Seis da tarde. Após ficar mais ou menos 30 minutos conversando com a RG sobre o protocolo do PICC, chego ao Pronto Socorro. Está repetitivo descrever a visão que eu tenho ao passar por aquela porta. Desta vez hesitei tanto que o controlador de acesso (um rapaz que fica na porta para tentar, em vão, impedir a entrada de pessoas estranhas no PS) me abordou:
- Pois não o que o Sr deseja?
- Voltar para casa.
Ele sorri e empurra a porta ao notar o crachá pendurado em meu peito, coloco o uniforme privativo e vou ao balcão fazer a escala.
Se no plantão passado estava difícil, hoje está o caos. Quatro de licença médica, a NS já ligou e disse que não vem. Pelo menos cinco faltas em uma escala já defasada. Fazer escala é similar a um jogo de xadrez. Você tem que colocar e movimentar suas peças tentando prever as conseqüências de teus movimentos e os fatos que não dependem de você. Tem que levar em consideração, sempre que possível, habilidades, empatias, conhecimentos técnicos e capacidade de se virar sozinho sem ficar chamando o enfermeiro o tempo todo. Minha equipe é muito boa. Tem pessoas versáteis, mas tem uns que dão medo. Voltando a escala, depois de escrever e rabiscar umas três ou quatro folhas, temos uma escala “maravilhosa”. Um no corredor, com 22 pacientes. Um na medicação. Ninguém na coleta. Um na soroterapia. Aff, a coisa vai pegar fogo.
Recebo o plantão. Não há como cobrar nada. Apenas receber as informações de que isto não foi feito porque não tem funcionário. Aquilo não foi colhido porque não tem funcionário. Esta não foi admitida pelo mesmo motivo e assim vai. Quando acabo receber o plantão chega o LN e a RS, parceiros desta jornada que promete.
Começam chegar os auxiliares, são tão poucos que parece não chegar ninguém. A ML liga, vai chegar atrasada, mas vem. Ótimo antes tarde do que mais tarde.
Chegam alguns estagiários. A professora procura pelo enfermeiro. Apresento-me e decidimos onde ela vai permanecer com seus alunos. Gosto de estagiários mas hoje eu queria pelo menos três auxiliares a mais.
A AB telefona e diz que um paciente que acabara de ser transferido para a clínica precisa voltar, pois está apresentando melena.
- Fazer o que né? Manda logo!
Quando o paciente chega descubro que a melena é o menor dos problemas. É o mesmo paciente que retornou dias atrás pelo mesmo motivo. Mas hoje ele está hipotenso, sudoreíco, taquicárdico e com um sangramento ativo pela boca. Tento entender o que acontece e nada está escrito a respeito. Inicio os cuidados e peço para a RSM chamar o cirurgião. Como ele demora eu mesmo vou.
- Dr, acho que a auxiliar não foi clara. Preciso de você na sala agora.
- Ela não me falou que era urgente. Estou indo.
Após breve relato, ele decide manter a prescrição, acrescentando glicose e hidrocortisona. Pondero que não há alteração de glicemia, mas ele mantém a conduta. Dez minutos depois mando chamá-lo de novo. O paciente parou. Iniciei a massagem e após uns vinte minutos ele estava de volta. Agora temos um paciente entubado, com uma sonda nasogástrica aberta drenando litros de sangue. Ele não vai resistir até a passagem de plantão. Por volta da 01h da manhã terá nova parada e não conseguiremos reanimá-lo.
Enquanto isto do outro lado, o LN atende uma paciente com dor no peito. Fez eletro, colheu exames. Tudo normal. Mas vão mantê-la no hospital até amanhã.
No corredor, temos um paciente com dor abdominal que recebeu alta e retornou. Já fazem vários dias que está no Pronto Socorro. (Ele é o mesmo que alguns dias atrás levou o AN e eu à soroterapia devido a uma pseudo convulsão.) Ele tem umas reações estranhas, além de vomitar muito ou pelo menos tentar. Sempre que alguém se aproxima ele começa a gemer e se contorcer, parando logo que fica só ou recebe qualquer tipo de medicamento na veia.
Uma senhora de 70 anos, atropelada. Fratura do pé. Ficará aguardando cirurgia. Na maca. Sinto-me mal. Procuro uma maca mais confortável e troco a dela com a de um paciente mais jovem. Pelo menos o colchão é melhor.
