quarta-feira, 22 de maio de 2013

Terça feira: Pluralidade e satisfação

“Ninguém é assim tão velho que não acredite que poderá viver por mais um ano.” Cícero

Ainda está escuro quando chego ao quartel do Corpo de Bombeiros onde fica a base em que deverei fazer meu plantão hoje. Assim que chego sou recebido pelo PC, auxiliar de enfermagem que eu já conheço devido ao trabalho no pronto socorro. Este me recebe muito bem. De uma forma quase festiva.

bem vindo - Aí sim, agora o chefe está no SAMU, saímos ganhando. Seja bem vindo.

- Obrigado PC, tudo com você?

Ele me passa o plantão e me dá a notícia de que a noite no PS foi cruel.

- Deu até dó das meninas... Muito cheio.

Recebi o plantão e logo chega AD minha auxiliar e parceira de hoje seguida pelo FV nosso condutor. Equipe completa, fomos tomar café da manhã enquanto esperávamos pelo primeiro chamado. Não demorou:

- Base é a central...

- Prossiga.

- Feminino, 102 anos, vítima de queda.

Partimos para o local onde encontramos uma idosa de 102 anos e muito lúcida que caíra ao sair do banheiro, sente dores na bacia e a posição de seu pé aliada ao encurtamento da perna já me adianta o que aconteceu: a vovó fraturou o fêmur. Com 102 anos a recuperação promete ser bem difícil.

Na viatura a vovó desabafou:

- Moço, tenho mais de 100 anos e é a primeira vez que ando em carro de doente. Nunca fiquei internada, nem para parir meus filhos.

- Que bom… A senhora é forte.- concordei.

- Mas já estava na hora, né filho? Cem anos é muito tempo para viver.

- Eu quero chegar lá.

- Vai sim, você é bonzinho, Deus vai cuidar de você.

Deixamos a idosa no hospital e retornamos para base, mal chegamos e novo chamado:

japa Uma adolescente de 14 anos teve a cabeça atingida por uma barra de ferro, destas que seguram a rede de vôlei nas quadras. Ela estava lúcida e conversando, mas alega ter perdido a consciência. Pelo sim, pelo não: protocolo. Imobilizada, colocamos a japinha na viatura e ela foi nos divertindo com sua desenvoltura e desinibição durante todo o trajeto.

- Como assim? Você tem 14 anos e já tem namorado?

- Claro. E ele tem 18.

- Mas você é muito nova...

- Mas vou fazer 15...

- Ah ta. Agora mudou tudo. (risos)

No hospital ela já demonstrava estar recuperada do susto. Deve ser liberada logo. Nós temos que voltar para base.

Mal chegamos e novo chamado, acidente moto x moto. No local um rapaz de 29 anos aguardava por nossa chegada. Não sabe como colidiu na traseira de outra moto e acabou caindo. Tudo indica que fraturou a clavícula. Imobilizado, vamos levá-lo para o mesmo hospital onde trabalhei nos últimos anos. Na viatura ele liga para mãe, pai, irmão até que eu dou um basta.

- Meu, deste jeito você deixa a família inteira preocupada. Dá um tempo que um fala para o outro.

Chegamos deixamos e fomos liberados rapidamente. Vamos para base, a fome está apertando.

DIA-DA~1 Almoçamos e logo fomos chamados novamente, outra idosa, desta vez com 95 anos, vítima de queda.

- Só falta ser mais um fêmur – brinquei com a AD

- Provavelmente- respondeu.

Chegamos a casa e a vontade foi de dar meia volta e retornar. A nora nos esperava no portão.

- Boa tarde. O que aconteceu? –perguntei.

- Faz uma semana que ela caiou e ralou o braço. Mas ela não dorme e nem come.

Verifiquei os sinais vitais da idosa e nada indicava que ela necessitasse de assistência médica imediata. Menos ainda de APH.

- Minha senhora, a Dona M não tem nada que indique que ela está doente. Porque vocês nos chamaram.

- É que ela precisa de internação e se a gente não for com o SAMU eles não internam...

- Veja bem – tentei argumentar – mesmo com a gente, o médico não vai interná-la. A vovó esta bem, não precisa de médico.

