terça-feira, 11 de setembro de 2012

Segunda feira: Poderia ser pior…

pmdv

A satisfação que nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.   Clarice Lispector

 

calorO calor sufocante, intensificado pelo asfalto e poluição das marginais, fez com que eu chegasse exausto ao hospital. Eram 18h00m quando atravessei o portão do estacionamento e parei a moto no lugar de sempre. Estou cansado demais para subir ate a sala do chefe e pegar as pastas. Então me jogo no sofá da fofoca e fico ali pensando em absolutamente nada enquanto recupero minhas forças. Logo chega a AL e se encarrega de pegar as pastas. São 18h45m quando resolvo me dirigir ao PS que me aguarda lotado como sempre.

Ao passar pela porta minhas energias são renovadas. Nem eu mesmo entendo como posso gostar disto. Uma babel deliciosa onde dramas e tragédias se misturam e nós estamos presentes em todas as misturas num momento como atores principais, noutro como coadjuvantes ou, muitas vezes, como meros espectadores do drama alheio.

Pode parecer estranho, mas tenho um prazer enorme neste trabalho.

Recebo o plantão, a emergência, com dois pacientes graves, mas estáveis, requer atenção. Na primeira sala uma mulher de 50 e poucos anos, vítima de AVC com as funções motora e da fala prejudicada, acabaram de diagnosticar um aneurisma. Vai precisar de um neurocirurgião o que significa aguardar a vaga na rede. Na outra sala um home com pouco mais de quarenta anos, com quatro pontes safenas no currículo e uma instabilidade hemodinâmica que nos deixa preocupados.

A equipe começa a chegar e a desproporção pacientes/ funcionários fica evidente. Na emergência temos LC e SD, técnica de enfermagem, a mais recente aquisição da equipe, junto com a ADR, auxiliar que veio no lugar da HD e que esta no corredor com a PT, a SH e o CD.

Por falar em corredor, esta uma doideira só. Pacientes por todos os lados muitas reavaliações pendentes e uma infinidade de pequenas intercorrências. Nas enfermarias as coisas não estão melhores, as três lotadas, na semi a SL esta só, já que a IV acaba de me mandar um SMS dizendo que não poderá vir.images

A frente não está diferente, lotada com filas na triagem, medicação e consultórios... A noite promete.

Ainda estou pegando o plantão quando uma senhora me aborda;

- O Senhor que é o Enfermeiro J?

- Sim. Só um momento, assim que receber o plantão eu atendo a Senhora.

- Eu sou a Dra. V, da secretaria de saúde.

- Então Doutora, assim que receber o plantão eu atendo a Senhora.

Terminei de receber, e ouvi da sara a informação de que não tinha ninguém lá na frente e tinha gente passando mal.

- Já vamos mandar alguém para lá. – respondi, tentando ser o mais cordial possível, já que não tem nada que me desagrada mais do que uma carteirada. E em época de campanha políticas elas, as carteiradas, se tornam mais frequentes e escancaradas.

Todos a postos, descobrimos que ainda não tem ninguém na medicação. A JN esta atrasada. Peço para o CD e a SH cobrirem e acabarem com a fila. Ainda estou organizando a fila quando sou abordado por uma paciente:

- Oi, você não acha que eu devo passar na frente? Olha a minha pressão.fila

Peguei a ficha observei a idade 31 anos e os sinais vitais anotados:

- Não meu anjo. Sua pressão não está tão alta e se eu te passar na frente os outros vão me bater. Aí quem vai me defender?

Ela sorriu e agradeceu, voltando para a fila.

fratura pernaNo corredor um senhor aguarda reavaliação do ortopedista. Pego os exames de raios x e observo as respeitáveis fraturas dos ossos da perna esquerda. Para adiantar, levo-os ao ortopedista que pede a imobilização e analgesia. Volto ao paciente e explico que ele deverá ficar internado. O homem se exalta:

- Eu não vou ficar aqui de jeito nenhum. Vou embora...

- O senhor está com a perna quebrada e bem quebrada, provavelmente vai precisar de cirurgia, então terá que ficar.

- Nem f... Vou embora desta...

- Bem, se o senhor conseguir pode levantar e sair correndo que eu juro que não vou atrás. - disse interrompendo a série de palavrões o que fez com que ele se calasse e eu o levasse à sala de gesso.