Plantãozinho corrido. Quando lembramos que não havíamos jantado já eram 22h corremos ao refeitório, P e eu. Por sorte ainda conseguimos uma comida decente. Normalmente a esta hora só fica aquele arroz ressecado e uns restos de salada. No refeitório encontramos o cirurgião que atendera a emergência conosco. Conversamos sobre vários assuntos de cachorros ao número elevado de divórcios na área da saúde. Voltamos à nossa batalha.
A RS do nada me elogia.
- Quando crescer quero ser igual ao J.
- Deixa de ser boba, seja igual a alguém melhor.
- Você é um exemplo para muitos aqui. A gente sempre fala.
- Pára, senão vou chorar.
-Rimos e voltamos ao trabalho.
O resto do plantão vai ser rotineiro. Corrido, cheio mas calmo.
Divirto-me com o ED, sozinho no corredor e ainda acha tempo para fazer piadas com a própria desgraça. Um paciente o está atormentando e ele diz apenas:
- Amanhã as 07h eu vou embora. Ele vai continuar aqui.
A N finalmente deu uma parada e conseguiu fazer um café. Ela estava cuidando de duas salas enquanto a ML não chegava. Delícia de café. Hoje os momentos de descontração são poucos. Não temos tempo para quase nada que não seja medicar, cuidar, avaliar e outros verbos relacionados a assistir.
O LN está com a corda toda. Transfere alguns pacientes, liberando espaço no corredor. Que logo é preenchido por outro.
A Madrugada avança. Uma senhora de 83 anos está desde o começo do plantão recebendo lavagens sem resultados. Converso com o clínico e pedimos um raio x. Realmente o intestino está cheio de fezes, Aquecemos uma solução glicerinada e vamos tentar de novo. O que saiu dali era enorme parecia um braço. Pronto a idosa pode voltar para casa. Aliviada, literalmente.
Um rapaz, 40 anos. Acidente de moto, fratura dos ossos da perna. Precisa colocar uma tala gessada para aguardar a cirurgia. Os técnicos de gesso não querem subir. Então o levamos à sala de gesso. Às três da manhã. Eles odeiam fazer procedimentos de madrugada e nós sabemos disto. Assim da próxima vez eles sobem quando chamados. O paciente aguardava desde o início do plantão.
Sem maiores novidades, conseguimos colocar a casa em ordem. Por volta das seis da manhã temos um tempo para um café e algumas risadas. Adoramos atormentar a vida uns dos outros com piadas de duplo sentido.
A conversa muda de rumo:
- Está aí no próximo, pergunto ao ED
- Não estou de folga.
- Beleza eu também.
- E sábado?
-Estou de folga de novo, respondo.
-Isto aqui vai pegar fogo. Não tem ninguém para trabalhar no sábado.
- Boa sorte.
A RS chega, já preparou o censo e se propõe a passar o plantão.
- Beleza então até segunda.
- Até segunda.
Puxa, descobri o blog através de uma amiga. Adorei. Gostaria de saber se tem como voces publicarem alem da historias que sao otimas. Materias informativas e tecnicas.
ResponderExcluirPrabens
Eu teria virado as costas e saido correndo. Um auxiliar para 22 pacientes... A saude publica esta falida
ResponderExcluirSueli,]estamos pensando no assunto. Obrigado pela sugestão.
ResponderExcluirVoce pode tambem visitar enferjose.wordpress.com
Os pacientes que estavam aguardando vaga de ortopedia já conseguiram transferencia para cirurgia?
ResponderExcluirNão é por nada não. Mas vc é o melhor enfermeiro daquele lugar. Não coloco meu nome porque senão ja viu. E olha que eu nem gostava de vc
ResponderExcluirAlê,
ResponderExcluirforam alguns, outros estão na clinica esperando. O rapaz azarado ainda esta lá. Nenhum hospital aceita o cara. Pelo menos agora esta em uma cama na clinica
QUE PLANTÃO HEM!!!!!!!!!!!! SOBREVIVERAM TODOS??????????
ResponderExcluirAdoro ler estas histórias, as vezes fico triste por vcs trabalharem tanto,mas fico feliz por existir profissionais qualificados como vcs.
ResponderExcluirAmigo do céu, se cercar vira zoológico e se jogar uma lona vira circo,eita vida difícil essa de enfermeiro, kkk...Mas parabéns pelo seu trabalho.
ResponderExcluirAmiga,esta mais para arena mesmo. Daquelas da Roma antiga, sabe?
ResponderExcluirHei, cinco dias sem novidades? Está de folga?
ResponderExcluirEu sei que vc precisa descansar mas adooooro o blog
Passei para ver as novidades e não resisti. Li três plantões de novo, bommmmm
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