quarta-feira, 13 de abril de 2011

Terça feira: Dilemas morais

Terça feira, reunião com a CR para fecharmos o protocolo do PICC e com a RG para definir apresentações na Semana da Enfermagem. Tudo rápido. Por volta das cinco e meia da tarde estou “liberado”. Não há muito que fazer a não ser esperar o meu horário e não há onde ficar. Decido estudar. Vou para a sala de educação continuada, mas meu sossego dura muito pouco. Mal abro os livros e a sala é invadida por uma legião de estagiários do curso técnico de enfermagem que até tentam, mas não com seguem falar baixo. Observo suas ações e começo uma brincadeira solitária de imaginar que tipo de profissional se tornará cada um deles. Depois de alguns instantes, a brincadeira fica sem graça, recolho minhas coisas e marcho em direção ao PS. Que neste momento está mais para Porto Seguro que para Pronto Socorro. Engraçado como esta turbulência me excita e ao mesmo tempo me acolhe.

Mesmo antes de chegar sou advertido por uma auxiliar de enfermagem, no caminho:

- Aquilo está um inferno, lotado. Nem tem mais macas.

- Que delícia. Então está normal.

Passo pela porta vai-e-vem e o RF faz uma cara de felicidade que denuncia sua vontade de sair dali. O RD não age diferente. Paro um pouco, conversamos amenidades, faço a escala e, quando dou por mim, está na hora de receber o plantão.

Mais lotado, impossível. Três pacientes em cadeiras, alguns em pé, com caras de poucos amigos e um monte deitado. A Emergência, com quatro pacientes, é a materialização do caos. Nossa equipe vai chegando, um a um. Olham a escala, recebem o plantão. Estou prevendo problemas na escala. Escalei o JQ na observação este mês e, até agora, ele não ficou lá. Nas minhas folgas meus colegas o escalaram na soroterapia, a pedido. Não estou disposto a ceder.

Não cedi. Ficará escalado na observação ou irá para casa. Ele opta pela primeira opção.

O plantão começa. Estamos LN, AN e eu. Muita coisa a arrumar. Um rapaz de mais ou menos 20 anos está algemado em uma maca. Com febre, vômitos, sem diagnóstico. Peço para a N, que está no corredor com o ED, para dar atenção a ele. Confesso que não gosto de cuidar deste tipo de gente. Procuro nem saber o motivo pelo qual está preso para não aumentar minha antipatia. Nem adiantam os discursos de que é um ser humano, etc.

- Beleza. Quer que eu leve para onde.

- Leve para o puxadinho e coloque uma máscara nele. Pode ser meningite.

- Está bem.

A N levou o paciente e fez o que pedi. Chamo o clínico de plantão.

- LC, por favor, avalie este paciente para mim. Está muito estranho.

- Mal cheguei e você já está me explorando.

- Quem está te explorando é a prefeitura, não eu.

Rimos, ele avalia o paciente, muda a prescrição e pede isolamento.

Não teremos tempo de fazer tudo. O rapaz vomitou, broncoaspirou o vômito e teve uma parada cardiorrespiratória. Comecei as compressões torácicas e o levamos para a emergência. Quinze minutos e ele está de volta. Vaso ruim não quebra. Monitorização, medicação. Vai ficar bem até o fim do plantão.

Após a reanimação começo a questionar meus valores. Continuo não gostando deste “tipo de gente”. Sei que ele não titubearia em me assaltar, seqüestrar ou matar, caso me encontrasse na rua. Fiz minha parte. Não por amor o ser humano e sim porque “fui treinado para fazer isto”. Mas quando ganhamos a batalha em uma parada me sinto bem. Sensação de dever cumprido. Esta profissão faz com que tenhamos tempestades sentimentais a cada dia. Maluco, muito maluco.

Durante a emergência, chega a AB. Traz duas novas funcionarias a tiracolo. PT e IS (outra PT). Boa notícia. Estamos no sufoco com o quadro de auxiliares. Dou-lhes as boas vindas e peço para aguardarem que já irei apresentar a unidade. De saída da sala lembro-me de elogiar as meninas, NS e PT:

- Parabéns meninas. Muito bom.

- Elas simplesmente sorriem. Sei que faz diferença.

Mais tarde terei outra alegria, encontro na emergência, uma bandeja montada. Organizada e pronta para emergência. Muito bom. Elas estão evoluindo bastante. Hoje não teve correria e a capacidade de improviso delas me surpreendeu. Gosto de surpresas agradáveis.

