo é melhor que bom – completei, lembrando-me da frase ouvida há pouco.
O PS não parou. Um paciente trazido pelo resgate com historia de lombalgia e que na verdade tem uma enorme infecção cujo foco ainda não sabemos, mas eu desconfio da urina...
No corredor uma paciente, acompanhada pelas três filhas aguarda ser admitida e a VC já adianta:
- Você vai pedir ECG.
- Vou é?
- Tenho certeza.
A paciente queixava-se de agonia e uma sensação estranha que não sabia explicar. Junte isto a sudorese... Pedi mesmo e após receber o ECG, chamei o RB, clínico de plantão:
- Esta suprado em V2, V3 e V4, cara.
- Está mesmo. IAM. Ainda bem que você pediu o ECG, achei que fosse um DNV, ela não falava coisa com coisa e as filhas estão muito estressadas. Muito bom.
- Alguém me disse hoje que bom é inimigo do ótimo. (risos)
Enquanto cuidava da emergência a VC tocou o corredor e as observações sozinha. Internações, transferências, intervenções...
É muito bom saber que todos se empenham para o ótimo...
Fim de plantão, pausa no sofá da desintoxicação VC e eu estamos cansados.
- Hoje não foi fácil... - comentei
- Não mesmo - completou a VC.
Ao nosso lado sentaram AL e FB.
- Acabou, enfermeiros, vamos embora... – disse a FB
Até amanhã.
Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.…
Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?Renato Russo in “Quase sem querer”
Oi J. faz pouco tempo que estou na profissão, ser enfermeiro é uma arte que vc domina muito bem! Dp quero saber como vc desobstruiu a sonda do paciente da clinica cirurgica!
ResponderExcluirO bom é inimigo do ótimo.!!! é verdade....
ResponderExcluir