terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Domingo: Batalhas

 

  São 18:45 quando encosto a moto no estacionamento, saí de casa debaixo de um temporal inimaginável e cheguei ao trabalho sob um tempo seco quase ensolarado, apesar do horário. Esta é uma das conseqüências de se trabalhar a 45 Km de casa, não parece, mas é muito longe.

Bato meu cartão, converso rapidamente com alguns funcionários próximos ao relógio de ponto e vou direto ao PS.

A porta vai e vem esconde um Pronto Socorro lotado, sem macas disponíveis e com oas problemas de sempre. Olho para o balcão e a enfermeira RS, que esta fazendo hora extra, parece meio perdida.

- Boa noite RS, está no PS hoje?

- Estou. Perdida, mas me acho.

Após dois telefonemas sou informado de que não tenho enfermeiro na clínica médica.

- RS, por favor, vá para a Clínica. Lá é tua praia e você me ajudará mais.

- Mas e aqui...?

- Aqui é minha praia. Pode deixar.

Realmente ela domina a clínica médica e o PS hoje é para quem sabe lidar com esta confusão organizada que só quem trabalha aqui entende.

Alguns remanejamentos... E a equipe está pronta para mais uma batalha. Está cheio, mas poderia ser pior.

Ficamos TM e eu. Ótimo. Lembrei-me de quando chegamos para o primeiro dia. Éramos nós dois começando juntos e viemos direto para o PS. Ela nunca gostou daqui. Eu me apaixonei.

Estamos lotados.

Na emergência temos um AVE, dois IAM e uma paciente, cunhada de uma auxiliar da equipe com CA muscular e neurofibromatose. Seu corpo está coberto por nódulos de 01 a dois centímetros cada. Nada bonito de se ver... O pulmão comprometido faz com que ela respire com dificuldade. Sua face demosntra o cansaço causado pela batalha que vai chegando ao fim. Sua cunhada pede para cuidar dela. Não é o ideal mas diante da insistência resolvo baixar a guarda e mudo a escala.

- Obrigado chefe. Você é lindo.

- E você é interesseira

(risos)

Primeiro SAMU da noite, e logo atrás, o segundo SAMU da noite. Colisão entre carros e temos duas irmãs imobilizadas nas pranchas de resgate. A primeira está ansiosa e chorosa.

- Esta está lúcida, estava deambulando no local. Glagow 15 – informa o Tecnico do SAMU.

Isto significa que ela está bem e após a avaliação inicial, concordo com ele.

A técnica da outra UR me passa um caso semelhante, mas a paciente não se lembra de nada. Estava sem o cinto de segurança, no banco de trás do carro e bateu violentamente a cabeça. Amnésia recente. Repete perguntas já respondidas. Vai precisar de tomografia e cuidados.

Passará a noite. Bem. A tomografia não vai revelar muito além de uma contusão e com a chegada de sua mãe deixarei que fique acompanhada.

Uma senhora com apendicite, aguarda o momento de ser operada. O bom humor dela me chama atenção.

- Ainda tem pessoas felizes neste mundo...

- Que é isso querido. Sou muito forte. Não é um problemiha deste que me derruba. deus é meu aliado nesta batalha.

- Boa sorte

- Obrigada

Uma jovem me procura:

- Você que é o J?

- Enfermeiro J. Sim.

- Meu marido caiu da escada, está com o pulso quebrado e não tem médico lá na frente.

- Não posso responder pelos médicos. Sou responsável pela equipe de enfermagem.

- Mas você não pode, pelo menos avaliá-lo para que fiquemos mais tranqüilos?

-Esta é a função do médico... – Antes de terminar a frase a pergunta dela fez efeito e minha ficha caiou: Estou empurrando o que eu posso ajudar.

- Estou indo lá.

Avaliei o rapaz. Tem uma deformidade importante no punho e bateu a cabeça. Encaminho para o cirurgião e depois para o ortopedista. Vai ficar internado, aguardando cirurgia no punho. Durante o resto da noite ainda cgamará mais duas ou três vezes devido a dor.

- Obrigada – diz a esposa – você foi muito gentil.

- É meu trabalho. E voc~e é muito insistente – respondi sorrindo.

- Pela minha família, luto até o fim…

Minha equipe está a mil. Transferências, exames, remoções. A noite passa e o trabalho fica leve quando levamos com bom humor.

A TM me passa o caso de um rapaz de alta. Morador de rua não tem como ir para o albergue agora e não quer deixar a maca. Precisamos da maca.