Na emergência chega uma senhora em crise convulsiva, o filho diz que está assim há muito tempo. Diazepan e hidantal, ela pode ir para o corredor.

piccDo outro lado o paciente das pontes safenas ainda precisa de um acesso central, a JL, cirurgiã de plantão, pediu para que eu avaliasse a possibilidade de passar um PICC, portanto tenho mais uma coisa para me preocupar. Antes disto a VC me pede para puncionar uma jugular na observação feminina, vamos lá.

Assunto resolvido, vamos jantar e, na volta, nos dedicamos ao PICC enquanto passava o cateter a AND solta uma pérola:

- Enfermeiro J, o que ele tem?

- Quatro pontes safenas, enfermeira...

- Ah é? E quantos viadutos? Nenhum túnel?

Até o paciente riu.

Enquanto preparava o procedimento e orientava o paciente pedi que ele virasse o rosto para o meu lado e coloquei uma compressa sobre seu rosto.

- Pode deixar enfermeiro. Eu não tenho medo de olhar – disse o solícito paciente

- Mas eu tenho vergonha que fiquem olhando eu fazer estas coisas – respondi.

Mais risos e pronto, nosso paciente já tem acesso central e ainda aceitou que eu explicasse para as meninas todo o procedimento.

Com o avançar das horas o movimento vai diminuindo e conseguimos conversar um pouco.

A PT me cobra os posts do blog e eu explico que não tive nada para escrever.

- Como não, chefe?

- Sempre tem alguma coisa, a gente trabalha pra caramba.

Como a PT evoluiu, mais solta, pró ativa e resolutiva. Encaixou-se perfeitamente na equipe. O mesmo parece estar acontecendo com ADR. Bom, muito bom.

Olho para o corredor lotado, não tem espaço para mais macas e comento com a AND e VC:

- Nossas meninas são boas pra caramba. Olhem para isto, se elas não fossem boas a gente estaria f...meninas super

- Concordo – disse  a loira

- Com certeza – completou a ruiva

 

As coisas vão bem até a madrugada com a chegada de um idoso em sofrimento respiratório. Não pode ser entubado devido ao câncer de laringe e sua angustia fez com que a AND e eu resolvêssemos adaptar um CPAP. Depois de muita adaptação esparadrapos e ideias, conseguimos uma saturação de 94%, um grande passo comparado com os 80% que ele estava há pouco.

O plantão foi tranquilo. A paciente do aneurisma não conseguiu a vaga, não acharam que era suficientemente urgente para incomodar uma equipe de neurocirurgia na madrugada. Ela esta bem, consciente e orientada. Mas seu quadro ainda é grave

Enquanto observava a passagem de plantão um paciente me aborda;

- Nossa o plantão de vocês é animado. Parece a tropa de elite... Ou Esquadrão Classe A.

- Caramba, você é velho hein? Lembrar-se do Esquadrão Classe A.

- Mas você também lembra... (risos). Mas vocês resolvem tudo e se dão bem. Parabéns. está cheio demais né?

- Poderia ser pior. Agora temos macas – conclui.

Fim de plantão, AND, VC e eu sentamos no sofá para um bate papo e desintoxicar. Incrível como nos entendemos, parece que trabalhamos juntos há anos, só faltou a MC hoje.

Bem acabou..

A satisfação está no esforço e não apenas na realização final.

Mahatma Gandhi

Até amanhã

4 comentários:

  1. Podem falar o que quiser. Mas o J. e o cara. Tem dias que ninguém agüenta , mas mesmo nestes dias a equipe dele vem em primeiro lugar. Amo mesmo e dai?

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  2. Esses acessos venosos me lembram uma frase ouvida um dia, há muito tempo atrás, somente a prática leva a perfeição ....

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  3. Boa Noite J,sempre acompanho seu blog, ano que vem quero começar a faculdade de enfermagem, e gostaria de te fazer algumas perguntas...
    é necessário fazer o curso tecnico de enfermagem antes da faculdade?ou pode começar a faculdade direto?Sempre tive o sonho de fazer o curso, por isto gostaria de saber.Desde ja, agradeço

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    1. Camila, bom dia. Obrigado por acompanhar o blog. Respondendo a suas perguntas: Nao, vc nao precisa fazer o curso tecnico antes da faculdade. Sou suspeito para falar, mas acho que vc vai gostarmuito

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