sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Quinta feira; sempre pode piorar

As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas. Provérbio japonês

hospitalberlin

 

Faltavam vinte minutos para as sete horas da noite, quando uma vontade imensa de rodar sobre os calcanhares o voltar para casa tomou conta de mim. Esta vontade foi provocada pela visão aterradora do Pronto Socorro. Parece uma guerra. Está tão lotado que não consigo passar entre as macas, sem ter que empurrar umas e outras para abrir caminho. E até para empurrar está difícil uma vez que as macas já estão coladas, literalmente, umas as outras de forma a aproveitar o máximo de espaço possível. Ainda estou recebendo o plantão quando dois colegas do dia me informam que a enfermeira escalada em uma das enfermarias não virá. Resumo: PS lotado e uma enfermeira a menos pois terei que remanejar uma para cobrir a falta como prejuízo pouco é lucro a IV e CL também vão faltar . A noite promete.

Após recebermos o plantão chamo todos para o posto de enfermagem para uma reunião rápida;

- Boa noite família. Como podemos perceber a coisa está feia, e não vai melhorar. Alias, vai ficar pior, pois lá fora tem gente pra entrar e não vamos ter nenhuma alta. Portanto vamos fazer o seguinte; evitar atritos com pacientes e acompanhantes, priorizar medicação e se ajudar. Enfermeiros, vamos ajudar no que for possível, por a mão na massa mesmo.

Reunião terminada, minha equipe começa mais uma vez, a dar um show de organização e sintonia. Mesmo sem espaço PT, LC, AD, JN e JB começam a organizar o corredor, mudam um, recolocam outro e em pouco tempo temos até espaço para andar, mesmo com dois pacientes a mais que foram admitidos enquanto a arrumação era executada.

samuO primeiro SAMU da noite me traz um paciente que saíra de alta há algumas horas. Não foi aceito na casa de repouso contratada pela família e esta não pode ou não quer ficar com o idoso em casa.

- mas qual o motivo para ele voltar para o hospital? – pergunto à filha que o acompanha.

- Ele não tem como ficar em casa. Precisa de cuidados profissionais.

- Não senhora. Ele precisa de cuidados e atenção não necessariamente profissionais. – respondi

- Olha pra ele. Não se mexe.

- Sim, mas não tem nada que necessite de internação. No entanto, vamos interná-lo no mesmo leito que estava e amanhã vocês resolvam com o serviço social.

Ligo para a Clínica Médica e confirmo que o leito ainda está vago. Chamo a AL, médica de plantão, passo o caso e ela interna o paciente. Assunto encerrado por hoje. A AL, aproveita para reavaliar uma idosa na emergência, que está entubada devido a bronco aspiração em uma casa de repouso. Reavalia, prescreve e vai para “porta” pois se aqui dentro está cheio lá fora não está diferente.

E por falar em porta, vou até a frente para ver como estão as coisas. Medicação e soroterapia lotadas, corredores abarrotados e as salas de espera não estão diferentes, ortopedistas e clínicos terão bastante trabalho esta noite.

Já voltava para meu “refúgio” na sala de emergência quando uma das atendentes da recepção chama minha atenção para uma idosa com a boca torta.

- Ela está pra lá e pra cá desde a tarde. – diz a atendente visivelmente consternada com a situação.

O marido, senhor simples, proveniente de algum estado do nordeste me pede orientação sobre o que fazer.

Pego os papeis e percebo que a paciente já fora atendida. No entanto perambulava pelo hospital com uma ficha de medicação por fazer e um pedido de tomografia. A situação me fez pensar como e se eles foram orientados. Não vale a pena discutir isto agora, levo os dois para dentro e peço para a EL, nossa secretaria de ala que eu insisto em chamar de Angela, referencia a uma canção que toca no seu celular sempre que o namorado liga, para que consiga a tomografia ainda hoje. Se tem uma coisa que a minha equipe é boa é em resolver sem colocar obstáculos. Pedido feito, e quando procurei a paciente de novo ela já estava com a tomografia na mão. Mas somente isto não é o suficiente, a tomografia tem que ser vista por alguém e isto só amanhã. A “boca torta” já não existe mais o que indica que se tinha uma isquemia, era transitório. Arrumamos uma maca e um espaço para acomodar a paciente e pronto. Vai passar a noite aqui.

Antes de deitar ela me acaricia e diz:

- Você é um amor. Obrigado.

