sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quinta feira. Dores e alegrias. Vale a pena ser Enfermeiro

São 18h00min quando chego ao hospital. Minha coluna lombar parece querer se vingar de todos os anos de sofrimento a que foi submetida. Mal consigo descer da moto e hoje já é quinto dia com esta dor.

Vou para o PS e, quando confiro a escala, a vontade é de chorar. Dos dois enfermeiros escalados no Pronto Socorro um está de licença médica e a outra chega somente as 20h00min. Ainda folheio a escala do resto do hospital na esperança de que a solução possa ser diferente daquela que passa por minha cabeça. E para ficar mais divertido o PS está lotado, ou melhor, transbordando. São tantas macas que mal dá para caminhar. Respiro e peço para a colega que sai de plantão:

- Podem passar para mim, os colegas do PS chegarão mais tarde.

- Chefe, vou por na tua sala. Só tem este, diz a CL, auxiliar de enfermagem, segurando um privativo em cada braço.

Recebo o plantão com os problemas de sempre e a mesma falta de solução. Coloco o uniforme privativo que a CL trouxe especialmente para mim. Pego minha maleta de trabalho e vamos á luta. Penso porque a Rede BOBO de televisão não faz uma matéria sobre o sacrifício dos profissionais de enfermagem para cuidar de pessoas nestas condições…

Sinais vitais de todo mundo, reavaliações, transferência e com um pouco de esforço conseguimos algum espaço no corredor e duas macas para atender emergências. Um paciente que está perto da porta retira sorrateiramente seu acesso venoso e sai como se estive fugindo de uma prisão e eu assim que percebo que ele conseguiu seu intento peço para uma auxiliar:

- FB, limpa esta maca e deita aquele senhor que está na cadeira. Rei morto, rei posto.

- Enfermeiro - a FB chama os enfermeiros mais pelo título que pelo nome - você não perde tempo.

Sou chamado na medicação, paciente com acesso venoso difícil, e acompanhante nervoso. Avalio a rede venosa e peço o material de punção. O acompanhante mal espera eu começar e dispara:

- Você só vai furar uma vez, por favor!

A vontade de mandar o acompanhante as favas foi superadas pela necessidade de controle em virtude da função, virei-me para a paciente:

- Té vendo, te furaram 10 vezes e eu só tenho direito a uma. Você acha justo?

- Pode tentar moço, só quero que a dor passe.

Uma tentativa, acesso pronto medicação correndo, acompanhante com cara de nádega e paciente feliz. Tem coisas que se pagam.

A AD chega, seu sorriso me deixa tranqüilo. Enfermeira experiente não se assusta com o PS lotado.

- Chefe, quem está comigo? – pergunta sabendo a resposta

- Eu.

- Então tá.

Noite agitada, pacientes solicitantes, mas a equipe tem funcionado bem. Perfeccionista como sou sempre quero melhorar algo e eles dão o retorno. Bendita hora que aceitei esta incumbência , tem sido gratificante na maioria das vezes.

- Sala de soro, outro acesso venoso. Estou indo – fala para AD

- Vai lá.

Minha coluna dói e muito. Preciso de medicação ou não vou agüentar muito tempo…

- AD, faz uns negócios na minha veia...

- É só falar chefe...

- Não falei. – problemas com familiares de uma paciente que chamou a Imprensa pois a mesma está no corredor desde cedo.

Resolvemos do jeito simples: não atendi a imprensa e transferi a paciente para o a clínica onde ficaria sem acompanhante. Amanhã os políticos resolvem esta.

Resolvo parar um pouco a coluna quase não permite movimentos mal sento-me na sala as supervisão e a EL, secretária de Ala me chama:

- Chefe, parada.

Olho no relógio, são 22h. Chego a sala de emergência. A paciente uma senhora de 60 anos não está parada, mas satura mal. 56 e seus pulmões parecem uma banheira de hidromassagem.

- Ambú, chamem a clínica e vamos preparar para intubar.

A clínica, DN, chega tentamos conduzir sem o tubo, mas não deu jeito. A paciente ganhou tubo, acesso central e sondas. Após o eletro o diagnóstico definitivo: IAM e EAP, péssima mistura. Mas ficamos felizaes a missão do emergencista é manter, ela está viva.

Após o atendimento, conversei com as meninas da emergência:

- Meninas poderia ser melhor, faltaram coisas básicas, coesão.

- Vamos melhorar chefe- diz a SH, auxiliar recém formada e que tem se esforçado bastante desde que cismei que ela seria boa na emergência – mas você exige perfeição. É impossível.

- Devemos buscar a perfeição para alcançarmos o melhor possível. Lidamos com a vida dos outros

- Dois meses na Emergência chefe. Mês que vem você me tira daqui?

- Não. – respondi sorrindo – o aço bom se tempera no fogo. E o bom soldado é forjado na batalha.

Ela sorriu e voltou ao trabalho. Tem futuro

A noite foi tranqüila, um engraçadinho no corredor chama uma estagiária:

- Moça estou com dor aqui – e mostra a perna.

Nem deixei a menina ficar vermelha, virei para o RD e pedi:

- Coloca um supositório extra G para melhorar a dor na perna do menino.

O corredor veio abaixo e o engraçadinho lamentou:

- Pô, J. Assim você me quebra...

Nada demais a noite toda. Mas muita solicitação. Ainda tenho todo o administrativo para fazer. São 3 e meia da manhã quando a AD me cobra:

- Tomou remédio?

- Não e nem consigo mais andar...

- O que você quer?

- Decadron, tilatil, dipirona se não melhorar vamos pedira para alguém passar um tramal.

A medicação fez bem...

Fim de plantão. Peço para AD passar pois tenho meu segundo tempo a começar as 08h00

- Beleza, pode ir. Até amanhã.

-Até Segunda, nega. Amanhã estou de folga. Esta coluna não agüenta mais.

-Então até quarta, quarta eu estou de folga

- Nossa! Que escala de corno a tua. Folgou anteontem, trabalhou ontem, folga amanhã

- Foi meu chefe que fez

Risos

Tem dias que a maior felicidade de um homem é poder fazer aquilo que gosta. Apesar das dificuldades.

Já vestindo a roupa de chuva, para me proteger da fuligem do asfalto e chegar limpo no outro hospital uma auxiliar me questiona;

- Chefe, você não cansa disto aqui. Parece um monstro que engole a gente.

- Devemos lutar contra os monstros...

Calei me ao lembrar de uma frase de Friedrich Nietzsche:

“Aquele que luta com monstros terá que tomar cuidado para que ele não se torne também um monstro. E se você olhar por muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

Até amanhã

4 comentários:

  1. Perfeccionista? O J não tem limite. Nunca está 10. é de 8,5 para baixo. Mal andava ontem e estava ajudando os AE a fazer controles, puncionar etc. Este nasceu pra ser Enfermeiro e F... pros que tem ciúmes

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  2. Amo trabalhar com o J. As vezes ele exagera na chatice, mas sempre consgue provar que esta com a razão pra desespero nosso kkkkkkkkkkkkkk

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  3. A melhor coisa deste plantão é o SUPERvisor rsrs. Um gato, competente, másculo como poucos na enfermagem e acima de tudo inteligentíssimo

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  4. Quero o chfe de volta!!!!!!!!!!!!!!!! kkkkkkk.

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