Chego mais cedo, fim de férias, tenho uma conversa com a R, Diretora de Enfermagem, e me preparo para assumir meu plantão. A escala está mudada, saíram uns entraram outros, ainda não sei se o saldo destas trocas será positivo… É esperar pra ver… caramba tiraram o L, do PS, e vem o Rn, sei não…
Começa o espetáculo, 32 pacientes em observação, alguns graves, outros eu realmente não entendo porque estão ali. Aff, como dividir esta gente toda pelos Auxiliares e Técnicos de forma a conseguir o mínimo de justiça…Olho a escala, feita pelo meu colega… Decido mantê-la, assim não crio constrangimentos logo no primeiro dia.
Toca o telefone, a radiologia aguarda a paciente da emergência para realizar uma tomografia, desde as 14:00. Por que não levaram à tarde? Pergunto ao colega, que responde: Talvez porque está intubada... sei lá...
Preciso de um médico, a paciente precisa do exame, chamo o N, médico experiente, antigo mas que não está disposto a acompanhar... temos um leve bate boca, daqueles que têm as pessoas que se respeitam, ele decide acompanhar a paciente. Problema um resolvido. Problema dois: respirador de transporte, procura, adapta, monta corta pronto vamos acabar com isso. P, auxiliar jovem 20 aninhos, acadêmica de enfermagem faz o transporte. Olho para ela e penso "Queria ter um filho assim...
Calor insuportável, Pronto socorro lotado, uma dor aqui, uma angústia ali, nada demais até que um homem entra transtornado, sujo de sangue, procura o irmão que cortara os pulsos, tento acalmá-lo, em vão. Ele sai, quer achar o irmão, após brigar com toda a equipe e ser detido pela guarda municipal descobrimos que o irmão dele estava em outro hospital… vai entender.
N, outra auxiliar que também é acadêmica, traz outra questão: Um senhor de 84 anos desde as 16:30 na cadeira aguardando uma maca, tento dizer pra mim mesmo que não há nada a fazer... Hum, tem uma maca vazia na emergência... NÃO!!! Pode ser necessária, se tivermos uma emergência. Surge uma luz, uma vaga na clínica cirúrgica feminina, transfere uma, troca outra e temos uma maca para o idoso que sorri agradecido como se recebesse um favor... Alguém diz atrás de mim " Estava com saudade de você, da forma como você resolve tudo". Novo ânimo, nada como um elogio de vez em quando
O J, auxiliar, me chama, um garoto especial 26 anos, está na cadeira todo encolhido, sem condições de acesso venoso, sem uma maca disponível para deitar, fazer o que? Ele pergunta. Uma angustia toma conta de mim, fazer o que? Pensa, pensa, desocupamos uma maca (o paciente que teve que cedê-la não gostou nada do assunto), deitamos o garoto e eu passo um cateter periférico em sua jugular, acho melhor colher exames…
Um paciente, todo de azul me pede água. De passagem dou-lhe uma garrafa de água mineral após três ou quatro passos cai a ficha: Ele só tem uma mão a outra está completamente imobilizada, como abrirá a garrafa? Volto, peço desculpas, abro a garrafa e rimos juntos… Haja calor, não temos ar condicionado e com a lotação pra lá de superada…
Um senhor entra observação adentro, cadeira de rodas empurrada pela neta, linda neta, seguida por uma jovem senhora, sua mãe. Dor no peito e braços, diabético, cego de um olho. Eletrocardiograma, enzimas e confirmado; infarto agudo do miocárdio, lá se vai a maca vaga da emergência a N, olha pra mim e diz: "que boca hein chefe?". Ainda bem que não usei a maca. Não temos outra.
Bate papo no postinho: Assunto relacionamentos… como conseguimos dar risadas de nós mesmos? Isto ajuda a passar o tempo e agüentar “o tranco”… dou muitas risadas com a D, ela se faz de brava com os outros mas entre nós é o máximo de simpatia
Duas da manhã a auxiliar M me chama “o leito 06 não está bem…” avalio pressão 7 por 3, pulso 130, febre não gosto, chamo o R, médico de plantão, avalia, prescreve drogas…Mas o paciente não responde tem uma parada cardíaca, massagem, massagem… sem sucesso. Primeiro óbito do meu ano, talvez pare de contar daqui a alguns plantões… Este calor não cede. Acabaram as garrafinhas de água mineral para os pacientes, não demora e teremos reclamações…
Três da manhã, a D, me chama… paciente do leito 01 da Emergência, a mesma da tomografia, manchas vermelhas… hiperemia, o R ainda está ali, discutimos ele acha que é sepses (ela teve febre), eu discordo, sugiro reação anafilática (acabou de receber dipirona)… Vamos tratar os dois, hidrocortisona, adrenalina, problema resolvido. Um certo orgulho toma conta de mim… R, sorri marotamente e dispara: Você é chato pra caramba.
Sete da manhã, converso com Rn, enfermeiro, novo no plantão, fazendo o senso… Caramba, trabalhamos muito hoje, 45 pacientes internados, 08 em cadeiras… Gozado, ninguém reclamou da água…
Foi um bom retorno… até amanhã.
Acho que apesar da pitada de humor... Entre risadas no posto e piadas com colegas, quanta angústia e sentimento de impotência... Senti vontade de chorar, não só pelo sofrimento dos outros, mas pelo nosso. Ando refletindo sobre ...o fato de trabalharmos no limite ou além dele, quantas risadas de nós mesmos e dos outros, tentando amenizar ou não sermos atingidos por sentimentos que na verdade sempre levamos para casa... Que escolha a nossa!!!
ResponderExcluirHeloisa