Quinta feira, dia do enfermeiro, tenho que chegar cedo, pois há uma palestra agendada. Chego por volta das 13h30min convicto de que estava muito adiantado. Engano meu, a palestra estava marcada para as 14h00min e não 15h00min como eu pensava. De qualquer forma não estou atrasado e, até que todos deixem os setores, terei tempo para me preparar.
A palestra foi boa. Aparentemente a maioria gostou do tema - terapia intravenosa – a semana de enfermagem deste ano foi carinhosamente preparada, chegam a emocionar os pôsteres e mensagens espalhados pelo saguão.
Fim de palestras são 17h30min, hora de registrar o ponto e assumir o plantão. Vou para o Pronto Socorro com a esperança de que não esteja tão lotado. Enganei-me, ao passar pela porta vai-e-vem lembrei-me da frase de minha eterna melhor amiga “Já que está no inferno, abraça o capeta”
Recebo o plantão sem novidades, um preparo para exames. Um paciente para ser removido e uma menina de 16 anos aguardando admissão.
A escala está apertada, três no corredor FN, ED e N. Peço para a N admitir a menina. Está descorada e com muita dor. Tem tomografia para realizar e vamos tentar transferi-la para o hospital correto onde possa ser vista por um hebiatra. A N, como sempre, agiliza o que lhe pedi. Gosto do trabalho dela e preciso falar isto mais vezes.
19:30 Toca o telefone.
- Enfermeiro é para você. É a ZD. – diz a EDN minha “secretária” de ala.
- Nem vou atender diz que é o ED que vai acompanhar o paciente.
Já sabia que era a remoção, peço para o ED levar o paciente e 15 minutos depois ele está me perguntando.
- Você viu o estado que está aquele paciente?
- O que foi?
- O cara está caindo de bêbado. Os outros pacientes disseram que ele passou o dia todo na barraca.
- Leva assim mesmo. Se eles devolverem por estar bêbado eu tenho justificativa para ele perder a cirurgia. Se eu não mandar a culpa é minha.
O paciente estava muito, muito bêbado.
Neste meio tempo o hospital especializado negou a vaga para a adolescente. Pensei um pouco e decidi acomodá-la na observação feminina onde só tem mulheres e ela ficaria com acompanhante. Resolvido? Não.
Algum tempo depois a DB me aborda no corredor.
- Enfermeiro, o que é aquilo na feminina. Agora pode ficar assim?
- Qual o problema?
- Aquela moça com acompanhante na feminina, no maior carinho.
- Deixa a moça, eu deixei o pai dela ficar.
- Pai? Até eu quero ter um pai daquele.
Fui verificar e me deparo com um casal de adolescentes trocando carícias e beijos para lá de ousados, Dei uma bronca educada, pedi para o rapaz sair e para ligarem na casa da moça chamando o pai. Quando este chegou expliquei-lhe a situação e ele entendeu. A menina passa ser acompanhada pela avó.
Resgate dos Bombeiros, para minha alegria é a equipe da SGT AD, estava de férias, pela primeira vez, desde que nos conhecemos, ela me abraçou e beijou. Estranhei, mas correspondi. Gosto dela. Eles trazem um homem de aproximadamente 120 kg que tentou parar um carro desgovernado cujo freio de mão foi solto por uma criança. O carro caiu em um barranco e ele teve contusões nas costelas. Nada mais. Medicado e liberado depois de algumas horas.
O ED voltou com nosso paciente. O hospital ortopédico o rejeitou como era esperado. Agora ele está pior. Nervoso diz que vai embora que vai tirar o acesso venoso etc. Olho para ele e dou três saltos bem altos.
- Por que você está pulando – perguntou o, agora, meio bêbado.
- Porque minhas pernas estão boas. A tua não. Então se você quer ir embora...
A mãe dele me procura:
- Moço ele toma remédio controlado, pra perdição.
- Pra que? Pressão?
- Não moço, perdição. É controlado.
- Então a senhora me traz a receita que vamos dar a ele.
