São 17:15 quando registro meu ponto. Hoje entro e saio mais cedo, conforme meu acordo com a RG. Chego no PS disposto a ficar “na moita” até as 19:00, quando chega minha equipe e começa realmente o meu plantão. Ledo engano. Por volta das 18:00 horas toca o telefone e pedem para falar com um enfermeiro:
- Pronto enfermeiro J.
- Enfermeiro J, aqui é da Clínica médica. Estamos com uma parada aqui e precisamos de um médico.
- Tudo bem.
Desligo o telefone e vou ao consultório chamar o clínico. É o OV, não sabe sequer onde fica a Clínica Médica. Levo-o até lá e me deparo com uma colega, enfermeira da clínica em meio a uma situação com a qual não está acostumada a lidar. Assumo as compressões e peço que ela providencie a monitorização do paciente. Peço para a auxiliar preparar a medicação e percebo que ela não está familiarizada com situação, não vai ser fácil. Mas agora é que não posso sair. Ficamos ali por quarenta minutos até que o OV se dá por vencido e declara o óbito.
Volto para o PS, estou suando em bicas, minha equipe está chegando. Este plantão será inesquecível.
A escala está feita e com a chegada das novas auxiliares, TZ e PT estamos tranqüilos em relação a funcionários, pelo menos por enquanto. Ainda está apertado, mas dá para cobrir os setores.
Começamos bem, corredor e lotado, emergência com apenas um paciente. Chega o primeiro SAMU da noite, uma senhora de 90 anos em anasarca. Respira mal, sua saturação estava em 72% em casa e agora está em 88%. Peço para que as meninas a levem para a emergência, coloquem oxigênio vou chamar o médico. A DN pede exames e lasix.
- Isto eu já fiz, mas alguma coisa.
- Adoro você. Por enquanto é só.
Eram 20:45 quando ouvimos gritos no corredor. Saio da emergência e me deparo com um homem que traz uma criança nos braços.
- Ele foi baleado, ajuda ele doutor, ele ainda está respirando...
Era o apelo de um pai, desesperado. Seu filho levou um tiro do lado direito do abdômen, está completamente pálido, seus olhos denunciam a parada cardiorrespiratória. Peço ajuda:
- Chamem um cirurgião, me dêem material para acesso venoso, preparem o material para intubação.
Em instantes a criança, um garoto franzino de 07 anos, mas que aparentava no máximo 5, estava intubado, com acesso venoso e submetido aos procedimentos de ressucitação. Nunca vi minha equipe tão coesa e rápida.
Enquanto atendemos a criança, percebo que a RSM está nervosa:
-RSM, calma. Não se apavore.
Na verdade, acho que o fato de ser uma criança mexeu com ela. Mãe de três filhos sendo os dois últimos ainda bebês, ela não deve estar a vontade. Tento tirá-la do foco.
- RSM, verifique o dextro desta paciente. Está muito sudoreíca e não podemos esquecer-nos dela.
- 65.
- Duas G 50.
A paciente vai ter hipoglicemia durante toda a noite. Não sabemos a causa mas chegará a 12, no dextro.
Enquanto isto o trabalho na criança continua. Acesso venoso, sangue O negativo, volume. Tudo foi tentado. Chegamos a sentir pulso. Mas perdemos. A criança morreu, vítima da violência. Um vizinho disparou a arma durante uma briga e atingiu o pequeno J.G. que brincava na escada de sua casa.
A equipe se desmonta, todos com o semblante triste, abatido. Isolo-me por alguns minutos. Há tempos não chorava, chorei. Pela nossa impotência, pela violência, pelo pai que não verá o filho cresces, pelos irmãos que pediam para não desistirmos. Chorei por J. G., 07 anos, morto estupidamente
Trabalhamos nele por uma hora. Não queríamos admitir a perda. Mas perdemos.
Na hora de dar a notícia, mais estupidez. O cirurgião simplesmente olha para o pai e diz.:
- O senhor é o pai do J. G?
- Sim.
- Ele faleceu.
