São 17h15min chego ao hospital, em cima da hora e preocupado com o ovo de páscoa que veio no baú da moto. Pode ter virado farofa de chocolate. Abro o baú quase não querendo ver o que encontraria. Surpresa! Inteiro, as almofadas que fiz para proteger deram certo.
Vou para o PS, está relativamente calmo. Há macas vazias no “puxadinho”, apenas uma paciente na emergência, nada demais no corredor. Faço a escala torcendo para que venham todos. Está no limite. Uma falta ou atestado complica tudo. Acho que hoje não teremos faltas. É dia de amigo secreto (agitado pela DB, como sempre) e se faltar fica mal com os colegas por um bom tempo. Nenhuma falta. O plantão começa calmo.
Uma jovem de mais ou menos 20 anos está sentada junto ao balcão e pergunta:
- Quem é o enfermeiro chefe?
- Pode falar, respondemos AN e eu. Quase ao mesmo tempo.
- Estou com muita dor, a auxiliar não conseguiu pegar minha veia e pediu para que eu procurasse o enfermeiro.
Preparo o material e punciono a veia. Não estava tão difícil. A jovem ataca:
- Nossa que mão bonita. Você faz as unhas, que chique.
- Obrigado.
- Eu gostaria de um namorado enfermeiro...
- Tem bastante por aí.
- Você é casado?
- Sou muito velho pra você. Pronto, agora é só voltar no médico.
- Hum! Que sério...
Deixo-a falando e volto para o corredor.
O AN não está bem. Com dores nas costa pede para que eu o substitua na Emergência enquanto ele fica em meu lugar na Classificação de Risco, Sem problemas.
Chega a primeira “emergência” da noite. Uma jovem com dores no peito e o corpo todo formigando. Segundo ela mesma é “um começo e enfarte”, sinais vitais normais, eletro normal. Converso com ela:
- Está nervosa?
- Sim. Muito.
- Qual a tua idade?
- 40 anos.
- Filhos?
- Nove.
- Onde estão?
- Um está comigo. Os outros o conselho tutelar levou. Por isso eu fico assim. A primeira audiência é esta semana.
- Sei...
Encaminho-a para o consultório.
A PT chama-me, um senhor de 73 anos, pálido, com cianose de lábios e extremidades.
Em instantes está com acesso venoso e entubado. Evolui com parada cardíaca. Tentamos tudo durante uma hora. Era cardiopata com três cirurgias cardíacas prévias e aguardando a próxima. Não deu tempo. Passou mal na igreja e agora esta morto. Deixo a família se despedir. Há uma mágoa latente nas palavras da filha que se despede do pai. Algo sobre perdão, desculpas. O LM, clínico, não vai atestar o óbito. A família sai em busca de alguém que o faça e horas depois, PT e NS vão ao necrotério realizar o tamponamento. O atestado foi fornecido.
Paramos um pouco. Aproveitamos a calma para fazer a entrega dos ovos de páscoa do amigo secreto. A RSM fez um bolo delicioso, a DB organizou a coleta de pizza. Refrigerantes e a festa está pronta. Incrível como nos esforçamos para comemorar estas datas. Mesmo sem perceber. É como se fosse um compensação pelo fato de quase nunca podermos comemorar em nossas casa. O EN e o ED vieram, apesar de estarem de folga. Entregamos e recebemos nossos chocolates. A DB tirou um cara chato, muito chato. Ai,se alguém mexe na bandeja dele. Quer tudo certinho. (Não sei quem é). Eu tirei a PT, gostei muito. Ela é a filha que eu queria ter, educada, trabalhadeira, estudiosa.
Outra paciente com dor no peito. O marido, preocupado a trouxe para a emergência. O cheiro de álcool se sente ao longe. Peço para a SVL avaliar. Vai para a soroterapia. Quatro horas de canseira. Antes que seu soro termine, ela vai sair e voltar para a casa a fim de continuar sua briga com o marido.
Um paciente do corredor não está bem. Dispneico queixa-se de canseira. Peço para a PT o levar para a emergência. Está saturando muito mal 87%, peço para a SVL avaliar. Nipride, dopamina e lasix. Por volta das três da manhã ele melhora e consegue dormir um pouco.
Plantão tranqüilo. Ao final, já de saída e com a mochila nas costas converso com o AN:
- Você está aí amanhã?
- Não sei acho que vou ao médico.
- Acho que eu também vou.
- Beleza.
Plantão morno, sem grandes novidades, calmo como deveria ser um domingo de páscoa.
Até amanhã.
Parabens pelo blog, ando sempre lendo seus artigos ora me divertindo com seus comentarios e ora me vendo na mesma situação, é bom saber que estamos no mesmo barco, que tb temos dilemas e mesmo com tanto problemas de um hospital publico, arrumamos tempo para compartilhar uma data especial e cultivar amizade entre a equipe.
ResponderExcluirbjuss
Maga, este blog é muito bom. Faz a gente pensar em quanto somos importantes na sociciedade. Beijos e saudade.
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