- Boa noite. Você é ….?

- João - respondende o rapaz de batom, unhas pintadas e sandálias femininas

- Mas te chamam de João mesmo?

- Meu nome é Natasha…

- Então, Natasha, meu nome é J, enfermeiro. Preciso desta m,aca para colocar um doente. Se importa de passar para a poltrna?

- Claro que não.Ainda mais com você que é super educado.

Enquanto ele passava à poltrona a uma auxilliar falou baixinho….

- Oi chefinho super educado (risos)

Uma equipe de remoção traz uma senhora de 83 anos. IAM.

O médico que a acompanha passa o caso para a KT, clínica de plantão, quando o obordo:

- Fez eletro?

- Sim...

- Cadê?

- Acho que ficou lá...

- O acesso venoso ficou lá também?

- Ela não recebeu nada IV.

- Monitor, Oxigênio e Veia, doutor.

- É mesmo, J. Foi mal. Esqueci do feijão com arroz.

Após fazer o eletro minhas suspeitas se confirmam. Nada. Vai passar a noite conosco. Mas irá embora assim que amanhecer, pois as enzimas e troponina também estão normais.

Mai tarde a mesma equipe voltaria com outra paciente

- Ah, desta ves veio com acesso venoso – provoquei

- Depois da bronca – responde o médico – eu aprendo rápido. Antes de sair de lá devolvi a bronca que recebi aqui.

Esta vai ficar na maca da ambulância. AVE não tem como ir para poltrona e não temos mais macas.

Uma mulher, 30 e poucos anos, no colo do marido, está hiperventilando voluntariamente. Quando os parentes saem, coloco-a na cadeira de rodas e encaminho ao consultório. Ela simula tudo. Dores, falta de ar, desmaios...

Quando é mandada para a sala de soro diz que não está sentindo o rosto e depois apresenta a boca mais torta que já vi na vida...

- O que eu faço chefe? – Pergunta RL a auxiliar que está atendendo.

- Não faz nada. Deixa assim que ela está mais bonita que o normal...

Algum tempo depois a paciente melhorou milagrosamente... E foi embora. Reclamando...

Madrugada, a noite voou e estamos quase terminando o plantão.

Rapaz trinta anos, dor no peito. Fez uso de cocaína. O eletro está alterado. Me preocupo com ele. Recebe dolantina, mas a dor não passa.

- Doutor, meu peito dói. Faz massagem no meu peito.

- Calma- respondo- não é hora de fazer massagem.

Inquieto ele não para de reclamar. Recebe a medicação para IAM e fica na emergência. Vamos ficar de olho.

São seis e meia da manhã. Estamos organizando o PS para passar o plantão quando a MN, auxiliar da emergência me chama:

- Enfermeiro!

O rapaz da cocaína parou na nossa cara.

- Peguem o desfibrilador e chamem um clínico. Monitor, Preparem adrenalina, ambuze!! Ele queria que eu o massageasse... Conseguiu. Vamos lá.

Compressões...

Oxigênio...

Enquanto trabalhávamos, observei a dinâmica da equipe. Resolutivos, integrados e se comunicando com precisão. Fiquei orgulhoso...

Chega o médico:

- Desfibrilador

- Pronto e carregado em 360...

- Afasta...

O desfibrilador falhou...

A BT pegou outro na sala ao lado...

_ 360? Pronto

- Afasta

Compressões...

- Tem pulso.

- Tem ritmo

- Pressão 10x6

Agimos rápido. Ele voltou após o primeiro choque. Não ficou cinco minutos parado

Estou me sentindo bem. Minha equipe demonstrou que sabe trabalhar.

Fim de plantão Converso com a TM

- Sobrevivemos e não matamos ninguém...

- É chefe, sobrevivemos.

- Estava com saudade da assistência...

Passamos o plantão melhor do que encontramos. Mas muito mais cheio.

- Obrigado família. Até amanhã.

- Até amanhã

Na saída observo o paciente na sala de emergência. A noite valeu a pena

"Só avalie o trabalho ao final do dia e com a tarefa cumprida." (Elizabeth Barrett Browning)

2 comentários:

  1. Orgulho temos nos. Trabalhar com um enfermeiro que transmite segurança e não deixa a desejar quando o assunto é discutir com médico de igual para igual.
    Nunca vi o J fugir da raia ou deixar de defender um funcionário da equipe dele. Parabéns

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  2. J. Vc não vai mai publicar no profissão Enfermeiro?
    Prabéns pelo blog. Leio sempre

    Nurse Quel

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