terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domingo. Luta, Dedicação e Aceitação

 

Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte. (Sigmund Freud)

Dez minutos para as seis da tarde e já estou no sofá observando o movimento pré plantão. A “feirinha” corre solta o L, rapaz que vende tudo e venderia a mãe se fosse possível auferir algum lucro com isto, resolve problemas de garantias de seus produtos “genéricos”  enquanto o filho da KR, que ela não vende mas aluga, segundo suas próprias palavras, faz a cobrança dos esquecidos já que a mãe está de férias e o negócio precisa prosperar.

No sofá ao lado as auxiliares de limpeza conversam sobre família, filhos, amantes e chefes. Tudo junto e misturado. Estão tristes e preocupadas com a troca de chefia.

Entre um cigarro passivo e outro a hora de assumir o plantão vai se aproximando e eu decido ir para o PS somente “em cima da hora”.

São dez para sete quanto cruzo as portas “vai e vem” e lembro de uma frase “Já que está no inferno, abrace o capeta”. Está um verdadeiro inferno e tem tudo para piorar. Gente por todos os lados e as recepções completamente lotadas. Os leitos novos que foram criados com a recente reforma serviram apenas para aumentar o numero de internados sem reso0lver o problema do Pronto Socorro. Alias piorou pois como construíram os quartos mas “esqueceram” de comprar as camas a solução foi retirar as camas da observação, substituindo-as por macas, e em contrapartida faltam macas para o corredor, mas os pacientes continuam chegando.

Observo a escala, distribuo os enfermeiros e converso com a VR.

- Hoje não vou ficar na assistência, tenho muito trabalho administrativo atrasado.

- Pode deixar, chefe. A gente dá conta.

Mantive minha palavra até as 22 horas quando ao sair da sala deparo com um caos maior do que o que encontramos. Um batalhão de funcionários do SAMU aguardando liberação, pacientes reclamando da falta de clínico geral no plantão, funcionários andando em círculos sem resolver nada e a sala de emergência abarrotada de gente enquanto um anestesista instala um acesso central no mesmo lugar. Não tem jeito vou entrar na dança.

- Pessoal, vamos organizar o baile - falo em voz alta - quem não for paciente ou funcionário, aguarde lá fora que daqui a pouco falo com todos.

Só esta atitude já diminui muito o burburinho no corredor então começo a organizar a liberação das macas do SAMU. Um, dois, três, quatro, cinco...

- Caramba, hoje vocês decidiram trabalhar – brinco com a TM, enfermeira formada e que ainda atua como técnica no SAMU enquanto aguarda a colocação na nova função.

- Quando crescer quero ser igual a você. Chega e resolve. – responde ela enquanto me passa o caso de uma jovem, viciada em crack e que não foi aceita na psiquiatria por falta de médico.

Na outra maca, uma mulher com seqüelas de paralisia infantil que caiu e fraturou a tíbia. Um bêbado que se recusa a falar. Outro atropelado. Uma moça vítima de colisão entre carros...

A solução foi tirar quem estava melhor das macas para acomodar os recém chegados e, paulatinamente, ir liberando as equipes. Em meia hora todos liberados.

Na emergência um baleado. Garoto 17 anos: troca de tiros com a polícia. Seu linguajar e tatuagens não deixam dúvidas quanto à sua opção de vida. Por sorte (dele) o único tiro na perna direita só atingiu partes moles. Vai ficar bem para assaltar de novo.

Na sutura a coisa não está boa. A todo instante, cortes, quedas, brigas, mordidas de gato e cachorro e uma picada de escorpião. Domingo não é dia de descanso?

Na emergência um paciente com IAM recebe a medicação sentado na poltrona por falta de maca, enquanto outro com tdreno torácico éamarrado para não retirar o artefato, tamanha sua cofusão mental.

A VR me traz um problema, uma garota com os dois olhos roxos não quer ficar no hospital apesar da fratura no tornozelo e necessidade de cirurgia.

- Você foi agredida? – pergunto para a paciente.

- Não.

- E estes olhos roxos?

- Briga com meu marido.

- O braço?

- Também,

- O pé quebrado também?

- Não. Caí da escada.

- Então... Está bem.

Ela não ficou mesmo. Evadiu-se, mas acabará voltando, quando descobrir que não vai ser fácil sarar sem a cirurgia...

São duas da manhã quando, finalmente, colocamos o PS em ordem. Observo o movimento das auxiliares: eu as chamo de 4 anãs pois BT, FB, AL e AN não têm mais que 1,60m cada uma. Mas quando se unem fazem o PS andar e rápido.

Elas trocam, medicam, encaminham e acham tempo para ter bom humor, Apesar do estresse que paira no ar.

Um paciente na masculina não está bem. Câncer em estágio terminal. O clínico decide que não vai reanimar caso o inevitável aconteça e acontece. A VV, enfermeira que está fazendo hora extra me procura:

- J, eu preciso falar. Não sei lidar com isto. Como deixar um paciente morrer sem manobra?

- Às vezes, na nossa profissão, temos que aceitar o inevitável. Qual a vantagem de reanimar um paciente nestas condições?

- Mas estou acostumada a reanimar...

- A distanásia é tão prejudicial quanto a eutanásia. Tem momentos em que o melhor para os nossos pacientes é o descanso. É o caso deste. Podemos investir, mas será apenas para nosso ego. Submetê-lo a procedimentos e manobras inúteis que só prolongariam o sofrimento não é o melhor para ele.

Conversamos mais alguns minutos a respeito, mas não encerramos o assunto. Voltaremos a falar sobr isto futuramente, eu espero.

A partir daí foi só manutenção. Ainda tivemos mais um óbito na emergência. Dois na noite. Péssimo.

Fim de plantão. Sento-me no mesmo sofá do início e observo as pessoas que entram e saem sem se dar conta do quanto é penosa esta função

Converso com a VR:

- Sobrevivemos, loira.

- Claro, chefe. Nossa equipe é ótima.

Olho para a VR e reconheço o quanto ela está melhorando como enfermeira, sinto uma ponta de orgulho.

- Até amanhã.

Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado...
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado...
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.(São Francisco de Assis)

5 comentários:

  1. J.... VC NÃO CONSEGUE FICAR FORA DA ASSISTÊNCIA.... CHEFIA OU ASSISTENCIAL, VC É ENFERMEIRO, UM ORGULHO PARA A CLASSE....UM SER HUMANO ACIMA DE TUDO, CAPAZ DE CONQUISTAR TODOS COM SERIEDADE E COMPETÊNCIA EM TUDO O QUE FAZ...... PARABÉNS!!!!!

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  2. PARABÉNS PELO ESFORÇO E DEDICAÇÃO NO TRABALHO.....

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  3. Quando o J não esta o plantao é zuado. Alem de ser sem graça. Ele é único, consegue fazer piada quando todo mundo ta nervoso e ficar nervoso quando todos estão na moita...
    Ahhh e é solteiro kkkkkkkkkkk Ah se eu te pego....

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  4. viva o j. o melhor enfermeiro que conheço...e olha que conheço muitos

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  5. Saudades das suas histórias! Escreve mais please!

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