sábado, 9 de março de 2013

Quinta feira: esforços

“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.” Charles Chaplin

calor3O relógio marca 18h45 quando caminho resignado pelo corredor do ambulatório em direção ao Pronto Socorro onde já escuto os usuários reclamarem da lotação. Ao passar pela porta percebo que a coisa está muito pior do que eu pensava. O PS está abarrotado, gente para todo lado, pacientes em cadeiras, acompanhantes e um entra e sai que parece não ter fim. Espero as meninas receberem o plantão e começo a “planejar” soluções para o caos instalado. É gente demais. Para completar está um calor insuportável e não temos sequer um ventilador que alivie este desconforto

Pelo menos hoje estamos com a equipe completa. Não há ninguém de folga, é dia de treinamento, e isto faz com que a superlotação não nos assuste.

Na admissão SD, LC e EL já estão colocando a casa em ordem e passando para o corredor os pacientes que ainda aguardam uma maca. Entre estes uma senhora de 75 anos com fratura do braço esquerdo e cujo tratamento é cirúrgico.

paiefilhaUm senhor de 65 anos que a filha diz ter tomado um monte de comprimidos e que não pode ficar com ele em casa, quer que o internemos na psiquiatria de qualquer maneira. O paciente, por sua vez, me parece lúcido. Chamo a filha.

- Boa noite, o que acontece com seu pai?

- Ele precisa ser internado?

- Por quê?

- Porque ele toma remédio de doido. Olha aqui a receita. Não posso ficar cuidando dele.

- Deixe-me ver a receita – pego a receita: diazepan 10mg 01 comprimido por dia – Moça isto aqui não é remédio “de doido”, é apenas um calmante para ajudar ele a dormir.

idoso- Mas eu não posso cuidar dele.

- Ele me parece bem. Ele cuidou de você quando era pequena?

- Sim. Claro ele é meu pai.

- Então. Agora é tua vez de ser filha dele. É a vez de você cuidar dele.

- Eu sei. Mas tenho minha vida também.

- Terá que se esforçar. Ele é parte de sua vida

Chamei o psiquiatra que disse a mesma coisa antes de liberar o paciente. A sobrinha da senhora com fratura de braço entra nervosa, quer levar a idosa embora.

- Vou tirar ela daqui agora,

- Não vai não. A senhora não é responsável por ela e se a levar daqui eu chamo a policia.

- Eu vou sim.

veia bravaFiz um esforço enorme para não perder a paciencia. Ou melhor, não demonstrar que já havia perdido. Enquanto discutíamos a LN me chama, chegara um baleado na sala de emergência. Deixei a senhora falando sozinha e fui para lá. A situação era crítica. O rapaz de uns trinta anos estava com sete perfurações no peito. Mal respirava e sua palidez indicava que havia perdido muito sangue. O RN ajudado pelos GCM colocava o paciente na maca.

- Cadê a luva RN? - perguntei

- Não deu. Eles jogaram o cara no chão.

- Não interessa. Primeiro a luva. Depois o paciente.

Pode parecer desumano, mas devemos preservar primeiro a nossa integridade, a vítima já é vitima. Não precisamos de mais doentes e como enfermeiro tenho obrigação de preservar e orientar minha equipe.

armaO rapaz esta mal. A equipe toda se concentra nele. Para ajudar a minúscula sala está quente como um forno de olaria. Toados estão suando e a tensão do momento faz com que a sensação de calor seja ainda maior. E tudo isto torna o trabalho mais exaustivo e tenso.

- Vamos oxigenar e garantir os acessos venosos – disse para a LN que já estava correndo para montar o sistema de oxigênio.

Puncionei com o 14 e logo o paciente estava com dois drenos no tórax, um de cada lado. Sua ventilação não melhorava e ele evoluiu para PCR. Iniciamos a RCP, uma, duas, três vezes. Instalei outro 14 e depois de muito volume e RCP conseguimos estabilizar pelo menos para que fosse levado ao centro cirúrgico. Ao passar a sonda vesical dou mais uma notícia ruim ao CS, cirurgião de plantão.

- Tem sangue na urina.

