terça-feira, 13 de setembro de 2011

Segunda-feira Plantão em casa “nova”. Problemas velhos

 

São 18:20 quando chego no PS. Este é meu terceiro plantão do mês. Ao parar a moto o segurança me alerta:

- Enfermeiro, cuidado, coloque lá dentro (dentro mesmo) já levaram uma hoje.

Óbvio que atendo a orientação, que não é a primeira a respeito de nossas condições de segurança.

Faz 20 dias que cheguei na unidade, um Pronto Socorro na periferia da periferia de São Paulo. É meu segundo emprego. Então a partir de agora é um dia em um e outro dia no outro. Esta é mais uma característica de ser enfermeiro em hospital público: um emprego não é suficiente para pagar as contas e viver com o mínimo de dignidade. As coisas aqui não são muito diferentes do outro hospital. Muitos pacientes, equipamentos obsoletos e quantidade insuficiente de funcionários.Ainda estou me acostumando com as rotinas e com a falta delas. Algumas coisas são difíceis de entender e uma delas é como uma unidade de saúde funciona assim.

A noite promete ser calma, estou escalado na Emergência que, no momento está com três pacientes. Uma senhora aguardando resultados das enzimas cardíacas, um homem com epistaxe e outro pós crise convulsiva.

Os casos que chegam não despertam muito interesse: falta de ar, cólica renal. Cólica menstrual e nada mais. A noite avança e a monotonia é quebrada por gritos no corredor:

- Enfermeira, enfermeira. Ajude meu pai.

Um senhor de 70 anos, com seqüelas de um AVC anterior entra sobre a maca que é empurrada pelo filho. A equipe age rápido. Punciono um acesso venoso e em poucos minutos ele esta entubado e recebendo a medicação prescrita. Olho para as auxiliares e agradeço:

- Parabéns, meninas. Vocês foram ótimas.

A pressão de nosso paciente á algo assustador 230x140 e sua tomografia (realizada em outro serviço e duas horas depois) irá indicar que ele teve outro AVC, desta vez mais extenso e também isquêmico.

O paciente da crise convulsiva acorda, está sem calças. Pede para ir embora e decido mandá-lo de ambulância. Não fica bem sair de fraldas pelas ruas aos 40 anos de idade.

A auxiliar que o levou o traz de volta:

- Ele não tem casa. Queria ficar na calçada de um comércio. Diz que mora lá.

- Você fez bem em trazê-lo. Obrigado

Irá ficar a noite aqui. Amanhã resolverão isto. Enquanto isto o das epistaxe está estranho. Diz que não enxerga nada peço um dextro e... 27!!! Me admira que ele ainda consiga falar. Punciono uma veia e adianto a glicose. Quando o médico chega já está melhor.

A noite vai tranqüila. Apenas casos simples. Nada acontece para agitar. Não sei se gosto disto. O sono aperta, procuro algo para ler.

Uma moça com “dor em tudo” precisa tomar a medicação prescrita: 3 injeções; profenid, dipirona e benzetacil. Depois de 15 minutos com ela desisto de aplicar e ela de tomar. Já vi medo de agulha, mas como este...

Chega um rapaz, sujo de sangue, diz que foi assaltado. Ao ouvir que a polícia seria chamada levantou-se e saiu,. Sequer sei o que causou o sangramento. Outra característica a desta unidade estamos no meio do0 nada e próximo aos bairros mais violentos da cidade. Nem tudo que parece é.

Fim de plantão. Converso com minha colega MJ:

- Está aí no próximo? – pergunta ela.

- Não. Estou de folga. Preciso descansar.

- Pelo menos hoje foi tranqüilo. Você trabalha hoje a noite?

- Sim. Meu nome é trabalho

- Até amanhã

- Até amanhã

Um comentário:

  1. Oi J, tudo bem? Vc escreve muito bem, torna as histórias do PS incriveis e isso vicia a gente, quando encontrei seu blog fiquei horas e horas lendo o que vc postou, ainda bem que voltou a escrever, serei uma leitora assidua, ainda mas pq agora q tá em outro emprego creio que terá mais histórias para contar. Bjs

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