“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.” Charles Chaplin
O relógio marca 18h45 quando caminho resignado pelo corredor do ambulatório em direção ao Pronto Socorro onde já escuto os usuários reclamarem da lotação. Ao passar pela porta percebo que a coisa está muito pior do que eu pensava. O PS está abarrotado, gente para todo lado, pacientes em cadeiras, acompanhantes e um entra e sai que parece não ter fim. Espero as meninas receberem o plantão e começo a “planejar” soluções para o caos instalado. É gente demais. Para completar está um calor insuportável e não temos sequer um ventilador que alivie este desconforto
Pelo menos hoje estamos com a equipe completa. Não há ninguém de folga, é dia de treinamento, e isto faz com que a superlotação não nos assuste.
Na admissão SD, LC e EL já estão colocando a casa em ordem e passando para o corredor os pacientes que ainda aguardam uma maca. Entre estes uma senhora de 75 anos com fratura do braço esquerdo e cujo tratamento é cirúrgico.
Um senhor de 65 anos que a filha diz ter tomado um monte de comprimidos e que não pode ficar com ele em casa, quer que o internemos na psiquiatria de qualquer maneira. O paciente, por sua vez, me parece lúcido. Chamo a filha.
- Boa noite, o que acontece com seu pai?
- Ele precisa ser internado?
- Por quê?
- Porque ele toma remédio de doido. Olha aqui a receita. Não posso ficar cuidando dele.
- Deixe-me ver a receita – pego a receita: diazepan 10mg 01 comprimido por dia – Moça isto aqui não é remédio “de doido”, é apenas um calmante para ajudar ele a dormir.
- Mas eu não posso cuidar dele.
- Ele me parece bem. Ele cuidou de você quando era pequena?
- Sim. Claro ele é meu pai.
- Então. Agora é tua vez de ser filha dele. É a vez de você cuidar dele.
- Eu sei. Mas tenho minha vida também.
- Terá que se esforçar. Ele é parte de sua vida
Chamei o psiquiatra que disse a mesma coisa antes de liberar o paciente. A sobrinha da senhora com fratura de braço entra nervosa, quer levar a idosa embora.
- Vou tirar ela daqui agora,
- Não vai não. A senhora não é responsável por ela e se a levar daqui eu chamo a policia.
- Eu vou sim.
Fiz um esforço enorme para não perder a paciencia. Ou melhor, não demonstrar que já havia perdido. Enquanto discutíamos a LN me chama, chegara um baleado na sala de emergência. Deixei a senhora falando sozinha e fui para lá. A situação era crítica. O rapaz de uns trinta anos estava com sete perfurações no peito. Mal respirava e sua palidez indicava que havia perdido muito sangue. O RN ajudado pelos GCM colocava o paciente na maca.
- Cadê a luva RN? - perguntei
- Não deu. Eles jogaram o cara no chão.
- Não interessa. Primeiro a luva. Depois o paciente.
Pode parecer desumano, mas devemos preservar primeiro a nossa integridade, a vítima já é vitima. Não precisamos de mais doentes e como enfermeiro tenho obrigação de preservar e orientar minha equipe.
O rapaz esta mal. A equipe toda se concentra nele. Para ajudar a minúscula sala está quente como um forno de olaria. Toados estão suando e a tensão do momento faz com que a sensação de calor seja ainda maior. E tudo isto torna o trabalho mais exaustivo e tenso.
- Vamos oxigenar e garantir os acessos venosos – disse para a LN que já estava correndo para montar o sistema de oxigênio.
Puncionei com o 14 e logo o paciente estava com dois drenos no tórax, um de cada lado. Sua ventilação não melhorava e ele evoluiu para PCR. Iniciamos a RCP, uma, duas, três vezes. Instalei outro 14 e depois de muito volume e RCP conseguimos estabilizar pelo menos para que fosse levado ao centro cirúrgico. Ao passar a sonda vesical dou mais uma notícia ruim ao CS, cirurgião de plantão.
- Tem sangue na urina.
