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Não há satisfação maior do que aquela que sentimos quando proporcionamos alegria aos outros. M. Taniguchi
Passavam alguns minutos das quatro da tarde quando passei pelo portão do estacionamento. Último dia do mês é o momento de fazer um resumo administrativo do ocorrido. Horas extras folgas e documentos para conferir, enviar e tomar ciência. Este mês não foi dos piores, consegui manter os apontamentos em dia de forma que ficou fácil o fechamento. Feito isto só resta sentar e esperar o início do plantão. Faltam alguns minutos para as sete da noite quando MC, VC e eu começamos a receber o plantão. Está relativamente calmo, poucas pendencias e conseguimos até contar os pacientes. Na emergência três dos quatro leitos, estão ocupados com pacientes entubados. Isto limita nossas condições de trabalho e toma muito tempo das técnicas, LC e AND pois elas tem que se preocupar com cuidados, medicação além de preparar a sala para as prováveis emergências.
O plantão começa e eu já me dedico a atender um rapaz, vítima de queda de moto, está com o ombro deslocado e sentindo muita dor. Pego seu exame de raio x, confirmo a luxação e vou até o ortopedista de plantão.
O rapaz é medicado e encaminhado para a redução, não sem antes eu explicar ao assustado corintiano que reduzir não significava diminuir o tamanho de seu braço e sim colocar o ombro de volta ao lugar de onde não deveria ter saído.
Enquanto ele era encaminhado para o procedimento fui até a clinica para tentar resolver o problema da paciente da emergência. Vítima de AVC a colega do dia já passou o plantão expressando sua preocupação com o quadro e eu me comprometi a dar atenção. Conversei, pedi reavaliação e estávamos esperando uma solução para o caso quando escuto uma gritaria na sala ao lado.
Um homem com uma criança totalmente ensanguentada nos braço e atrás a mãe aos gritos pedia pela vida do filho. ![]()
Colocado na maca, o garoto de seis anos tinha um ferimento enorme na região frontal e ferimentos na face, frutos de uma queda da laje há minutos atrás.
A LC está me ajudando, puncionamos a veia, Limpamos os ferimentos enquanto esperávamos pelo PP, cirurgião do horário que ao chegar orientou;
- Isto é para o buco, é só chamar.
- PP, na boa, pede uma tomo do moleque, isto aqui não está cheirando bem. – insisti, aproveitando da liberdade que tenho com a equipe.
- Eu sabia que você ia falar isto – disse o PP – vou fazer o pedido. Passa uma faixa aí, depois eu suturo.
Levamos o garoto para a tomografia. Lá eu pedi para que ele me ajudasse. Quem conhece sabe que não é fácil fazer uma criança de seis anos ficar quieta, longe da mãe. Mas este era incrivelmente forte.
- I. , fica quietinho. Vamos brincar de estátua para tirar fotos de sua cabeça – pedi.
- Não quero brincar, respondeu com voz de choro. Mas eu vou ficar quieto.
E ficou mesmo. Sua tomografia foi rápida e bem feita. Logo voltamos à sala de emergências.
Em tempo recorde, para os padrões do hospital, fizemos a tomo e constatamos uma fratura de crânio. Para reforçar o diagnóstico o menino começou a vomitar.
Com a chegada do pai da criança, iniciou um bate boca entre este e a mãe sobre de quem era a culpa, enquanto nós tentávamos uma vaga para transferir a vitima a um serviço de neurocirurgia.
Enquanto isto acontecia rapaz da moto voltou e da porta da sala de emergência onde estava sua maca observava atentamente toda a movimentação. Olhou para mim e soltou a frase:
- Cara, você é f...
- Oque? – perguntei achando que ele estava me pedindo alguma coisa.
- Você é f...
Apenas sorri e me virei a ponto de ver que a VC ouvira a frase e sorria como a compartilhar de meu orgulho
Esta de alta e eu sugeri que ele aguardasse lá fora.
- Não, prefiro ficar aqui. Posso?
- Você que sabe. Ele iria se arrepender desta opção.
Um senhor, a quem alguém prometeu que ele faria uma endoscopia hoje, resolveu cobrar a promessa e decidiu que nós teríamos que resolver o problema dele. Começou um bate boca de forma que se ele tinha alguma chance comigo, acabara de perder.
- Eu quero uma cama. Vou esperar o exame aqui. Enquanto não fazer, não vou embora.
- Então o senhor não vai embora. – respondi.
- Você esta querendo, de uma forma científica e inteligente me deixar nervoso...
- E o senhor está ficando nervoso
Deitou-se em uma maca, na esperança de que eu fosse retirá-lo a força e quando percebeu que eu decidira ignorá-lo foi para a soroterapia e de lá para casa.
Enquanto me dedicava ao revoltado, um policial rodoviário federal entrou. Procurou pelo motoqueiro acidentado e ao verificar a documentação, aplicou-lhe uma multa por dirigir sem habilitação.
