sábado, 1 de março de 2014

Sexta feira: começou o carnaval...

A primeira parte do dia já tinha sido muito corrida, minha unidade cheia de intercorrências (nome bonito que damos para problemas, encrencas e outras coisas mais) e quando sai de lá com destino ao SAMU o fiz desejando uma noite tranquila, sem muitas saídas.
Passavam-se alguns minutos das 18h00m quando encostei a moto no pátio e fui liberar a DL para curtir sua sexta de carnaval. Mal assumi o plantão e o rádio operador lembrou-se da existência da USA na base e passou o primeiro chamado de minha noite. Hoje estamos MB, como condutor, SL médico e eu.
Anotei o chamado e ao ver o endereço o MB já alertou:
- Lá é boca quente...
- Será que a PM já está no local? – questionou o SL
- Confirma com a central – sugeri
O SL chamou a central e foi informado de que o policiamento já fora solicitado, mesmo assim não deixou de reforçar o pedido e a preocupação com a segurança no local, uma comunidade conhecida pela violência.
- MB, liga a Maria Louca e vamos nessa. - pedi.
-Pode deixar, conheço a rua. – respondeu
E lá fomos nós.
Enfrentar o trânsito das 18h30 em uma cidade grande não é fácil, mesmo com sirene ligada a sensação é que não chegaremos a tempo de ajudar a vítima. Mas depois de 10 minutos chegamos à comunidade e não demorou em identificarmos a vítima.
Um rapaz de 32 anos, aproximadamente 1,90 de altura e uns 120 kg estava caído na calçada, sentado como se estivesse bêbado, mas com hematomas pela face e sem responder a estímulos. No primeiro momento pensamos ser um cadáver, mas logo sentimos o pulso o que nos deu um alívio, pois se ele estivesse morto não poderíamos remover, mas vai explicar isto para as pessoas que se aglomeram a nossa volta.
- O que aconteceu com ele? – perguntei a um dos rapazes que estavam mais próximos.
- Ele tomou algumas, cheirou todas e estava lutando UFC com um camarada aí tomou um e caiu de cara no chão... Só isso!
-Entendi. Só isto…
- Você acha que consegue uma veia, J? – perguntou o SL em tom de gozação.
Limitei-me a olhar e discretamente mostrar o dedo do meio, de forma que só ele percebeu a ponto de responder com um sorriso.
Colocamos o colar cervical, passamos o rapaz para a prancha, instalei o acesso venoso e com uma ajuda, muito bem vinda, dos populares o levamos para a maca e para viatura.
O rapaz não estava bem e nós tínhamos pressa em sair dali. No trajeto para o hospital ele piorou, começou a vomitar o que nos deixou preocupados. Chegamos rápido e logo de cara nossa vítima foi pro tubo. Missão cumprida, agora é aguardar a liberação da maca e limpar a viatura. Prontos para a próxima.
Ainda no hospital uma equipe do suporte Básico chega com um rapaz que caira de uma estrutura de aço na avenida onde está sendo comemorado o carnaval da cidade. O primeiro de alguns…, pensei.
Não demorou a vir novo chamado. Uma senhora de 65 anos, inconsciente. Mais uma vez em lugar de difícil acesso e bem longe de nossa base. Depois de treze minutos de deslocamento, chegamos à comunidade onde nos deparamos com uma senhora muito debilitada, castigada por um câncer de pâncreas recém diagnosticado e uma família numerosa e ansiosa.
Desta vez o acesso venoso estava realmente difícil, mas não precisei de duas tentativas para instalar o soro e garantir uma via de acesso para fazer a morfina, já que a dor era o maior problema de nossa vítima. Usando a cadeira de rodas a transportamos escadaria acima até a viatura e de lá voltamos ao mesmo hospital da onde saímos horas antes. Desta vez vamos tomar um chá de cadeira. Não há macas e ficamos por quase três horas presos no hospital enquanto ouvíamos pelo rádio a necessidade em outros locais. Paciência...
Saímos do hospital e novo chamado, um jovem de 24 anos, morto a tiros. Motivo: drogas, não há o que fazer. Quer dizer, para ele não há. Mas não deixo de pensar até quando vamos perder nossos jovens assim.
Depois de muito tempo, voltamos à base, já é madrugada e novo chamado nos aguarda. Uma senhora de 84 anos com AVC. Fomos para lá e encontramos uma idosa hígida, e com dificuldade para urinar. Não é caso de hospital, orientamos e retornamos á base.
Mal deu tempo de limpar a viatura e o RD, enfermeiro do dia chegou.
- Pode deixar J, vai descansar que você está com cara de acabado.

- Vou mesmo parceiro. Até o próximo.

2 comentários:

  1. Faz mais de um ano q acompanho o blog...sinto falta das publicações ...das historias.enfim...faça uma leitora feliz publique mais...sou sua fã.

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