Saio da Emergência, apresento a unidade, e os demais funcionários, às meninas recém chegadas. Observo a cara de horror delas ao descobrirem o que é o corredor.

- Calma, não é tão ruim como parece. É pior.

Elas riem e se perdem em meio ao monte de macas e pessoas. Coitadas, acham que estou brincando.

Observo a porta. Por algum motivo tem uma maca obstruindo a passagem. Como estamos no horário da visita, as pessoas estão represadas, lembrando aquelas liquidações anuais nos Estados Unidos e Londres, onde as pessoas se aglomeram e acotovelam-se aguardando a abertura das lojas. Acho graça. Dou risadas para mim mesmo e saio da frente.

DB, N e MC, me chamam para jantar. Comida boa hoje. Janto rápido e volto para o pronto socorro. Ainda temos muito que arrumar.

Na volta, converso com o LN. Está chateado com problemas administrativos cujas causas enraízam-se na falta de condições de trabalho. É um círculo vicioso onde o Enfermeiro funciona como um pára raios. Conversamos me solidarizo com ele. Mas tarde o AN demonstrará, também, sua revolta com a situação. Não temos o que fazer agora. É esperar para ver. Mais tarde saberemos que deu tudo certo.

O AN pede que eu veja o problema de um respirador na emergência. Depois de uma análise rigorosa dou o diagnóstico:

- É só ligar na tomada que ele funciona.

Rimos a NS e eu. Quando o AN fica sabendo se recusa a acreditar. Ri.

Onze da noite. Plantão tranqüilo, todos os pacientes deitados. Ninguém em cadeira. O AN conversa comigo:

- Nem parece o mesmo Pronto Socorro que encontramos hoje.

- Fala sério, está cada dia pior. – completo

- Mas agora está bem. Todo mundo deitado.

- Vou arrumar uma cama pra mim, também. (risos)

Plantão calmo. Sem problemas. Nem reclamações. Tivemos tempo para bate papo na madrugada. Conversei com a MC, garota inteligente. Engraçado como não conhecemos as pessoas que nos rodeiam.

A N me chama, um paciente com infecção urinária evadiu.

- Tudo bem, anote e paciência.

Se fosse eu, também não ficaria a noite toda em uma maca com colchão de 3 cm.

Fim de plantão. O LN pede para passarmos o plantão.

- Sem problema, vai descansar.

- Vou tomar um café e volto para resolver aquilo.

Sete e qualquer coisa, os colegas do dia começam a chegar. Atrasados. Passamos o plantão e o AN pergunta:

- Está aí amanhã?

- Sim. Já está com saudades?

- Você é idoso mais eu gosto de trabalhar com você.

- Até amanhã.

Enquanto espero a passagem de plantão a AB soltará mais uma pérola:

- J, de intercorrência  só o paciente que se “invadiu”, né?

- Invadiu… Ah sim! Ele se invadiu e foi pra casa, provoco. Acho que você quis dizer evadiu..

Ela não entende a provocação, ou finge que não entendeu. E sai.

Na saída olho para emergência. Ele está lá, se recuperando, “Se fosse um trabalhador teria morrido”, penso enquanto vou em direção ao cartão de ponto.

Até amanhã.

6 comentários:

  1. Meu blog voltou Eba!!!
    Adorei o post de hoje. Quanta emoção. N~eo sei se eu trataria um bandido bem não.
    Parabens pelo blog

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  2. Vix, quanta coisa. e vc axa isto calmo?
    Adorei as informações do outro blog.

    Ana

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  3. Vou não, posso não... rsrs
    Vocês são heróis. O Serviço Público é uma M... não por causa da enfermagem.
    Parabéns

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  4. Auxiliar de Enfermagem14 de abril de 2011 às 10:47

    Depoimento de uma auxiliar de enfermagem:
    Sou auxiliar de enfermagem e trabalho em hospital publico. O mesmo do blog. Se o H. tivesse pelo menos uns mais uns dez enfermeiros como o nosso do PS ele seria de primeira linha. O enf j não dá boi pra médico, enferemiro, assistente social ou auxiliar mas é o cara. Com ele a coisa anda ou ele empurra e empurra mesmo. ADOOOOOOOOOOOOOORO meu chefe. Chato pra carai mas é o cara

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  5. Você tem que lançar as "Pérolas da Supervisora"! Tambem acho complicado cuidar de quem roubou, matou, fez mal a outra pessoa. No hospital público dá para saber exatamente quem fez a maldade, já no particular você cuida e nem imagina... não dá para escapar disso!

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