São 17:30 e o frio me faz questionar a necessidade de trabalhar hoje. A temperatura oficial é de 17 graus mas, sobre a moto a sensação é de muito menos. Rapidamente troco de roupas, registro o ponto e vou para o Pronto Socorro. Escala pronta, está fácil. Há tempos não tínhamos tantas facilidades para escalar e os Auxiliares estão colaborando, quase não temos falta. Fase boa.
Até as 19:00 fico meio de “bobeira”. Uma veia aqui, uma avaliação ali. Assumo o plantão. Tranquilo, apesar de cheio. O Dr. Frio e a Dra Chuva são os mestres da triagem. Nesta época é raro ter muito movimento à noite.
Hoje estou escalado nas observações, AN no corredor, RS na emergência e RN na triagem.
Recebemos o plantão e a RS me procura:
- J, me dá uma força se chegar emergência?
- Não esquenta menina, estamos aqui. Aliás, tua emergência está vazia.
- Não está, tem uma.
- Tem, mas ela vai parar daqui a pouco...
- Vira esta boca para lá.
Estamos no corredor a NS chama:
- J, por favor.
Parada cardíaca. Idosa com 95 anos, AVC hemorrágico. Estava entubada (para que?). Iniciamos as manobras de RCP, aproveito para dar umas dicas para a RS:
- RS, tua paciente parou. Deixa a medicação para os auxiliares fazerem se concentre no paciente.
-OK.
- Venha fazer compressões, controle o tempo.
Chega o AD, clínico, declara o óbito.
SAMU, rapaz 22 anos bateu a moto. Trauma abdominal sem grandes conseqüências. Medicado, vai aguardar ultrassom para amanhã.
Outro SAMU chega com um paciente que tinha acabado de receber alta. A família não tem como ficar com ele em casa, então alega que ele está convulsionando. Nem sinal de crise convulsiva nos últimos minutos. Orientamos quanto a necessidade de cuidar dele em casa.
- Mas não tenho ninguém para me ajudar, diz a irmã.
- Ele não está doente, senhora, não pode ficar no hospital.
- Quero que o levem para uma casa de repouso...
Desisto de tentar explicar, mesmo porque ela não quer solução, que não seja deixar o irmão no hospital e voltar para casa. Isto me faz pensar que quando decidimos cuidar de alguém com problemas, mental ou físico estamos assumindo um compromisso para nossa vida e para a vida dos outro caso venhamos a faltar... Complicado. Uma mãe se vê “obrigada” a cuidar dos filhos em qualquer situação, mas quando ela morre a obrigação passa para outros que necessariamente não a aceitaram.
Depois de algum tempo e muito “choro” por parte da irmã internamos o paciente para que o serviço social se encarregue no dia seguinte.
Plantão tranqüilo, mas frio. Muito frio. Os pacientes se arrumam como podem, uns trazem cobertores e edredons de casa, outros nos pedem mais lençóis. Nós tentamos nos agasalhar com aventais descartáveis e blusas por baixo do uniforme. Com o plantão parado a sensação de frio é maior.
Correria, um monte de gente entra com um paciente nos braços. Alcoólatra e viciado em drogas, conhecido do plantão. Simula convulsões para ficar internado. Veia, soro e cadeira, acabaram-se as macas.
Chega um paciente da sala de gesso, fratura exposta no dedo médio. Precisa ficar internado para antibióticos e não quer. O Técnico de gesso o traz.
- J, este senhor precisa ficar internado e diz que vai embora.
- Por quê? – pergunto ao paciente.
- Preciso trabalhar.
- Só hoje ou vai precisar da mão o resto da vida.
- Não brinca moço. Preciso de minha mão.
- Então você também precisa de antibióticos e além disso como você vai ofender as pessoas no trânsito, mostrar o dedo para os palmeirenses e pior ainda: como vai tirar meleca do nariz?
- Está bem. Você me convenceu. Vou ficar.
- Seja bem vindo
A MC e O EM tiveram que sair do plantão um pouco. Durante um brincadeira quebraram nossa garrafa de café e foram sumariamente julgados e condenados pela N a providenciar outra, imediatamente.
- Sem café não dá – diz a N.
A PTR me chama para passar uma SNE, feito. Adoro procedimentos. Faz o tempo passar mais rápido.
A madrugada chega, tempo para bate-papo. Nada demais acontece. Um paciente que, para alegria da RSM, tem suspeita de HDA. Alegria da RSM porque estou para ver alguém com tanto prazer em realizar fleet e enteroclisma. Aproveitamos o ensejo para brincar com isto e ela não perde a alegria. Sempre com um sorriso e agora com três frascos de fleet enema nas mãos. Que medo.
A DB nos brinda com uma dança ao som do celular, risos.
Conversamos os assuntos variam: filhos, parceiros, solteirice, manias (minhas) e trabalho. Nestes momentos conhecemos um pouco mais uns aos outros, isto é bom.
Um paciente na semi intensiva chama o AD.
- AD, AD, AD.
A MC foi até lá, mas ele queria o AD. Fui ver o que acontecia, talvez só quisesse falar com homem.
- Pois não.
- Oi moço, como é teu nome?
- Enfermeiro J.
- Enfermeiro J. Você é o chefe, né? O AD falou.
- O Sr precisa de alguma coisa- perguntei contendo o riso.
- Sim meu filho... eu queria de todo coração, um cafezinho. Só um dedinho assim. Tá muito frio e eu sinto tanta falta do café.
Lembrei-me que tínhamos acabado de passar um fresquinho. A RSM caprichou. Um dedinho de café e ele dormiu o resto do plantão.
A FN pergunta:
- Chefinho, você está triste?
- Não. Por quê?
- Calado, olhando...
- Já falei que não é o J que está neste corpo – diz a NS
Risos. Fim de plantão. Converso com o AN:
- Está aí no próximo?
- Não. Estou de folga.
- Bem feito. Eu também.
- Então até Domingo
- Até Domingo...
Plantão tranqüilo não é tão ruim assim. Tenho medo de me acostumar...
Até o próximo

Adoro as Crônicas do Plantão....
ResponderExcluirParece simples. Mas não é. Isto que vcs consideram um "plantão tranqüilo" é um inferno em qualquer outro lugar. O problema é que vc já se acostumou com a carga adrenérgica lá em cima.
ResponderExcluirParabéns pelo Blog, sou seguidora fiel
Concordo com a Suelen. Agora enfermeiro dando um café para o pcte eu queria ver. A maioria dos enfermeiros só sabem dar ordens e escrever, escrever, escrever. Do jeito que vc fala parece qu trabalha igual aos auxiliares
ResponderExcluirPara a Paula Regina, qdo vc tiver um enf igual ao nosso vai mudar de idéia. Vamos combinar que ele é chato pra p... mas também ninguém tira farinha com ele ou com a gente e tem mais o cara rala a noite toda parece ligado no 220. Mas concordo com vc a maioria é enfermesa mesmo
ResponderExcluirOps, vamos mudar o rumo desta prosa rsrs
ResponderExcluirQue lindo
ResponderExcluirLeio o blog sempre. Adoro a forma como vc retrata a realidade. Acho que estou me apaixonando pelo protagonista (Enf j.). Ele é casado? rsrs
nÃO SEI POR QUE, MAS ESTE BLOG ME DÁ FORÇAS PARA ENCARAR MEU TRABALHO COMO "FICHINHA" RSRSRS
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