- Putz – disse o motoca – além de ferrar o ombro tomo uma multa de 580 paus.
- Eu falei para você esperar lá fora. Teria evitado a multa. - disse, lembrando-lhe da escolha feita há minutos atrás.
- Pior que é...
A vaga para a neurologia da criança acaba de sair e peço para a MC, junto com a FB levar o pequeno para o tratamento especializado. São quase dez da noite e ainda não jantamos o que faz com que a FB saia com a carinha mais feliz do mundo. Com fome e na hora da janta é escalada para remoção.
O telefone toca. É a central de regulação do SAMU, um baleado está a caminho. Quando é assim fica mais fácil. Preparamos os soros, a maca e vamos esperar pela ambulância.
Um rapaz de 25 anos, vítima de vários disparos. O desvio de sua perna esquerda indica que um dos disparos fraturou seu fêmur a cianose e a falta de pulso, mostram que podemos ter lesão vascular.
- LC, AND vamos puncionar outro acesso venoso, me deem um catorze e preparem o material para a sondagem vesical. ![]()
As meninas estão atentas, rapidamente tudo está à mão. Acesso pronto, vamos para a sondagem que nos dará mais um sinal de que a coisa não está boa para o rapaz. Sangue na urina, associado a um abdômen duro, cirurgia de emergência. Pronto lá vai ele. Do centro cirúrgico virá a notícia de que os disparos atingiram intestinos, estomago e bexiga.
As coisas se acalmaram, a LC começa a arrumar a sala enquanto a AND vai descansar um pouco. Estamos VC e eu, conversando no corredor e a japa nos chama:
- Não estou sentindo o pulso da paciente do AVC.
Lá vamos nós. Massagem e adrenalina... Ela voltou. Quer dizer, o coração voltou a bater. A paciente não voltou, seus “olhos de boneca” indicam que seu cérebro não está mais funcionando. Mas com o coração batendo, ela volta para o respirador e vai continuar assim até o fim do plantão.
Saio para tomar um ar e observo um rapaz deitado no corredor do lado de fora da emergência.
- Meu, você não pode ficar aí. Muito menos deitado no chão. Vamos levantar.
Relutante ele se levanta e senta, encolhido no banco. A seu lado seu artesanato e uma mochila cheia de algo que não quero saber...
Volto para o corredor e, por alguma razão, observo uma vaga desocupada no canto do saguão. Lembrei-me de um passado distante onde um cobertor e um colchão fazia muita diferença na minha vida.
- PT, faz favor, forra aquela maca e coloca aquele rapaz que está sentado lá fora em frente a soroterapia.
- Ta bom, chefe - respondeu a catatau, sem questionar.
Enquanto eu mesmo iria buscar o rapaz observei mais uma vez o sorriso nos lábios da loira VC. Desta vez não sei o que ela estava pensando.
Um pouco depois, não sei com que argumentos, a VC convenceu o rapaz a tomar um banho. Serviço completo.
A madrugada avança e percebo que o plantão literalmente voou.
Olhando para tudo que fizemos hoje, senti orgulho de minha profissão e equipe. Fizemos o nosso trabalho é verdade. Mas com certeza esta equipe vai alem de fazer o possível…
Enquanto esperávamos pela chegada de nossa rendição, olhei para as meninas do corredor e agradeci:
- Ainda bem que tenho vocês. Se minha equipe não fosse maravilhosa, não teríamos dado conta.
- Nós somos f... – disse a FB, soltando sua frase mais conhecida e que normalmente é usada na primeira pessoa do singular.
Fim de plantão. FB, VC e eu vamos tomar café juntos e desintoxicar. Isto é muito bom. Damos algumas risadas e esquecemos o sofrimento passado.
Até amanhã.
A satisfação está no esforço e não apenas na realização final. Mahatma Gandhi
Amo muito este blog. Faz eu ter orgulho da minha profissão. Mostra a enfermagem e o hospital publico como eles sao. E este Enfermeiro J. Tem foto?
ResponderExcluirAna Rubia
Nossa, assim o chefinho vai acabar casando kkkkk
ResponderExcluirCuidado ein painho...
Falando serio nossa equipe é a melhor porque tem o chefe mais dedicado, bravo, amigo, compreensivo e justo daquele lugar.
Nunca tive um chefe como o Enfer J. Nota 9, pois se der dez ele vai se acha
cara vc é f....
ResponderExcluirquanto mais leio seu blog mais te admiro...mas naum só pelo profissional q vc é mas tbm pela pessoa maravilhosa q parece ser...deve ser maravilhoso ter vc como chefe,vc sabe reconhecer a equipe que tem ao seu lado.as vezes sinto falta disso no meu emprego falta do reconhecimento.vc é o cara.parabens espero um dia alcançar um lugar desses pra mim to ai to na luta.Deus te abençõe sempre cada vez mais.
Vc é um exemplo de líder! E de amor e dedicação a profissão. Parabéns!
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