“O talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos.” Michael Jordan
Quinta feira, dia de rodízio e como ando meio (ou muito) fóbico com a moto estou indo trabalhar de carro. Isto me obriga a chegar ao hospital antes das cinco da tarde, de forma que tenho mais de duas horas para fazer algo muito importante: nada.
São 18h45min quando me dirijo para o PS, despreocupado com a passagem de plantão pois a MC já deve ter recebido, ainda no relógio de ponto encontro VC que formará conosco o trio desta noite.
Ao passar pela porta vai e vem a primeira surpresa a MC não veio então temos que receber o plantão que não está nada fácil. Já temos pacientes em poltronas e três aguardam na admissão onde AND e já esta atuando.
Na emergência quatro pacientes sendo que um deles acaba de ser entubado e seus parâmetros não estão nada bons.
O plantão começa. Uma quinta feira como outra qualquer, recepção cheia, mas os clínicos vão dando conta da porta de forma que não entram muitas “emergências” como dnv, pressão alta, dores de cabeça “insuportáveis” e outras coisas que acontecem quando a fila está longa. O que não diminui são as vítimas de traumas estas vão chegando resgate após resgate, SAMU após SAMU e sendo atendidas, liberadas ou internadas.
Por falar em internação, minha preocupação atual é a clinica cirurgica. Tivemos problemas lá o que me obrigou a abrir mão da SM no PS para tentar melhorar a qualidade na clínica. Hoje será seu primeiro plantão e não consiguirei acompanhar. Isto é ruim.
O PS está lotado e ainda assim a equipe vai organizando, separando homens de mulheres, encaminhando os exames, medicando, higienizando, trocando. Paro e observo a FB com “toda” sua altura cuidando de uma mulher com dores na coluna. Logo depois está as voltas com o acesso venoso dela.
- Precisa de ajuda FB? – perguntei.
- Preciso sim, chefe. (se a recruta precisa de ajuda para uma veia, então a veia é horrível).
Antes que eu pudesse ajudar ela conseguiu o acesso e soltou sua famosa frase:
- Eu sou f...
Logo em seguida descobriu que não tinha separado todo material e precisou que pegasse o polifix.
- Caramba, chefe. Justo quando você está perto.
Risos
Na admissão o cardiologista traz uma paciente já nossa conhecida. Sempre vem com “dores fortíssimas” que desaparecem quando os filhos não estão por perto. Sinais vitais, medicação e alta. Penso em conversar com os filhos, mas eles se vão antes que eu possa falar. Na próxima talvez.
VC esta as voltas com o corredor e observações. Transferências, internações, intercorrências. Somos nós dois hoje. Quase não temos tempo para conversar.
A CL me avisa que o aparelho de ECG não está mais funcionando.
- Saiu um monte de fumaça e parou de funcionar.
Esta eu vou ter que explicar amanhã. Mas um aparelho de eletro queimado.
As horas vão passando. Chega a hora do jantar. Nosso costume é irmos juntos e desta vez não será possível. VC vai com a ELN à padaria já que nossa MN está de férias e a mamata da comidinha caseira suspensa por vinte longos dias. Vou me satisfazer com um lanche que elas trarão.
As meninas continuam o trabalho. Não é preciso mandar. Quando muito orientar, tirar uma dúvida, Elas vão organizando e resolvendo tudo, no tempo e ritmo delas. Observo e aprendo.
Na emergência a SH já preparou o material para o cateterismo vesical e me chama.
- J, o material está pronto. Você vai passar agora?
Decido passar a sonda e as meninas me trarão um lanche. Qualquer coisa com carne serve.
Na hora de passar a sonda, uma surpresa: o paciente tem hipospádia. Aproveito a oportunidade para mostrar a anomalia anatômica para AND, LCN e SH.
- Vocês já viram isto?
- Não. - respondeu a japa, fazendo uma cara de quem não gostou da cena.
- Chama-se hipospádia. Ocorre quando o meato urinário se forma na parte de baixo da glande. Pode ocorrer a formação no meio do pênis ou no escroto.
Provavelmente a japa vai pesquisar sobre o assunto.
Passamos o cateter uretral e logo a LCN me chama.
- J, a sonda esta vazando, pode ser pela anomalia?
- Com certeza, vamos repassar com uma mais calibrosa – respondi.
Repassamos e desta vez deu certo.
Mais algumas horas e temos que passar um PICC no mesmo paciente, vai receber drogas vasoativas então precisa de acesso central. As meninas da emergência (e o AND- menino) preparam o material e me auxiliam. Primeira tentativa uma artéria. Na próxima pegamos. Passamos o cateter, instalamos a medicação e agora depende da reação do paciente.]
Aproveito para perguntar ao AND se esta gostando do PS (eu o trouxe da psiquiatria há mais ou menos um mês)
- PS na veia chefe. É diferente, mas é muito bom.
- Que bom. Aqui a gente rala, mas aprende muito.
- Com certeza.
A equipe da emergência está evoluindo. Estão mais independentes e responsáveis, pensando sempre um passo a frente do médico e até mesmo de mim. Isto é ótimo.
Chamo a loira para fumar. Não tivemos tempo para conversar hoje. E não teremos muito.
Conversamos um pouco, falamos sobre trabalhos, esperanças e frustrações. Tudo isto no tempo de 01 cigarro. Voltamos para a arena.
Madrugada, tudo caminha bem. Meu pé dói demais. Chega a queimar. Não é no mesmo local da fratura. Peço para a SD me medicar.
- É prá já. Agora é que eu me vingo. Vou errar um monte de vez esta veia. – brincou a doce SD.
Tomei a medicação e fiquei no balcão, lendo até que a auxiliar da masculina me chama.
- Enfermeiro, dá uma olhada no paciente do leito 10. Está com cateter, mas está dispneico.
Fui ver o paciente e não gostei do que encontrei. Estava praticamente gaspeando, pouco responsivo.
- Vamos levá-lo pra emergência e já colher gasometria e outros exames.
Assim foi feito. Mas mal chegou à emergência e o paciente evoluiu para PCR. Tentamos mas sua hepatopatia, causada pelos longos anos de alcoolismo, decretou o fim da jornada. Agora resta fazer a papelada e avisar a família. Liguei para a casa da sogra, único telefone disponível.
- Bom dia (afinal são 03h20m) aqui é do hospital onde o senhor J.A. está internado. Preciso da presença da família com urgência e dos documentos dele.
- Aconteceu alguma coisa? – pergunta a voz do outro lado.
- Sim, aconteceu. Aqui nós explicamos.
- Aí, meu Deus!!
Sempre me pergunto, ao fazer estas ligações, o que as pessoas acham. São 03h20 da manha e o hospital liga. Claro que não é para dar boas notícias ou avisar da alta. Mas a negação faz parte da natureza humana e dos nossos mecanismos de defesa.
Foi meu último ato. O plantão chega ao fim sem outras novidades. Hoje a passagem fica por minha conta. A loira tem que sair correndo. Passo o plantão e caminho para a saída quando um paciente me chama.
- J, você já vai?
- Sim, seu J.
- E quem vai cuidar de nós?
- O show continua seu J. Só mudam os atores.
- Você e sua equipe estão de parabéns. Bom descanso
- Obrigado. Vou dizer isto a eles.
Enquando saio do PS descubro que é impossível andar sem esbarrar em alguém de tão cheio que estamos deixando.
Realmente minha equipe está de parabéns.
Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer. Frank Lloyd Wright
como sempre um show de profissionalismo.parabéns mestre.
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