São 18:45 quando encosto a moto no estacionamento, saí de casa debaixo de um temporal inimaginável e cheguei ao trabalho sob um tempo seco quase ensolarado, apesar do horário. Esta é uma das conseqüências de se trabalhar a 45 Km de casa, não parece, mas é muito longe.
Bato meu cartão, converso rapidamente com alguns funcionários próximos ao relógio de ponto e vou direto ao PS.
A porta vai e vem esconde um Pronto Socorro lotado, sem macas disponíveis e com oas problemas de sempre. Olho para o balcão e a enfermeira RS, que esta fazendo hora extra, parece meio perdida.
- Boa noite RS, está no PS hoje?
- Estou. Perdida, mas me acho.
Após dois telefonemas sou informado de que não tenho enfermeiro na clínica médica.
- RS, por favor, vá para a Clínica. Lá é tua praia e você me ajudará mais.
- Mas e aqui...?
- Aqui é minha praia. Pode deixar.
Realmente ela domina a clínica médica e o PS hoje é para quem sabe lidar com esta confusão organizada que só quem trabalha aqui entende.
Alguns remanejamentos... E a equipe está pronta para mais uma batalha. Está cheio, mas poderia ser pior.
Ficamos TM e eu. Ótimo. Lembrei-me de quando chegamos para o primeiro dia. Éramos nós dois começando juntos e viemos direto para o PS. Ela nunca gostou daqui. Eu me apaixonei.
Estamos lotados.
Na emergência temos um AVE, dois IAM e uma paciente, cunhada de uma auxiliar da equipe com CA muscular e neurofibromatose. Seu corpo está coberto por nódulos de 01 a dois centímetros cada. Nada bonito de se ver... O pulmão comprometido faz com que ela respire com dificuldade. Sua face demosntra o cansaço causado pela batalha que vai chegando ao fim. Sua cunhada pede para cuidar dela. Não é o ideal mas diante da insistência resolvo baixar a guarda e mudo a escala.
- Obrigado chefe. Você é lindo.
- E você é interesseira
(risos)
Primeiro SAMU da noite, e logo atrás, o segundo SAMU da noite. Colisão entre carros e temos duas irmãs imobilizadas nas pranchas de resgate. A primeira está ansiosa e chorosa.
- Esta está lúcida, estava deambulando no local. Glagow 15 – informa o Tecnico do SAMU.
Isto significa que ela está bem e após a avaliação inicial, concordo com ele.
A técnica da outra UR me passa um caso semelhante, mas a paciente não se lembra de nada. Estava sem o cinto de segurança, no banco de trás do carro e bateu violentamente a cabeça. Amnésia recente. Repete perguntas já respondidas. Vai precisar de tomografia e cuidados.
Passará a noite. Bem. A tomografia não vai revelar muito além de uma contusão e com a chegada de sua mãe deixarei que fique acompanhada.
Uma senhora com apendicite, aguarda o momento de ser operada. O bom humor dela me chama atenção.
- Ainda tem pessoas felizes neste mundo...
- Que é isso querido. Sou muito forte. Não é um problemiha deste que me derruba. deus é meu aliado nesta batalha.
- Boa sorte
- Obrigada
Uma jovem me procura:
- Você que é o J?
- Enfermeiro J. Sim.
- Meu marido caiu da escada, está com o pulso quebrado e não tem médico lá na frente.
- Não posso responder pelos médicos. Sou responsável pela equipe de enfermagem.
- Mas você não pode, pelo menos avaliá-lo para que fiquemos mais tranqüilos?
-Esta é a função do médico... – Antes de terminar a frase a pergunta dela fez efeito e minha ficha caiou: Estou empurrando o que eu posso ajudar.
- Estou indo lá.
Avaliei o rapaz. Tem uma deformidade importante no punho e bateu a cabeça. Encaminho para o cirurgião e depois para o ortopedista. Vai ficar internado, aguardando cirurgia no punho. Durante o resto da noite ainda cgamará mais duas ou três vezes devido a dor.
- Obrigada – diz a esposa – você foi muito gentil.
- É meu trabalho. E voc~e é muito insistente – respondi sorrindo.
- Pela minha família, luto até o fim…
Minha equipe está a mil. Transferências, exames, remoções. A noite passa e o trabalho fica leve quando levamos com bom humor.
A TM me passa o caso de um rapaz de alta. Morador de rua não tem como ir para o albergue agora e não quer deixar a maca. Precisamos da maca.
- Boa noite. Você é ….?