Até o fim do plantão ela não tinha retornado. Ele, o paciente, sentou na maca de outro paciente, pois a dele já fora “redistribuída e teria que ficar na cadeira.
- Eu quero minha cama. Eu estava na cama...
Cinco minutos de conversa, uma “dipirona” para dor e o rapaz dormiu a noite toda. Na cadeira.
Uma senhora de 60 anos fratura de quadril. Ficará na maca aguardando cirurgia. Simpatia pura. A filha é só lagrimas.
Outra filha chorando, outro paciente, homem 52 anos. Plaquetopenia, não entendo o choro da filha. Ao revisar os exames a resposta; HIV+.
- Ele não sabe, e não quero que conte.
Converso com a filha e lhe explico que além do direito do pai saber eu tenho obrigação de informar o tratamento e ela não era tutora dele. Portanto iríamos conversar sim.
Conversei, expliquei que ele havia se contaminado e que a partir de agora tomaria remédios todos os dias e que, se seguisse o tratamento, teria uma boa qualidade de vida ainda, etc. Ele entendeu. A filha também. Até parou de chorar
Alguém me chama no corredor da medicação. Paciente desmaiado. “Está virando moda” pensei. Encontro um paciente caído com os olhos arregalado e um policial militar ao lado, agachado tentando ouvir sua respiração.
- Acho que ele não está respirando.
- Está sim – e aponto o abdômen elevando-se
Chego meu dedo próximo ao olho e, milagre, as pálpebras se fecham. Está simulando. Mesmo assim vai para a emergência. DB e NS assumem. Acesso venoso, medicação para pressão que está alta e monitor. É cardíaco e se aproveitou desta condição para tentar fugir do flagrante por tráfico de drogas. Não adiantou. Algemado à maca, recebeu alta no final do plantão e foi para a cadeia. Culpado ou não, doente ele não estava.
Neste meio tempo interna a senhora J. T. Quadrado Redondo, 91 anos com infecção do trato urinário. O sobrenome Quadrado Redondo já tinha corrido o hospital. Eu fui o último a saber. Rimos com ela do sobrenome que nem ela sabe de onde veio. Uma simpatia. Se eu chegar aos 80 quero a lucidez dela. Senão, dispenso a longevidade
Fim de plantão, passo para o RN e a RS me despeço.
Na saída o paciente da remoção frustrada, agora sóbrio e passeando de cadeira de rodas, atormentando a todos me chama:
- Enfermeiro...
- Meu, eu ganho para te agüentar até as seis. Acabou teu tempo.
Viro as costas e vou embora. Fim de plantão
Até amanhã

Menino!!! Que loucura. Ainda bem que existem pessoas como vcs. Se depender de mim... vou não, posso não, salto nego. Salto. Bem alto
ResponderExcluirBeber cair levantar, beber cair levantar kkkkkk Como alguém consegue ficar bêbado dentro do hospital?????
ResponderExcluirComo sempre excelente!!!
ResponderExcluirBêbado dentro do hospital? Eu não acredito. Acho que vc inventa estas históriaskkkkkkkkk
ResponderExcluirNão sei se é para rir ou chorar. E$les acusam o serviço público de ser ruim. Mas olha a clientela...
ResponderExcluirEste blog é The best of the best
ResponderExcluirRemédio para perdição? Tô precisando rs!
ResponderExcluirSabe lendo estas histórias tenho até medo de me formar.... rsrs. Não te conheço pessoalmente, mas já me espelho no Enfº J. PARABÉNS
ResponderExcluirPerdição tem cura???
ResponderExcluirVixi... Olha se eutrabalhasse em um lugar assim já tinha feito a manobra Raul Gil. Pegue o seu banquinho e saia de mansinho. Pra mim não dpa
ResponderExcluirTem coisas que a gente quer esquecer né? Mas se tem uma coisa que eu não esqueço é de ter trabalhado com o J. Ele foi o melhor Auxiliar que eu conheci, já dava de dez na maioria dos enfermeiros, antes de entrar na Faculdade. Saudades. E parabéns pelo Blog, achei pelo Google e agora vou ler sempre
ResponderExcluir