Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.
Voltaire
Faltam alguns minutos para as seis da tarde quando paro a moto no estacionamento do hospital. Antes de descer faço uma varredura visual e identifico os “madrugadores” de sempre:uma secretaria de ala, alguns fumantes ainda do plantão do dia que, coincidentemente sempre estão fora de seus setores a esta hora e permanecem assim por pelo menos quarenta minutos e alguns membros de minha equipe que por motivos diverso entram ás dezoito e não às dezenove horas.
Subo até a diretoria, tenho problemas administrativos a resolver e a CL, nosso braço direito para estes assuntos, fica maluca com minhas anotações sobre horas extras, folgas etc.
São 18:45 quando empurro um dos lados da porta vai e vem. A cena que se apresenta me faz pensar em dar meia volta ir ver como está o resto do hospital e sumir do Pronto Socorro. Mas não, eu fico. Decido observar a passagem do plantão sem me envolver. Estou estranhamente irritado hoje e corro o risco de não segurar a língua.
Enquanto observo o PS vou planejando o que fazer para organizar minimamente esta confusão. Há pelo menos 5 pacientes sentados em cadeiras e mais dois aguardando admissão além daqueles “confortavelmente” deitados nas macas e camas do Pronto Socorro. Uma Auxiliar de Enfermagem da trade me aborda:
- Está pensando no que, J.? Em ir embora não é? Ou você gosta disto?
Apenas dou um sorriso Monalisa e vou para o meio da confusão...
Assumimos o plantão e eu decido assumir o Pronto Socorro, pelo menos até organizar um pouco esta loucura.
- Família vamos fazer o seguinte: vamos retira todas as poltronas da soroterapia, colocar para os pacientes se acomodarem aqui no corredor e na soro colocamos cadeiras comuns.
- Certo- responde a AN, técnica de enfermagem que logo já está puxando macas e cadeiras em companhia da RS, auxiliar em seu último plantão pré férias,
- E se perguntarem digam que foi a Enfermeira VC quem mandou – provoco olhando para a VC - que apenas sorri e meneia a cabeça, concordando mas achando inusitada minha decisão.
Depois de arrumado o PS fica mais fácil de administrar. A emergência está cheia, cinco pacientes, sendo que uma acaba de parar. Tentamos trazê-la de volta mas não conseguimos. O SAMU entra, ainda durante a RCP, com outra paciente em estado grave. Vai ser entubada. Mal desistimos desta e já vamos para outra. Trocamos de luvas e não há tempo para lavar as mãos. Loucura. Entubando uma enquanto o corpo da outra jaz ao lado, abandonado, ainda ligado aos aparelhos…
- MZ – chamo a auxiliar, já formada enfermeira, que chega atrasada, mas a tempo de me salvar.
- Boa noite chefe.
- Boa noite. Seja bem vinda. Faz um ECG nesta paciente e prepara o corpo para mim.
- É pra já. Assim não levo bronca pelo atraso.
- Também te amo.
Enquanto atendíamos as emergências o MC, enfermeiro que dá seu último plantão antes de ir para o dia, resolve outros entraves. Encaminha pacientes entubados para a tomografia. Solicita ambulâncias para transferências e vai liberando a emergência dois. Vou sentir falta deste menino. Muito bom enfermeiro e quando conseguir controlar os impulsos será um dos melhores
Uma senhora de cabeça toda branca está deixando as auxiliares malucas no corredor. Ela não para na maca e só se aquieta quando eu falo com ela.
- Vó, fica quietinha.
- Tá bom meu filho. Você é lindo.
- Ela não está bem. Vamos conter? Sugere a FB.
- Esta doida? Ninguém amarra a minha vozinha.
O Corredor está explodindo. Não pára de chegar gente e as meninas se revezam na difícil tarefa de agradar a todos. Eu as chamo de “ Pingüins de Madagascar” pois assumem missões impossíveis e com um bom humor surpreendente Elas: AL, FB, BT
e AN ( a técnica) realmente fazem o melhor para cumprir as missões dadas e raramente as vemos reclamando de algo que não seja o cansaço.