Dor e desespero, tomam conta do PS, mais tarde chegará a mãe e mais desespero. Por horas o ambiente ficará tomado pela presença da família, até que convença um dois parentes a levar os pais para casa. Não sem antes garantir que eles se despeçam do filho, cujo corpo pedi que fosse limpo e envolto em lençol branco antes de ser visto pelos que o amam
O resto do plantão continua a retratar a violência de nossa sociedade em seus diversos aspectos.
Chega mais um SAMU, com ele um senhor de 57 anos, atropelado enquanto transitava bêbado pela avenida. O motorista o socorreu, está preocupado. Mas também cheira a álcool.
Uma senhora que ainda quer ser menina, envolveu-se em um briga e teve a cabeça arrebentada no chão. Medicada dava um show a cada parente que entrava para vê-la. Fez tomografia. Nada. Transferida para o convênio.
Duas da manhã, um rapaz de 28 anos. Agredido pelo irmão com uma barra de ferro, teve a cabeça costurada em três lugares diferentes. Ainda bem que foi o irmão...
Na ortopedia uma moça, agredida pelo namorado, teve o braço fraturado. Por sorte não precisará de cirurgia. Chamo a GCM, mas ela se recusa a dar queixa.
- Ele não fez por mal. É muito ciumento, me ama demais.
- Ele te ama demais... demais mesmo – completo.
Nosso plantão foi pesado. Tão pesado que não percebemos quanto o corredor ficou lotado. Só se pensava e se falava na criança.
Converso com LN.
-Vou mais cedo hoje
- Está ai amanhã.
- Sim e você?
- Estou de folga, até quarta.
- Até quarta.
Ainda estou com o pranto na garganta...
"Domingo: O dia em que a leitora do blog chorou..." Ao longo do tempo, conseguimos criar barreiras de proteção, é uma forma de sobrevivência neste ambiente tão insalubre para a alma. O fato é que algumas vezes não conseguimos, porque somos pessoas como as outras. Quer saber: Ainda bem!
ResponderExcluirNossa, chorei também.
ResponderExcluirSandra
:-(
ResponderExcluirSabe, todos os dias nos deparamos com situações que nos colocam a pensar o porque estamos nesta profissão...
ResponderExcluirAo ler seu blog me lembro do porque .
Ver o sofrimento do outro e se compadecer com a situação,manter a equipe centrada e manter o coração ainda sensível ao que te rodeia é o que te faz ser um dos melhores enfermeiros que conheço!!
Parabéns, me emocionei !!!
Bjos
O mundo é melhor, porque ainda choramos... Vc é um enfermeiro excepcional e não se esqueça disto
ResponderExcluirQue barra!!! Adoro este blog, indico pra todo mundo
ResponderExcluirAo lêr o blog chama a atenção o titulo, já prenuncia o que esta por vir, mas nada é mais triste, que perder uma criança desta forma, tão cruel e violenta.
ResponderExcluirMe pergunto, porque as pessoas estão destruindo seus sonhos....choro pelo J.G.,choro pelo desespero da mãe,pai,família e como doe em saber que perdemos, mais um sonho e esperança.
Vc e sua equipe, fizeram tudo para salvar esta criança, o possível e até o impossível.
Tenho certeza!
Amigo;
ResponderExcluirSei o quanto é duro perder uma criança...mas ainda bem que choramos e brigamos sempre pela vida, hoje também derramo minhas lágrimas ao ler o blog.
As vezes nós achamos que estamos isentos do sofrimento porque o mesmo é alheio, imaginamos que ele não nos toca devido já estarmos calajados, puro engano, ele esta lá. Nós sofremos um pouco a dor de muitos e as vezes muito a dor de poucos. Tente imaginar assim não é porque a vida deste pequeno foi curta que não foi boa.
ResponderExcluirMinha
Alguem conhece Enfermeiro mais chato que o J?
ResponderExcluirO cara é demais, cheio de manias, bandejas, mas vamos combinar que só ele colocou nosso amiguinho na masculina kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ah e pos o cirurgiao S no lugar dele tambem. É chato, mas é nosso
Que saudades dos meus tempos de PS, tb já chorei,...
ResponderExcluirEscola Clara Luz - Formando Auxiliar e Técnico de Enfermagem...
ResponderExcluirSe me permite vou imprimir este texto para agregar ao nosso trabalho na formação profissional, exemplificando do forma realista a humanização,competência e a sua coragem.
Parabéns!