sábado, 20 de abril de 2013

Quinta feira; vale a pena

 

“Tudo o que vale a pena ser feito, merece e exige ser bem feito.”            Philip Chesterfield

São 18h20m, estou atrasado quando finalmente estaciono a moto, depois de enfrentar um transito infernal nos quase 40 km que separam meus dois empregos. Desço da moto, retiro a roupa de proteção, e ainda arrumo tempo para aceitar o convite para um café pré-plantão do MC, enfermeiro, que há pouco mais de um mês veio reforçar nossa desfalcada equipe e tem “tomado conta” da UTI, desde então. Desde sua chegada tomamos café juntos praticamente todos os plantões, já nos conhecíamos, pois trabalhamos juntos em outra equipe.

Volto do café e é hora de assumir, registro meu ponto e tomo o destino de sempre. No caminho encontro a AD (Glória), que se oferece para me ajudar a carregar as pastas e vamos juntos para o PS.

A porta vai e vem esconde um PS relativamente calmo, apesar de cheio. Pacientes conhecidos, alguns novos e as dificuldades de sempre. Observo a docinho recebendo o plantão. Somos ela e eu hoje. Adoro a parceria com a MC ela é técnicamente ótima e pró ativa além do senso de responsabilidade e paciência incomuns.

Ela, a MC, já está rearranjando a escala pois temos tres faltas e isto quebra qualquer planejamento. Não demora e deixa tudo “redondo”. Refazer o quebra cabeça de uma escala já desfalcada não é fácil.

O plantão começa estou na admissão quando ouço uma viatura do SAMU chegando, algo me diz que devo me preparar. Calço as luvas e vou para a entrada de ambulâncias.

Da viatura desce uma senhora de 71 anos completamente cianótica e muito dispneica. Peço para as meninas preparem a sala de emergência e vamos para lá. A auxiliar que a acompanha me passa o caso:

- Era um chamado das 17:30, chegando lá a encontrei assim com PA 9 por 6.

- Vamos lá crianças, MOV e chamem um médico que a coisa aqui vai complicar.

Logo a paciente estava monitorada, com acesso venoso e oxigênio. O problema é que só conseguimos o acesso na articulação do cotovelo e ela não parava com o braço.

O VM, médico, chegou e começamos a pensar juntos.

- Gente, vamos precisar de outro acesso, esta mulher vai parar. – eu disse.

- Nem me fale uma coisa dessas. – pediu o VM com seu bom humor de sempre.

Tentamos muito mas só o acesso ante cubital que funcionou mesmo e o VM decidiu passar um central. Ótimo.

- Chefe, tem outra vaga na emergência – pergunta a docinho – Tem mais um para vir pra cá.

Saí da sala e fui até a admissão onde a NV e alguns estagiários da MR tentavam um acesso venoso em um paciente de 60 anos, desaparecido há 10 dias e encontrado pela família caído na rua. Está desidratado, com hipoglicemia e sujo.

- Me dê um 18, NV.

- J, 18 não cabe aí não. Mas se você quer eu pego.- respondeu a NV, rápida como ela só.

Peguei o jelco 18 e puncionei a veia.

- Pronto! Vamos leva-lo para emergência.

- Caramba, ele pegou mesmo, disse a MR, enfermeira do dia, que já foi de nossa equipe e agora esta acompanhando alunos.

- Só para humilhar- completou a NV.

“Eu sou f###” – pensei satisfeito

Na emergência o VM esta passando o central na paciente que o SAMU trouxe. Mas quando ele estava acabando a previsão se concretizou, a paciente parou e começou a luta para trazê-la de volta. Fui até a sala ao lado.

- Preciso de mais ajuda aqui. A paciente parou.

Em instantes ela estava entubada e a equipe realizando os procedimentos de RCP. Não adiantou. Trabalhos por quase uma hora e nada, nem um sinal de que ela voltaria. Depois de muitos esforços o VM teve que dar a triste notícia para aos familiares que aguardavam do lado de fora da sala. Sua mãe e avó não iria voltar para casa.

Nestas situações sempre avalio a atuação da equipe durante a RCP ou outra emergência e desta vez cheguei a conclusão que nossa equipe esta muito bem. Estamos sincronizados, ainda com algumas falhas de planejamento, mas que não interferem no resultado final.

Volto minha atenção para o senhor na outra sala. Ele está melhor, mas na admissão um outro está cianótico e com saturação de 88%. O problema é que não temos mais macas.

Olho para o corredor e minha atenção se volta para uma moça sentada na maca, conversando com uma parente. “Se pode sentar na maca, pode sentar na poltrona”, penso.

