"O segredo do sucesso não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz. " Cecília Meireles
Ainda não eram 18h00min quando cheguei à base. Estacionei a moto e me dirigi ao estar com meus livros e bolsa. A tarde está tranquila. Procurei pelo LC a fim de liberá-lo e não o avistei então fiquei por ali. Foram pouco mais de dez minutos entre minha chegada e o chamado do radio operador. Anotei o chamado e o LC apareceu:
- Pode deixar J, eu vou.
- Negativo. Vai lavar a louças em casa. Deixa comigo.
Saímos. MC, MR e eu. Respectivamente: médico, condutor, e enfermeiro. Mas o MC não vai ficar, é seu último chamado do dia à noite virá outro médico, SG com quem gosto de trabalhar.
Chegamos ao local, uma comunidade carente e tivemos que deixar a viatura uns 500 metros da casa da vítima e seguir a pé por trilhas, pontes e becos até encontrar uma senhora de 45 anos já morta. Não havia o que fazer e os parentes já sabiam disto, mas a situação era tensa: O enteado estava revoltado:
- Eu liguei o dia todo e o médico do SAMU disse que não ia mandar a ambulância, se tivesse mandado ela estaria viva.
Senti o clima tenso e pedi para o MC acelerar o trabalho de constatação e ele, muito sabiamente, decidiu terminar seu relatório na viatura.
Voltamos para base tentando entender o ocorrido. Mas somente quem participou conseguiria dizer o porquê não mandou a ambulância.
Na base o SG já nos espera e o LC ainda não foi embora, vai aguardar a esposa então aproveitamos para trocar umas ideias e colocar o papo em dia.
Novo chamado, jovem de 22 anos baleado na cabeça. Outra comunidade. Fomos para o local e encontramos um rapaz caído na calçada com um ferimento na nuca.
- Ele tem pulso, informou o SG.
- Então vamos tirar daqui – falei, já preocupado com a multidão que se formava.
Na viatura o SG entubou o rapaz e eu puncionei uma veia. Não tínhamos muitas esperanças no seu prognóstico mas precisávamos fazer nossa parte. No caminho para o hospital ele teve uma PCR, tentamos a reanimação, sem sucesso. Entramos no primeiro hospital que avistamos, o mesmo onde trabalhei por anos, mas não havia mais o que fazer. Apenas entregar o corpo.
Revi as meninas, Glória, SH, AL, MN e VC, quanto orgulho sinto ao vê-las trabalhando, se esforçando para fazer o impossível dentro de uma situação onde o que mais falta são condições de trabalho.
Não demorou e o chefe de plantão, que eu já conheço de outros carnavais, veio questionar o porquê levamos o paciente para lá.
- O hospital X é mais perto.
- Dr, para o senhor não tem mais perto. O Sr trabalha nos dois. Quando está lá diz que o mais perto é aqui e aqui diz que é lá. O problema é que não quer trabalhar. O paciente já está aqui. Nossa parte está feita. – respondi com minha habitual cortesia e sai para evitar estragar minha noite.
Tomei um café da AD, limpamos a viatura e voltamos para base. Mas mal deu tempo de descansar. Uma viatura de suporte básico pediu apoio e lá fomos nós. No local um motociclista foi atingido por um carro, está mal, Glasgow 03, sua perna esquerda muito comprometida e sem perfusão no pé. A FN, enfermeira, está na viatura e nos ajuda a estabilizar o rapaz. Intubação, acesso venoso, realinhamento do membro, muito trabalho e do tipo que gostamos. Em alguns minutos, estamos chegando ao hospital... Deixamos o rapaz, passo o caso para o enfermeiro e vamos limpar a viatura que está lavada de sangue. Destino: base.
Na base, me dedico a repor os materiais enquanto o MR limpa nossa prancha. Ainda não terminara a reposição quando ouvi o rádio chamar. Não acreditei mas ao olhar em volta e constatar que não tinha outra viatura na base, atendi.
- Viatura 2027, prossiga.
- Chamado para a equipe. Feminino, 30 anos…
Lá fomos nós. Em pouco tempo o MR chegou. Encontramos uma mulher deitada no sofá com sangue da cabeça aos pés. Colocamo-la no chão e ao examinar melhor percebemos o tamanho do estrago. Ela tinha perfurações por arma branca em todo o corpo. Umas mais outras menos profundas. Costas, tórax, braços, pernas e abdômen.
- O que aconteceu? Perguntei.
- Ela tomou umas facadas do marido – respondeu um morador com uma desconcertante calma.
O marido agressor ainda estava ali, calado, olhando tudo e nos tirando a concentração . Precisávamos sair dali.
Um ferimento na região cervical e outro no dorso eram os que mais nos preocupavam. Levamos para a viatura, acesso venoso e quando ia fazer a medicação para dor, percebi que o sangramento aumentou. O soro que entrava pelo acesso venoso, saia mais a frente em um ferimento. Não pensei duas vezes, saquei um 14 e puncionei a jugular.
- Aí sim, elogiou o SG.
- Não tem outro. Os braços estão sem condições.
Saímos de lá e rumamos par o hospital onde deixamos o motoqueiro. Nosso plantão já era e o café que eu tinha marcado com a VC também, a ambulância para ser chamada de suja teria que melhorar muito. Mas uma sensação de dever cumprido tomava conta da equipe.
- Você está melhor? – perguntou o SG á vítima.
- Graças a vocês sim. Vocês são uns anjos.
- Nós somos F####, deixei escapar.
- São mesmo concordou a moça que pela primeira vez sorriu.
No hospital, passamos o caso e ficamos sabendo que o motociclista teve a perna amputada mas está vivo e sem outras sequelas. Dos males, o menor.
Ainda temos que limpar a ambulância e voltar para base, como diria DN “Em status DEZ, Dezmaterializados, dezcabelados, dezmontados” mas motivados.
Chego à base, passo meu plantão para o RD que logo recebe outro chamado e sai.
Hora de ir embora, preparo a moto e fico por alguns instantes olhando para ela como a tomar coragem para montar… fui. A vida continua
"Fazer o que você gosta é liberdade. Gostar do que você faz é felicidade." Frank Tyger
Amo ler vc
ResponderExcluirSuas aventuras perigosas...
ResponderExcluirSuas aventuras perigosas,é preciso amar o que faz para se correr riscos.
ResponderExcluirMaravilhoso parabéns
ResponderExcluirMeu tio é demais!
ResponderExcluirNão demore a postar novamente...ler vc me encanta.
ResponderExcluirLeio mil vezes o msm post...
ResponderExcluirLendo novamente...
ResponderExcluirnão vai postar mais???
ResponderExcluirEntrei aqui pra ler novamente...saudades de ler o blog...esta fazendo falta um novo post...dois meses já sem postar...
ResponderExcluircade????
ResponderExcluirvai demorar?
ResponderExcluireiiii ainda to esperando
ResponderExcluiragora q o blog nao sai msm
ResponderExcluirvoltei reler ....
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