terça-feira, 10 de abril de 2012

Segunda Feira – Crianças e jovens

PMDV

Só havia três coisas sagradas na vida: a infância, o amor e a doença. Tudo se podia atraiçoar no mundo, menos uma criança, o ser que nos ama e um enfermo. Em todos esses casos a pessoa está indefesaMiguel Torga

Depois de algum tempo ausente, volto a publicar a histórias do plantão de Enfermagem. A ausência se deu mais pelo acúmulo de trabalho e necessidade de dedicação ao tratamento de meu filho, que pela falta de plantões assistências. Estes não tem faltado. Desde o último plantão muita coisa mudou e não necessariamente para melhor quando falamos em saúde pública. Perdemos três enfermeiros da equipe, algumas baixas por motivo de saúde e, para resumir, ainda pode piorar.

São pouco mais que 18:00 quando estaciono a moto no local de sempre, olho ao redor em busca de um rosto conhecido, cumprimento algumas pessoas que estão no sofá da fofoca e decido que não vou para o PS agora. Quanto mais cedo atravesso aquela porta mais cedo começo a trabalhar. Fico ali no sofá e observo a chegada dos funcionários. Converso com um, tiro a dúvida de outro, resolvo uma troca de folga, na verdade é um momento de descontração e interação. Brincamos, falamos sério, rimos e esperamos pacientemente o horário de registrar o ponto.

Quinze para as sete da noite e vai começar a brincadeira... Chego no PS acompanhado pela VC que hoje tem além de minha companhia a AD e MC como parceiras de Pronto Socorro. O inicio do plantão está confuso, a escala não bate com as folgas, quem devia estar na emergência está na enfermaria, os da enfermaria estão no corredor e ninguém entende nada, nem eu. Enquanto a VC recebe o plantão vou fazendo as modificações na escala e observando a movimentação de funcionários e pacientes.

Um choro insistente me incomoda. É um rapaz de aproximadamente 18 anos que urra de dor e o que me incomoda é que ninguém parece ouvi-lo.

- JB, prepara a medicação dele e me dê o material para punção. Vamos medicá-lo e encaminhar para o raio x.

- É para já. Chefe. – responde o JB, auxiliar de enfermagem, cursando a faculdade e que tem muita boa vontade em aprender.

Duas estagiárias se aproximam:

- Boa noite, enfermeiro. Podemos ser sua sombra hoje?

- Até podem. Mas minha sombra anda muito e rápido, portanto perguntem quando tiverem dúvidas.

Elas sorriem e começam o seu trabalho. Tenho paciência com estagiários, todos fomos um dia e é ruim demais quando não nos recebem bem.

O garoto em questão bateu a moto em uma carreta parada e, obviamente, que a carreta não0 sofreu grandes traumas. Ele por sua vez teve os ossos da perna logo abaixo do joelho fraturados e bem fraturados. Vai precisar de cirurgia, fisioterapia e aquelas coisas todas quem vem após uma fratura desta.

O rapaz é diabético, insulino dependente e agora isto. Dezoito anos, a vida não é justa.

-J, quanto tempo vou ficar parado? – pergunta o rapaz, agora sem dor.

- Pode colocar uns três, quatro meses. Sabe tricotar?

- Putz, vai ser osso... Você é legal, obrigado pela atenção.

- Relaxa. No fim dá tudo certo.

Alguém me chama na recepção e quando chego tenho a verdadeira visão do caos. Gente, muita gente aglomerada nos dois saguões. A porta da ortopedia está tão abarrotada que levo um tempo enorme para passar entre pernas, braços e outras partes doloridas ou quebradas mesmo. Chego ao consultório da clínica e minha amiga PT me olha como a pedir ajuda...

- Não posso fazer nada doutora. Vocês estão distribuindo brindes. Aí vem todo mundo prá cá.

- Esta demais, J. Nós somos os únicos de porta aberta na cidade. Vai explodir.

Volto para o PS e me pergunto o que fui fazer lá na frente. Não me lembro mesmo. Bem se for importante me ligam. E ligaram. Era a central de vagas. Temos tantas remoções para fazer que preciso pedir que os funcionários de outros setores as façam ou ficaríamos com o PS vazio.