O desafio agora é mantê-lo vivo e transferir ao centro cirúrgico. Fizemos isto, LN e eu levamos a maca pelos corredores abarrotados, era hora de visitas e a numero de pessoas circulando é enorme. Deixamos o paciente e voltamos para o PS. A sensação é dever cumprido. Cumprimos principal da equipe de emergência: manter a vida a ponto de se utilizar outros recursos em prol da vítima. A partir daí é com outras equipes.

A cirurgia demorou horas e no final o paciente não resistiu, recebera pelo menos nove disparos, sete no tórax, um dele atingiu a veia cava inferior, outros lesionaram rim, pulmões, diafragma e pâncreas. Foi feito o possível, mas a notícia que a família recebe é a pior possível. O rapaz, entregador de uma farmácia, foi chamado para realizar uma entrega e agora está morto. Vítima da bestialidade humana.

A EL, nossa secretária de ala, me chama para atender o telefone.

- Chefe é uma pessoa que diz ser acessora de não sei quem…

- Pronto. Enfermeiro J.

- Então eu sou sou acessora do vereador “Fulano” e tem um rapaz que está aí na cadeira… queria que vc providenciasse uma maca…

- Peça para o vereador fulano vir aqui e colocar umas duas idosas que estão esperando na cadeira em uma maca. Depois posso ver seu rapaz. Boa noite. – desliguei

Esta tarde, preciso jantar e depois ainda temos o treinamento da equipe. Hoje vamos falar sobre PCR.

O jantar não desce. Está calor demais, não consigo comer. Também não estou com disposição para o treinamento. Mas é meu trabalho e precisa ser feito. Reunimos a equipe e vamos para o anfiteatro. Lá pelo menos tem ar condicionado.

O treinamento foi ótimo. É uma coisa que gosto de fazer. E deu uma quebrada no estresse do plantão.

samu2Após o treinamento o plantão segue calmo. O SAMU traz dois pacientes da psiquiatria, medicados e transferidos para lá. VC e eu vamos “fumar” e colocar o papo em dia. Lá fora observo a quantidade de pessoas ligadas ao paciente recém morto.

 

- Não entendo o que eles ainda fazem aqui. Não vão ver o corpo. Porque não vão para casa.

- É normal. O ser humano é assim – disse minha amiga Enfermeira e psicóloga.

- Acho que estou ficando insensível à dor dos outros. Né?

- Não está não. Observo você com os pacientes, se preocupa com todos. Isto é mecanismo de defesa. Uma forma de se proteger.

Se tem uma coisa que me faz bem é conversar com a VC. Ela é franca e não fala o que quero ouvir. Isto é bom. Também tem o fato de só ela entender meu vocabulário com por exemplo: Morreu por “balalidade ou Facalidade”.

O plantão segue uma idosa com enterorragia passa a dar trabalho para LN e CL, mas passará o plantão bem. Fazemos nossos relatórios, sensos, livros e ficamos esperando a alegria da manhã.

Passamos com mais pacientes que encontramos. Fizemos o melhor com o que temos.

Na saída observo o carro do IML retirando o corpo do rapaz. Fico pensando o que vale a vida humana. Porque enquanto uns lutam para manter a vida outros a desprezam tanto?

Bem, foi mais um plantão...

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.” Machado de Assis

6 comentários:

  1. Enfermeiro de garra, coragem e muita competência só podia refletir em uma super equipe!!!! Parabéns!!!

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  2. A aula foi SHOW chefinho. Vc é chato pra carai mas sabe muuuuuito.

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  3. Auxiliar de Enfermagem10 de março de 2013 às 14:55

    Nem é tão chato assim. Adoro. E ainda não vi enfermeiro com tanto saber e competência.

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  4. quanto mais leio mais admiro esse enfermeiro...q infelizmente esta tão longe de mim... seu saber me encanta...q sorte tem os q estão ao seu lado...q triste sou por não ter essa chance...

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  5. Sempre que da acompanho seu blog e sempre te disse desde a facul que sou tua fã!!!
    Parabéns!

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  6. Poxa...sempre que posso leio teu blog e vou te falar o que sempre te falei: Sou tua fã!
    Parabéns!!!

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