Não adiantou, levamos a idosa para o hospital, mas ainda teria mais uma batalha. Todos queriam acompanhar e só podíamos levar uma acompanhante. Insiste, chora, pede e termino por permitir duas acompanhantes para que saíssemos logo dali.

No hospital o médico repetiu para a família tudo o que eu já tinha dito. Saímos de lá deixando a nora inconformada aguardando a sogra tomar um soro.

mdg Mal chegamos e outro chamado: desta vez uma alteração de comportamento. No local um rapaz completamente envolto por um cobertor e que as assistentes sociais dizia estar agitado. Tirei o cobertor de cima dela e a cena era de dar medo. Estava todo evacuado e seu tênis parecia uma privada suja tamanha era a quantidade de fezes dentro dele. O meu receio era que ele começasse a jogar aquilo tudo e com jeito fui tirando as coisas mais perigosas e sujas de perto dele

- Oi, qual é o teu nome? -perguntei

- Não te interessa... – respondeu o homem que além de tudo estava pelado da cintura para baixo.

- Amigo, vou te levar para o hospital para você tomar um banho e se alimentar.

- Vai levar o C######.

- Bem vou te dar opção. Você pode subir na viatura e ir para o hospital tomar um café, ou vou te amarrar e levar assim mesmo. Como vai ser?

- Com café eu vou.

Embarcamos o rapaz e a AD já pediu:

- Chefe, por favor, me deixa ir na frente, deixa.

- Só se for com a janela aberta. (risos)

Deixamos no hospital, pedi um café escondido para o GCM e dei a ele. Fomos lavar a viatura, temos que pensar no próximo. O dia está prometendo.

 

Chegamos à base e antes de deixarmos a viatura o sargento dos bombeiros pede.

- Enfermeiro, tem como dar um apoio, estamos com o auto-bomba e tem um chamado de atropelamento de uma criança.

ambulancia-do-samu Pedi autorização pelo rádio e fomos ao encontro da menina, seguindo a viatura dos bombeiros, no local encontramos uma garota de 12 anos, aparentando bem menos, que não olhou ao atravessar a rua quando saia da escola e foi atropelada. Não parece ser nada grava, tem um galo enorme na testa e isto já é suficiente para que nos preocupemos com um TCE. Preparamos a garota e colocamos na prancha. O problema é que o hospital que atende crianças vítimas de trauma fica do outro lado da cidade. São 18h30m e com sorte sairemos de lá em uma hora ou menos.

Eram 19h50m quando chamo a central.

- Central

- Prossiga

- Viatura liberada do hospital. Destino base para troca de equipe

- Positivo, bom regresso.

Estou cansado e fazendo uma análise rápida de meu dia, valeu à pena. Fomos dos 12 aos 102 anos em 12 horas. Atendemos clínica médica, cirurgia geral ortopedia, psiquiatria e pediatria. Ouvimos histórias alegres e tristes de pessoas que não sabem que estão apenas começando a vida e de outras que sabem que a vida está se esvaindo. Me sinto bem, apesar de exausto.

Realmente gosto do que faço.

“A satisfação que nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.” Clarice Lispector

4 comentários:

  1. Nunca duvidei que vc está na profissão mais que certa!!!! vc faz as coisas com amor e dedicação!!!!

    Obs: só vc mesmo pra oferecer um café em troca de levar o rapaz para o PS, e o melhor pra não deixar de ser vc, pagar o café!!!!!

    ResponderExcluir
  2. Nunca duvidei que vc está na profissão mais que certa!!!! vc faz as coisas com amor e dedicação!!!!

    Obs: só vc mesmo pra oferecer um café em troca de levar o rapaz para o PS, e o melhor pra não deixar de ser vc, pagar o café!!!!!

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  3. Por Elis Regina: Acho que estes servem para as atuais circunstancias:

    Aprenda como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer amanhã.
    Mahatma Gandhi

    A arte de viver é simplesmente a arte de conviver ... simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!
    Mario Quintana

    O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
    Fernando Pessoa

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  4. Por Elis Regina. Agora esta é para ti, concordas?

    Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.
    Sigmund Freud

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