- Glória, esta moça. Coloque-a na poltrona e leve a maca para admissão. Temos um paciente com risco de morte lá.

Quando falo assim, alto e decidido, não dá tempo para a paciente argumentar. Se fosse pedir ela ia dizer que esta com dor, com tontura etc. Sempre funciona no fórceps.

- NV, este também vai para emergência. – disse apontando para o senhor de 80 anos que sibilava na cadeira.

- E maca? – perguntou a NV.

- Já arrumei. Alguém no corredor ficou cheio de vontade de ceder.

A NV sorriu e levamos o senhor para emergência. Ele será o único a permanecer na sala até o final do plantão. Mas melhorou muito.

Na saída da emergência converso com a filha da paciente que acabara de falecer.

- Moço, como é seu nome?

- Enfermeiro J. – respondi.

- Enfermeiro, eu queria agradecer, de coração o que vocês fizeram pela minha mãe. Obrigado. Sei que ela não morreu abandonada ou mal cuidada. Falam mal de hospital publico, mas deu para ver o quanto vocês se dedicam.

- Eu também quero agradecer – disse o filho do paciente em cujo braço eu passara o jelco 18. Vocês atenderam três emergências ao mesmo tempo e com muita dedicação. Meu pai está vivo e melhorou. Mas se ele tivesse complicado não seria por falta de atenção.

- É o nosso trabalho. – respondi enquanto me afastava pensando: “Eta equipe boa do c****!!!”

Na admissão a docinho está com uma paciente com fratura de fêmur e quebrando a cabeça para arrumar macas, enquanto na sala de sutura um bêbado com cortes no braço causa um tumulto generalizado e quase destrói a sala para depois evadir-se do hospital. Não demorou muito e ele voltou, desta vez trazido pelo corpo de bombeiros. Com a presença dos policiais ele se deixou suturar e foi liberado. Admiro essas loucuras seletivas que sabem exatamente quando devem se comportar.

A admissão não para. A NV me chama:

- J, ajuda aqui.

Entro e encontro um rapaz “desmaiado” nas cadeiras. Pego sua mão elevo e solto observando enquanto ela cai e desvia-se oportunamente do rosto.

- LC, não aplica o remédio não. Ele esta acordando e se você aplicar ele pode morrer.

A LC sorriu enquanto o paciente milagrosamente ia recuperando os sentidos. Esta com muita dor e com reflexo de Jordano positivo. Isto indica possível litíase renal. Foi para cadeira, medicado, melhorou e foi liberado.

Meu jantar será dois lanches do Mc que a SD fez a gentileza de ir buscar. Aproveito a pausa e devoro os dois. Sem peso algum na consciência estou faminto.

A medicação esta um inferno. A fila dobra o corredor e a cara de insatisfação dos usuários chega a dar medo. Vou ter que intervir. Chamo a SD e SH na admissão e emergência.

- Vamos lá para medicação, acabar com aquela fila, antes que a bomba estoure.

Em menos de dez minutos a fila zerou e voltamos pra emergência. Quanto menos foco de problemas melhor.

A madrugada avança, calma como deveriam ser todas as madrugadas. Conversamos, discutimos casos, as meninas aproveitam para tirar dúvidas e a SH ganha novo apelido. Fio Guia. Ela é tão magra que pode ser comparada ao instrumento usado para ajudar na intubação. Mas o que tem de magra tem de bom humor. É um exemplo.

Ainda teremos uma jovem com abdômen agudo inflamatório para levar com urgência para cirurgia. Tranquila, foi operada, perdeu o apêndice e vai ficar bem.

Chega a aurora e com ela o plantão termina. As funcionárias do dia começam a passar pela porta vai-e-vem e a possibilidade de sair do plantão alegra meu ser.

Passo o plantão. Recolho minhas coisas e no corredor vou pensando no quanto a gente se esforça. Não, definitivamente, não é fácil.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: Vale a pena.

Até amanhã.

"O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim..."

Ana Carolina - O avesso dos ponteiros

6 comentários:

  1. Nossa, que saudade. Já estava desistindo de cobrar.

    ResponderExcluir
  2. Tenho muito orgulho de trabalhar com vc. Enfermeiro com todas as letras maiúsculas .

    ResponderExcluir
  3. q orgulho...gostaria q esse enfermeiro fosse Meu só meu...

    ResponderExcluir
  4. Verdadeiramente um líder!!!!! Superando as dificuldades e mostrando que a união faz a força!!!!!

    ResponderExcluir
  5. Verdadeiro líder, superando as dificuldades e mostrando que quando verdadeiramente se quer fazer o impossível se torna possível e que a união faz a força!!!!!

    ResponderExcluir

Faça um ENFERMEIRO feliz. Comente