Plantão de quarta. Chego cedo, tenho uma reunião com a CR, enfermeira da UTI, para discutir o protocolo de passagem de PICC. Gostei da moça, inteligente, sensata e direta. Nossa reunião é rápida e resolutiva. Vou cedo para o PS. Ao atravessar a porta vai-e-vem tenho uma surpresa agradável. Se comparado com o que deixamos no ultimo plantão o PS está vazio. Na emergência três pacientes sendo dois crônicos, o paciente que parou no último plantão está na SEMI, teve o aneurisma cerebral confirmado e foi incluído no protocolo de morte encefálica para fins de doação dos órgãos. Triste notícia para a família.
Já começo o plantão trabalhando nele. Realizo a passagem do PICC rodeado por uma platéia de estagiários do curso de formação de Técnicos de Enfermagem. A RS me auxilia e tudo corre bem. Já temos um acesso venoso para manter a pressão do paciente e desta forma preservar seus órgãos até que a família decida e os testes necessários sejam feitos.
Mal termino a passagem do PICC e uma criança de dois anos entra na emergência nos braços da avó. Pela descrição estava convulsionando. Apanhamos bastante até que a NS consegue um acesso venoso. Medicada, corro atrás de sua transferência para o hospital infantil. Não entendo os pais. A criança teve uma crise convulsiva há seis meses, foi atendida e encaminhada ao neurologista e eles deixaram para lá.
No corredor uma professora tenta puncionar a veia de uma senhora com tonturas e pressão alta. Ao ver o tanto de cateteres descartados na bandeja decido intervir:
- Precisa de ajuda?
- Se você conseguir. A veia dela é impossível.
- Me dê um 18.
- Tudo isto?
- Pronto! Posso falar com você?
No posto pondero o tanto de punções efetuadas.
- Ela é ruim de veia.
- Por favor. No meu plantão duas tentativas e me chame se não conseguir.
- Os alunos precisam aprender.
- Sim. Precisam aprender, inclusive, quando parar e chamar outra pessoa.
- Por que só você é assim?
- Por que sou o enfermeiro daqui. E respondo pela unidade neste plantão. Eu, ou o AN, portanto ou é assim ou não tem estágio no nosso plantão.
- Se você quer assim...
- Quero.
Pela cara dela, não fiz mais uma amiga.
Um paciente da psiquiatria sobe. Está com dor no peito. Peço para a ML que está voando por ali para fazer um eletro. Não tem nada e o AN não demora em devolvê-lo.
Horário de visitas, os parentes do paciente com aneurisma querem conversar comigo. O irmão quer saber sobre a doação. Dou-lhes as explicações. Eles têm dúvidas comuns como, por exemplo:
- Se ele está morto como o coração dele bate?
- Se não tem mais jeito porque o senhor passou o cateter no braço dele?
- Se agente não doar vocês vão desligar os aparelhos?
- Ele está sofrendo?
- Você nunca soube de ninguém que melhorou?
Em todos os anos de enfermagem esta foi a primeira vez que estive de frente com esta situação. Sempre vi as discussões de longe, sendo resolvidas por médicos. Mas desta vez a família não quer falar com médicos. Quer falar comigo, pois o atendi desde o começo e a esposa confia em mim.
Após quase uma hora de conversa deixo-os com a decisão nas mãos. Tirei suas dúvidas. Mas não influenciei na decisão. Incrível como as pessoas tem dúvidas a respeito da doação de órgãos.
Vou jantar com um aperto no peito e nó na garganta, não temos sequer uma sala onde podemos acolher adequadamente as pessoas em luto.
Noite tranqüila AN e eu aproveitamos para atormentar a cabeça da AB. Cobramos uma postura mais ética e colaborativa da parte dela. Ela é estranha começa negando, assume e nega de novo. Desisto tenho que aprender a lidar com ela. Já aprendi tanta coisa na vida...
Meia noite, novos testes de morte encefálica. Todos positivos. Chega a equipe de captação, fazem um eletroencefalograma: sem ondas. Agora é com a família.
Não me sinto muito bem. Dor de cabeça, tontura. Peço para a NR verificar minha pressão:
- Doze por oito, chefe
- Acho que estou sugestionado pelo paciente.
- O que é isto.
- Deixa prá lá. É um nome bonito para hipocondria.
- Então tá.
Com o avançar da noite começo a sentir dores insuportáveis nos pés. Em determinado momento nem consigo andar. Peço para a NS me medicar. Tome duas ampolas de dipirona na veia, suficientes para melhorar a dor até o fim do plantão.
O plantão está tão tranqüilo que ficou sem graça e só para melhorar ainda vou sair mais cedo. Amanhã é minha primeira aula na escola de enfermagem do Einstein começa as 07:10 então irei embora as cinco e meia da manhã.
Bate papo no posto a DB faz todos rirem contando as peripécias de sua filha de dois anos. Outra desabafa os rancores com a cunhada. Conversamos sobre filhos. Sinto saudades do meu.
Café de primeira. N e ML dobradinha perfeita para um bom café
Converso com o AN, ele anda muito irritado ultimamente:
- Cara você está muito bravo.
- Eu sei, não agüento mais isto aqui.
- Ainda bem que eu ando calmo.
- Pior que é verdade. Mas vai passar.
- No próximo você está livre de mim.
Eu também não venho.
- Então até dia doze, completo.
- O que? Você vai pegar duas folgas?
- Vou sim, eu mereço
Saio às cinco e meia. Entrego meu papel de saída para a AB.
- Chega por hoje.
- Até terça.
- Que legal. Só volto terça. Até lá então
Plantão sem graça...
Sem graça não, diferente! Complexo de outra maneira!
ResponderExcluirVocê chama isto de sem graça? O que diria de meus plantões então. É que está acostumado com a adrenalina lá em cima. Isto é vício sabia?
ResponderExcluirNem sempre ganhando, nem sempre perdendo, Mas aprendendo a jogar
ResponderExcluirAdooooro este blog.
ResponderExcluirAdooooro o Profissão: Enfermeiro
Adooooro ser enfermeira e sinto muito orgulho disto
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQuando teremos um plantão novo?
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