São 8:00 da manhã. Cheguei cedo ao emprego numero 02. A noite não foi fácil no numero um, muitos problemas. Estamos em época de negociação das folgas de fim de ano e isto causa um estresse enorme.
Uma rápida passada na padaria. A moça já sabe meu pedido, sou prevísivel, como diz minha eterna melhor amiga. Suco de laranja e um misto quente e estou pronto para mais uma rodada.
Ao entrar na unidade percebo que o dia será longo. Há uma multidão aguardando a consulta de enfermagem. A colega que esta na classificação parece não estar dando conta. Mal falo bom dia e me dirijo a uma técnica de enfermagem:
- Bom dia, me ajude aqui. traga um dextro e um aparelho de PA na minha sala.
- Estou indo…
Iniciamos o “reforço” na classificação, fiz de minha sala um consultório e em pouco tempo teríamos a recepção como eu gosto: vazia.
Os problemas não mudam: dores abdominais há dois dias, febre desde ontem, dores de garganta há uma semana, etc, etc. Quando vão entender a diferença entre UBS e Urgência?
A tarde se aproxima, uma senhora muito nervosa me procura na emergência.
- Moço, minha filha vai perder a mão. Está toda preta. Ela colocou o anel que aquele traste deu…
O traste é o namoradinho da menina de 14 anos, ele tem 14 também.
Uma médica já esta atendendo a moça:
- Pega um alicate e corta.
- Não! – grita a moça - vai me machucar.
- Não tem jeito, retruca a médica
Olho o dedo da moça e peço para técnica:
- Me dê um fio de sutura e dersani, por favor.
- Sério, chefe?
- Sim.
- Essa eu quero ver
Ela e a médica assistiram a “mágica” da retirada do anel com fio de sutura.
Entreguei o anel para a mocinha me despedi.
A mãe tomou o anel
- Me dá esta porcaria aqui. Nem saiu das fraldas… Obrigado moço. Viu como a mão dela estava preta?
- Não tem problema – respondi – eu sou preto inteiro e estou aqui.
Pelo menos saiu rindo e agradecida.
Gritos, choro e sou apresentado ao pequeno N. Um garoto de 6 anos com um corte enorme no queixo. Fruto de um tombo enquanto brincava na rua.
Na hora da sutura ele pede:
- “Por favor, deixa eu orar”
- Claro N. Pode orar.
- “Pai do céu, oh pai eterno amém. Pai todo poderoso, Amem. Glória a Deus, Amém…
- Agora vamos.
- Não, ainda falta o beijo da minha mãe..
A mãe beijou e ele continuou a “negociar” o início dos procedimentos até que vendo que iria longe, decidi enrolá-lo em um lençol para contê-lo e começamos a anestesia local. Dez ou quinze minutos depois ele estava sorridente e feliz com 9 pontos no queixo e uma mãe branca como cêra que precisou ser amparada durante a sutura.
- O SAMU está trazendo mais um.
- Emergência?
- Não mais um PCR, prepare a glicose e tiamina. – pedi.
- Glicose e tiamina, chefe? - questiona a tecnica.- pra PCR?
- Sim. PCR: Pinguço Caído na Rua
Risos, o nosso bêbado chega. É medicado, banhado e liberado
Fim de mais uma dupla jornada.
Estou feliz, consegui ficar um pouco na assistência.
Isto me faz bem
Até amanhã
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirPinguço Caído na Rua adoooooooooooorei
Fico na vigília aguardando as histórias, isto pq trabalho com vc e sei que vc não conta tudo. Mas escreve muito bem. Além de ser o melhor enfermeiro que já vi atuando. Continue assim
Tenho muito orgulho em dizer para todo mundo que trabalho com o J. E indico a leitura do blog rsrs
ResponderExcluirQuem conhece, logo de cara fica com medo do jeito bateu levou dele, mas tem um coração que não cabe no peito sempre querendo resolver tudo para todos. Sem falar da competência técnica INDISCUTÍVEL e causa ciúmes em coleguinhas que não conseguem acompanhar o ritmo dele E olha que tentam viu.
É J o verdadeiro enfermeiro adora ficar na assistencia, parabens!
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