Coloco-a na maca e por um instante penso na razão pela qual estas palavras de carinho conseguem nos aquecer por dentro… Não dá tempo para concluir nada o corredor continua lotado

Outro SAMU, mulher de 28 anos. Intoxicação exógena. Por algum motivo, que ela não explicou, tomou uma cartela de clonazepan. Levamos para emergência, passo a sonda nasogástrica e começamos a lavagem. Pelo tanto de comprimido que saiu, se ela não queria se matar ia conseguir. Ela está ficando cianótica e as meninas ainda não conseguiram um acesso venoso para fazer o flumazenil. Peço o material e vou para o pescoço da moça. Jugular puncionada, fazemos a medicação e deixo o resto por conta da dupla dinâmica da emergência hoje LC japa e AND.

Enquanto isto VC transita pelo corredor lotado com uma desenvoltura que me deixa orgulhoso. Há pouco mais de um ano atrás ela não se sentia segura para ficar no PS com mais três colegas. Hoje assume sozinha um caos como este e sequer desmancha o penteado. E com um bom humor que quase inabalável.

Hora do jantar, a equipe preparou uma noite do “hot dog” e como dá um a um vai fazendo seu lanche e comendo. Eu fico com o bom e tradicional feijão com arroz preparado pela MC. O RN comeu tanto que, por conta do regime que está tentando fazer, passou mal. Vomitou e teve diarreia. Noite de rei: sentado no trono.

Não tem espaço para nada e continua a chegar pacientes, pneumonia, pressão alta e a noite vai avançando.

A madrugada traz consigo a tranquilidade. Chegam dois SAMUs mas vão para a psiquiatria. A equipe aproveita para descontrair. Tenho sobre o balcão livros para estudar em virtude de minha renovação do ATCN que se aproxima. Mas as brincadeiras e provocações não me deixam estudar. Tudo é motivo para piada ou brincadeira. São estes momentos que nos fazem esquecer o trabalho estressante e até nossos problemas pessoais e nos sentir acolhidos em uma segunda família.

São quase três da manha quando o RD, clinico chega com um paciente. O RD é jovem, bem humorado e bastante falante. Faz amizade fácil e conquista pela simpatia.

- Sinto muito – diz ele – mas é SCA e tem que ficar. O pior precisa de oxigênio.

- Por que oxigênio? – pergunto.

- É protocolo para SCA.

- Não. Mudou. Agora somente se a saturação estiver abaixo de 94%.

- Sério?

- Sim, olhe aqui – mostrei a apostila do ACLS 2010 que estava sobre o balcão.

- Legal. Aprendi mais uma. Valeu

Com os raios de sol matinais, chega também a equipe do dia. A passagem de plantão chega a ser engraçada. Na verdade não sei como nos lembramos de todos inclusive dos detalhes. Esta é a nossa profissão, a nossa escolha e vocação.

Hoje é um daqueles plantões em que saio com a sensação de que nasci pra isto.

Até amanha.

“O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.”  Winston Churchill

9 comentários:

  1. Como sempre blog maravilhoso não deixo de acompanhar nunca.

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  2. Nossa!!!! Que lindo. Descobri o blog ouvindo vcs conversarem no plantão. Vc esqueceu de dizer o quanto brinca com os pacientes e cobra da sua equipe e dos médicos para que sejamos bem atendidos. Amei o blog e amei ainda mais ter sido atendida por sua equipe.
    EMS

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    1. Espera aí, caiu um cisco no meu olho. Obrigado EMS, volte sempre (no blog, não no hospital rsrs)

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  3. Adooooooooooro este blog. Ainda vou conhecer o J pessoalmente. Uma amiga me disse que é um gato e solteiro e não é gay. Que tudo kkkkkkkkk
    Ana

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    1. Auxiliar de Enfermagem20 de outubro de 2012 às 13:17

      É solteiro, gato, não é gay. MAS È NOSSO!!!! Pode ir tirando o olho. Tem uma fila enorme, entra nela e espera a tua vez. E olha que a fila nem começou a andar ainda kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
      Mas falando serio á tudo de bom. A gente aprende muito com ele. Isto quando ele não surta né? Mas na maior parte do tempo é demais. Competente, inteligente sabe muito de enfermagem. Vive ensinando a nos e ate outros profissionais. Ah ele ficou bravo pq trocou de oculos e ninguem notou kkkkk

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  4. to vendo q a concorrencia esta grande é melhor eu perder as esperanças.

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    1. Concordo, enfermeiro. Seu coração já tem dona.

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