Um paciente do corredor está mal. Avalio e mando para emergência. Oxigênio e pronto ele melhora quase que instantaneamente. Às vezes é mais fácil do que parece

O plantão flui calmamente. Nenhum grande acontecimento. Uma diabética descompensada transferida de um PA. Uma hipertensão aqui, uma dor ali e as coisas vão tomando lugar.

Hora da janta, visitas, explicações. Tudo normal.

Vou jantar com a VC e quando voltamos observo uma movimentação “suspeita” na sala de emergência. Entro e encontro um garoto de doze anos na maca.

- O que aconteceu? – Perguntei enquanto entrava na sala.

- A família disse que ele estava bem e de repente caiu... – respondeu alguém.

- Ele está descerebrando... Olhem os braços

- A veia não está boa... - observou o JB

- Não está mesmo – completou a AD

- Me deem um jelco decente...

Enquanto punciono a jugular do garoto, observo a VC, está pensativa, distante – Isto está mexendo com ela.

- Acho melhor vocês se protegem – diz a PT – pode ser meningo...

Todos de máscara e AD sugere:

- Parece AVCH...

- Parece mesmo – respondi – Vamos prepara o material para entubar... PT você vai entubar, né?

- Você acha melhor?

- Melhor entubar agora que na PCR.

- Então vamos.

A entubação foi difícil, tivemos que pedir ajuda do SMD, médico mais experiente e que, sejamos justos, raramente erra um tubo.

Entubação, veia, sondas e a notícia para a família que parece não acreditar. Há mais de vinte pessoas lá fora. Ansiosas mas tranquilas, recebem a notícia, fazem as perguntas e ficam sabendo que iremos transferir o pequeno para outro hospital onde poderá contar com neurocirurgia.

Após a TC a confirmação: AVCH. A criança foi para o centro cirúrgico mas seu prognóstico não é bom. Para nós missão cumprida. A função do emergencista: manter vivo, diminuir danos e evitar sequelas evitáveis, foi cumprida e isto me conforta. Mas crianças não deveriam ficar doentes. É injusto.

Uma mulher entra com o filho no colo:

- Ele não está respirando… Socorro.

Pego a criança, que tem poucos dias de vida. Está corada e dormindo:

- Mãe ele está bem. Mas se quer ficar tranquila leve ao pediatra. É o primeiro filho?

- Sim.

A mãe não tem mais que 16 anos e o pai uns 20. Crianças cuidadndo de outra. Oriento-os e eles vão levar o herdeiro ao pediatra

A noite avança uma epistaxe e aproveito para ensinar o JB a fazer um tampão nasal com adrenalina.

Chegam os bombeiros: trazem um rapaz que ingeriu álcool e cheirou cocaína demais. (como se houvesse uma quantidade aceitável para esta droga…)

- Ele tem acompanhante?

- Sim - responde o cabo dos bombeiros - a namorada está fazendo a ficha .

- Qual a idade? – pergunto.

- 18 anos 

- Outra criança nas drogas…

Veia, soro e a descoberta que o rapaz é moça.

- Mas parece menino... – dia a VC.

- O nome é Beatriz...

- É menino

Ainda teremos um SAMU, com o paciente em óbito, mais dois ou três casos de ortopedia e o plantão vai chegando ao fim.

Tenho alguns papéis para assinar e responder. Esta parte é ruim, mas precisa ser feita...

Fim de plantão, sentamos no sofá para a nossa desintoxicação do estresse do plantão. É quase uma rotina, passamos o plantão e ficamos ali conversando, rindo e falando besteiras sérias e seriedades bestas.

- Você está aí no próximo – pergunta a AD para VC

- Não – responde a outra.

- Então vamos nos ver só domingo, porque eu folgo sexta...

- E eu estarei aqui todos estes dia. Viu como é bom ser chefe?

Risos

Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente.

Henfil

Até amanhã

4 comentários:

  1. Parece um plantão de um PS infantil rsrs.
    Realmente as crianças não deveriam ter doenças graves, AVCH? Nunca iria imaginar... vc sabe a causa? Já tinha algum antecedente? Parabéns pelo desenrolar do plantão. bjs

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  2. Olá ! Fiquei feliz ao ver sua nova postagem! É muito bom termos uma ideia do que enfrentaremos na profissão e seus relatos são sempre emocionantes...Um abraço !

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  3. Adoreo este blog. É simplesmente o máximo

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  4. Divertido este plantão hem!!!!!! adorei... um bom final de semana.

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