- João - respondende o rapaz de batom, unhas pintadas e sandálias femininas
- Mas te chamam de João mesmo?
- Meu nome é Natasha…
- Então, Natasha, meu nome é J, enfermeiro. Preciso desta m,aca para colocar um doente. Se importa de passar para a poltrna?
- Claro que não.Ainda mais com você que é super educado.
Enquanto ele passava à poltrona a uma auxilliar falou baixinho….
- Oi chefinho super educado (risos)
Uma equipe de remoção traz uma senhora de 83 anos. IAM.
O médico que a acompanha passa o caso para a KT, clínica de plantão, quando o obordo:
- Fez eletro?
- Sim...
- Cadê?
- Acho que ficou lá...
- O acesso venoso ficou lá também?
- Ela não recebeu nada IV.
- Monitor, Oxigênio e Veia, doutor.
- É mesmo, J. Foi mal. Esqueci do feijão com arroz.
Após fazer o eletro minhas suspeitas se confirmam. Nada. Vai passar a noite conosco. Mas irá embora assim que amanhecer, pois as enzimas e troponina também estão normais.
Mai tarde a mesma equipe voltaria com outra paciente
- Ah, desta ves veio com acesso venoso – provoquei
- Depois da bronca – responde o médico – eu aprendo rápido. Antes de sair de lá devolvi a bronca que recebi aqui.
Esta vai ficar na maca da ambulância. AVE não tem como ir para poltrona e não temos mais macas.
Uma mulher, 30 e poucos anos, no colo do marido, está hiperventilando voluntariamente. Quando os parentes saem, coloco-a na cadeira de rodas e encaminho ao consultório. Ela simula tudo. Dores, falta de ar, desmaios...
Quando é mandada para a sala de soro diz que não está sentindo o rosto e depois apresenta a boca mais torta que já vi na vida...
- O que eu faço chefe? – Pergunta RL a auxiliar que está atendendo.
- Não faz nada. Deixa assim que ela está mais bonita que o normal...
Algum tempo depois a paciente melhorou milagrosamente... E foi embora. Reclamando...
Madrugada, a noite voou e estamos quase terminando o plantão.
Rapaz trinta anos, dor no peito. Fez uso de cocaína. O eletro está alterado. Me preocupo com ele. Recebe dolantina, mas a dor não passa.
- Doutor, meu peito dói. Faz massagem no meu peito.
- Calma- respondo- não é hora de fazer massagem.
Inquieto ele não para de reclamar. Recebe a medicação para IAM e fica na emergência. Vamos ficar de olho.
São seis e meia da manhã. Estamos organizando o PS para passar o plantão quando a MN, auxiliar da emergência me chama:
- Enfermeiro!
O rapaz da cocaína parou na nossa cara.
- Peguem o desfibrilador e chamem um clínico. Monitor, Preparem adrenalina, ambuze!! Ele queria que eu o massageasse... Conseguiu. Vamos lá.
Compressões...
Oxigênio...
Enquanto trabalhávamos, observei a dinâmica da equipe. Resolutivos, integrados e se comunicando com precisão. Fiquei orgulhoso...
Chega o médico:
- Desfibrilador
- Pronto e carregado em 360...
- Afasta...
O desfibrilador falhou...
A BT pegou outro na sala ao lado...
_ 360? Pronto
- Afasta
Compressões...
- Tem pulso.
- Tem ritmo
- Pressão 10x6
Agimos rápido. Ele voltou após o primeiro choque. Não ficou cinco minutos parado
Estou me sentindo bem. Minha equipe demonstrou que sabe trabalhar.
Fim de plantão Converso com a TM
- Sobrevivemos e não matamos ninguém...
- É chefe, sobrevivemos.
- Estava com saudade da assistência...
Passamos o plantão melhor do que encontramos. Mas muito mais cheio.
- Obrigado família. Até amanhã.
- Até amanhã
Na saída observo o paciente na sala de emergência. A noite valeu a pena
"Só avalie o trabalho ao final do dia e com a tarefa cumprida." (Elizabeth Barrett Browning)
Orgulho temos nos. Trabalhar com um enfermeiro que transmite segurança e não deixa a desejar quando o assunto é discutir com médico de igual para igual.
ResponderExcluirNunca vi o J fugir da raia ou deixar de defender um funcionário da equipe dele. Parabéns
J. Vc não vai mai publicar no profissão Enfermeiro?
ResponderExcluirPrabéns pelo blog. Leio sempre
Nurse Quel