O desafio agora é mantê-lo vivo e transferir ao centro cirúrgico. Fizemos isto, LN e eu levamos a maca pelos corredores abarrotados, era hora de visitas e a numero de pessoas circulando é enorme. Deixamos o paciente e voltamos para o PS. A sensação é dever cumprido. Cumprimos principal da equipe de emergência: manter a vida a ponto de se utilizar outros recursos em prol da vítima. A partir daí é com outras equipes.
A cirurgia demorou horas e no final o paciente não resistiu, recebera pelo menos nove disparos, sete no tórax, um dele atingiu a veia cava inferior, outros lesionaram rim, pulmões, diafragma e pâncreas. Foi feito o possível, mas a notícia que a família recebe é a pior possível. O rapaz, entregador de uma farmácia, foi chamado para realizar uma entrega e agora está morto. Vítima da bestialidade humana.
A EL, nossa secretária de ala, me chama para atender o telefone.
- Chefe é uma pessoa que diz ser acessora de não sei quem…
- Pronto. Enfermeiro J.
- Então eu sou sou acessora do vereador “Fulano” e tem um rapaz que está aí na cadeira… queria que vc providenciasse uma maca…
- Peça para o vereador fulano vir aqui e colocar umas duas idosas que estão esperando na cadeira em uma maca. Depois posso ver seu rapaz. Boa noite. – desliguei
Esta tarde, preciso jantar e depois ainda temos o treinamento da equipe. Hoje vamos falar sobre PCR.
O jantar não desce. Está calor demais, não consigo comer. Também não estou com disposição para o treinamento. Mas é meu trabalho e precisa ser feito. Reunimos a equipe e vamos para o anfiteatro. Lá pelo menos tem ar condicionado.
O treinamento foi ótimo. É uma coisa que gosto de fazer. E deu uma quebrada no estresse do plantão.
Após o treinamento o plantão segue calmo. O SAMU traz dois pacientes da psiquiatria, medicados e transferidos para lá. VC e eu vamos “fumar” e colocar o papo em dia. Lá fora observo a quantidade de pessoas ligadas ao paciente recém morto.
- Não entendo o que eles ainda fazem aqui. Não vão ver o corpo. Porque não vão para casa.
- É normal. O ser humano é assim – disse minha amiga Enfermeira e psicóloga.
- Acho que estou ficando insensível à dor dos outros. Né?
- Não está não. Observo você com os pacientes, se preocupa com todos. Isto é mecanismo de defesa. Uma forma de se proteger.
Se tem uma coisa que me faz bem é conversar com a VC. Ela é franca e não fala o que quero ouvir. Isto é bom. Também tem o fato de só ela entender meu vocabulário com por exemplo: Morreu por “balalidade ou Facalidade”.
O plantão segue uma idosa com enterorragia passa a dar trabalho para LN e CL, mas passará o plantão bem. Fazemos nossos relatórios, sensos, livros e ficamos esperando a alegria da manhã.
Passamos com mais pacientes que encontramos. Fizemos o melhor com o que temos.
Na saída observo o carro do IML retirando o corpo do rapaz. Fico pensando o que vale a vida humana. Porque enquanto uns lutam para manter a vida outros a desprezam tanto?
Bem, foi mais um plantão...
“Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.” Machado de Assis
Enfermeiro de garra, coragem e muita competência só podia refletir em uma super equipe!!!! Parabéns!!!
ResponderExcluirA aula foi SHOW chefinho. Vc é chato pra carai mas sabe muuuuuito.
ResponderExcluirNem é tão chato assim. Adoro. E ainda não vi enfermeiro com tanto saber e competência.
ResponderExcluirquanto mais leio mais admiro esse enfermeiro...q infelizmente esta tão longe de mim... seu saber me encanta...q sorte tem os q estão ao seu lado...q triste sou por não ter essa chance...
ResponderExcluirSempre que da acompanho seu blog e sempre te disse desde a facul que sou tua fã!!!
ResponderExcluirParabéns!
Poxa...sempre que posso leio teu blog e vou te falar o que sempre te falei: Sou tua fã!
ResponderExcluirParabéns!!!