Elas dividem as tarefas e fazem tudo de maneira que no final, tudo dá certo. Me lembra muito o desenho animado.
A enfermeira AN sob para tentar me convencer a aceitar no isolamento do PS um paciente com síndrome de Fournier. E consegue. Não há porque deixá-lo na enfermaria com o isolamento vazio. Percebo que os colegas do PS não gostam muito. Mas agradar a todos nunca foi minha pretensão.
O Dr SM chega para fazer seu horário. Na verdade ele esta a tempos, transferiu dói pacientes e suporte avançado e agora questiona o porque mandamos duas idosas para UTI de outro hospital sem prognóstico favorável.
- Não é só o prognóstico – intervenho – isto aqui está um inferno. Se conseguirmos tirar meio paciente já é lucro.
- Entendo sua posição, respeito. Mas não concordo. Eu não faria.
O assunto avança para administração, falta de recursos etc.
Desço na UTI tenho uma visita a fazer: o paciente de 30 anos que parou conosco há alguns dias, foi extubado. Está lúcido e conversando. Ao chegar pergunto:
- Lembra de mim?
- Foi a última cara que eu vi antes de tudo ficar preto... Obrigado. Você é muito bom.
- Relaxa e dorme. Depois conversamos.
Saí da UTI com um maldito cisco no olho. Isto faz tudo valer a pena.
A hora avança, o PS está arrumado. Minha vozinha continua dando dores de cabeça. A VC conversa comigo:
- Ela está demais. As meninas queriam amarrar. Mas eu falei que ninguém coloca a mão na vó do J. Então ela está assim, insuportável. (risos)
- Doutor SM. Pode prescrever um D-10 para minha vozinha?
- É pra já.
Algum tempo depois ela, já sonolenta, me chama.
- Filho, vem deitar também. Está frio pra você ficar no tempo.
- Boa noite vó.
O paciente do isolamento que ir embora. E o SM não se conforma.
- Ele não pode ir embora. Se necessário amarra e faz um dormonid. Melhor me processar vivo que outro me processar porque ele morreu.
Todos se olham e a TM me pergunta o que fazer.
O SM reforça:
- J, vamos fazer o dormonid e amarrar. Não acha melhor que ele fugir?
- Entendo sua posição, respeito. Mas não concordo. – respondi – devolvendo sua fala de horas atrás.
- Então não vai fazer?
- Não. Vou conversar com ele.
- Após dez minutos de conversa o paciente resolveu ficar.
Meu plantão assistencial está terminando. Tenho que colocar o administrativo em ordem e já são três e meia da manhã.
A AL bate na porta:
- J. O paciente mandou eu te entragar isto.
- Era um espeto de carne, destes de barraca de frente de hospital. Não consegui comer, mas o gesto me comoveu. Estou muito mole hoje. Até churrasco de gato me faz chorar…
Antes de ligar o computador penso rapidamente no dia. Na alegria de ver um paciente pós PCR conversando, na organização desorganizada do Pronto Socorro, nas Pingüins de Madagascar, na doçura da vozinha, no churrasquinho de gato e respondo à pergunta que a auxiliar da tarde me fez no início do meu plantão:
- Sim. Eu gosto muito disto aqui.
Até mais
Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.
George Orwell
A coisa mais importante que eu aprendi com o J: Com cuspe e com jeito...
ResponderExcluirÉ incrível como ele consegue ver aquela zorra e achar que vai dar conta e o pior ele dá conta e ainda arruma tempo para café, piadas e sarcasmos. Te adoro J.
Enfermeira
Antes era a treva. Ele chegou, todo mundo ficou com medo. Mas sabe aquele enfermeiro que vc confia. Que voce sabe que vai ficar do teu lado sempre e que não perde em conhecimento para nenhum médico? Este é o J. O nosso chefe
ResponderExcluirAux
Parabéns..........
ResponderExcluirAdorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirVc como sempre dando um jeitinho para organizar o plantão.......parabéns.
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