“Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e, quem aceita esta ideia, saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro.” Walter Benjamin
Ainda não eram 17:00 quando encostei a moto quase comemorando o fato de estar seco. A chuva, que promete ser torrencial, deu sinais de que cairia a cada instante durante todo meu trajeto. Uma parada para conversas amenas na diretoria e logo o relógio me avisa que é hora de encarar o plantão. Registro meu ponto e encontro a EL, nossa secretaria de ala, que já me adianta:
- Chefe aquilo lá tá do jeito que o diabo gosta.
- Então “tá” bom.
Ao chegar na porta vai e vem, constato que a EL fui condescendente com sua avaliação. O diabo não gostaria disto aqui não é inferno demais até para ele. O corredor todo tomado, sem espaço para nada , as emergências lotadas com três pacientes em cada sala e dois na admissão ainda aguardando.
Percebo que as meninas já estão se organizando, observo a DS, ainda se acostumando com a loucura, tentando entender o que acontece à sua volta.
Mal começa o plantão e um dos pacientes da emergência entra em PCR, a sala apertada dificulta o acesso, as meninas procuram o material para intubação enquanto me dedico as compressões ajudado por LCN, PT e LCC. Algum tempo depois o paciente volta, mas vai parar de novo, mais tarde, e desta vez não conseguiremos.
No corredor a coisa não está fácil também, com a chegada da AND, ela e DS tentam dar um rumo ao plantão, transferindo, encaminhando e orientando as auxiliares que já estão a todo vapor com a organização e medicação do corredor.
Voltando para admissão, ali não param de chegar pacientes. O SAMU traz um homem alcoolizado e que fora agredido na rua, seu lábio superior está dilacerado. Vai precisar de sutura, raios x e observação. Da sala de sutura gritos de uma criança. A SD foi ver o que era e voltou com cara de dó. Achei que fosse algum ferimento. Esperei um pouco e fui chamar o cirurgião para atender o rapaz espancado.
- Já vou, tenho que retirar o anel do dedo desta menina.
- Faz assim, deixa o anel que eu resolvo. O cara lá precisa mais de você.
- Mas aqui é só serrando...
- Então eu serro.
Levei a criança para admissão, com a ajuda da “catatau” serrei o anel, enquanto ela se preocupava com o paciente do lado.
- Tio, ele apanhou? Porque a boca dele está sangrando? Ele vai morrer? Aí tio, não mexe no meu dedo não... Tá costurando ele?
Criança liberada, bêbado encaminhado e outro SAMU. Intoxicação exógena. O cara tomou cinquenta comprimidos de amitriptilina. Sonda gástrica e lavagem. Não vai dar muito trabalho, está sonolento, passará a noite dormindo e monitorado, não há muito que fazer.
Na admissão SD e LCC a todo instante recebem um diferente, uma senhora que apanhou do marido e se recusa a fazer a queixa esta hipertensa, um rapaz com uma “dor insuportável” no pé, uma jovem com dor na cabeça e nuca, casos que chegam ao mesmo tempo e exigem de nós mais que técnica, exigem paciência, compreensão e um enorme jogo de cintura.
Medicamos todos, internamos a menina, para exames e a luta continua. Na porta da emergência, familiares se amontoam aguardando notícias enquanto ainda não conseguimos liberar as visitas. Por incrível que pareça, todos compreensivos, observando nossa movimentação e acalmando os demais que questionam a demora.
A MC, auxiliar, me chama no isolamento. O paciente não está bem, cianótico, bradicardico.
- Ele vaia parar, MC.
E parou. Pedi ajuda e rapidamente a catatau lá estava, de novo, pronta para começar as compressões. Tentamos mas não conseguimos trazer de volta. Já é tarde e a ligação para a família fica a cargo da AND.
Quando a família chegou, as meninas retiravam o corpo do quarto. Nem precisou dar a notícia. Eles viram. Esposa e filho.
- MC, leve para dentro de novo e deixe a família com ele.
Assim foi feito. Na saída a esposa me chama:
- J, queria agradecer. Sua equipe foi a que melhor cuidou de meu marido, obrigada de coração.
Fiquei sem palavras, não é o tipo de agradecimento que gostaria de receber. Mas é bom ter o reconhecimento, mesmo quando as coisas não se resolvem como gostaríamos.
Na clínica médica, outra PCR, outro óbito. Terceiro da noite. Está pesado.
Madrugadas, outra PCR, novamente não vão conseguir. Não vejo a hora de este plantão acabar...
Com os raios de sol, chegam os colegas do dia. Passamos o plantão. Observo as meninas: estão como eu, desanimadas. Trabalhamos muito e parece que o saldo de nosso esforço são três corpos...
Já estava saindo, me despedindo dos colegas quando uma senhora de cabelos brancos, rosto fincado pelas rugas da idade me chama.
- Olha moço, estou aqui a noite toda e nunca vi tanto amor como o de vocês pelo trabalho. Vou falar lá na prefeitura.
- Obrigado, senhora.
Até amanha
“Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver divididaÉ uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
estarás mais ancho que estavas no mundo”
Chico Buarque in Funeral de um Lavrador
A vida é uma grande surpresa. Não vejo, por isso, razão para que a morte não seja uma surpresa ainda maior.
ResponderExcluirV. Nabokov, 1889-1977, escritor de origem russa, Pale Fire
(AM)
A morte nos ensina a transitoriedade de todas as coisas.
ResponderExcluirLeo Buscaglia
Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.
ResponderExcluirFernando Pessoa
Dalai Lama: É durante as fases de maior adversidade que surgem as grandes oportunidades de se fazer o bem a si mesmo e aos outros. (AM)
ResponderExcluirJames Baldwin: "Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado. Mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado". (AM)
ResponderExcluirAugusto Cury: Ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para esculpir a serenidade. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência. (AM)
ResponderExcluirNossa! Seus plantões são difíceis, hein? Precisa ter muita energia psi pra aguentar tanta Pulsão de Morte...
ResponderExcluirA enfermagem é a profissão que mais deveria ter o reconhecimento da sociedade...ela está disponível 24 horas por dia disponível independente do clima, das situações pessoais de seus integrantes. Tenho muita admiração por esses profissionais. Bia
ResponderExcluirA morte entrou em cena
ResponderExcluirE deparou-se com a vida…
Eu sou mais poderosa - anunciou.
Mais poderosa do que tudo quanto existe.
E a vida pensou e replicou:
Mesmo na morte há vida
Toda a vida provém da morte…
E a morte
Resignada
Abandonou a cena
Pelo próprio pé
E a vida permaneceu…
[Emílio Miranda]
"A certeza existe apenas em duas coisas: na morte e no instante presente."
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