terça-feira, 18 de setembro de 2012

DOMINGO DE SOL. DOMINGO DE PLANTÃO

pmdv

“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós próprios.” Marguerite Yourcenar

Se tiver algo que é desagradável em um domingo de sol, é sair para trabalhar. Deveria ser proibido e ponto. Sem discussões, sem ponderações, domingo de sol é para passear com a família, cachorro, amigos, namorada, tudo. Menos trabalhar.

Mas, como a realidade passa longe de meus desejos, por volta das 18h30m estou estacionando a motocicleta em seu cantinho cativo e descubro que não estou tão atrasado como pensava no caminho. Já que fiquei enrolando em casa, esperando acabar o jogo de futebol. Registro o ponto, respiro fundo e tomo a direção do PS.

Ainda no caminho uma auxiliar de enfermagem, que trabalha de dia, me adianta o que vou encontrar e expõe seu descontentamento:

- Nossa! Aquilo lá em cima esta cada dia pior. E ninguém faz nada...

- Está muito cheio? – perguntei já esperando pela resposta positiva.

- Demais, e o pior é que ninguém está nem aí...

Achei melhor não prolongar o assunto, mesmo porque já alcançávamos a porta do Pronto Socorro que esconde uma lotação digna dos trens da índia. Macas estão espalhadas por todos os cantos, acompanhantes e pacientes numa falação infernal e a equipe de enfermagem num vai-e-vem constante, tentando arrumar as coisas para nos passar o plantão.

Nossa equipe chega e assume o local. Temos muito que fazer. Exames, tomografias e remoções esperam uma definição enquanto ainda tentamos ocupar todas as salas com os funcionários que vão chegando de forma a diminuir o estresse dos que aguardam nas filas da soroterapia e medicação.

A emergência está tranquila, para sorte da LC que deve ficar sozinha até a chegada da SD já que esta avisou que vai chegar atrasada.

Nosso maior problema hoje é o corredor. Lotado e não para de chegar pacientes. Reavaliamos, encaminhamos aqueles com condições de alta e mesmo assim parece que estamos a enxugar gelo. Sai um, entra outro. Mesmo com todas as macas extras estamos próximo de ficar sem lugar para os que chegam.

Um rapaz com fratura de mão que aguarda cirurgia me aborda e questiona:

- Você sabe quanto tempo vou ficar aqui esperando para fazer a cirurgia?

- Não. Não posso te dar uma data. Mas demora em média uma semana.- respondi.

- Eu é que não vou esperar. Quero que se f######…. Vou embora

- Na verdade se você ir embora o único que vai ser prejudicado é você. Sua mão não sara sem cirurgia e eu só vou colocar outro na tua maca e meia hora depois nem vou mais lembrar teu nome.

- C#####, você é curto e grosso. desculpa aí. Acho que estou nervoso.

- Liga não. Eu estou calmo.

Primeiro SAMU da noite, mulher de 52 anos, foi retirar a bandeira do Corinthians que os parentes colocaram na janela e caiu de 3 metros de altura. Fratura da órbita ocular e do pulso direito, além de um “galo” enorme na testa.

- A senhora devia ter deixado a bandeira do timão onde estava – brinquei.

- Ah, eu não gosto.

Raios X, exames e analgesia. Vai precisar de cirurgia no punho. Isto significa que passará uns dias com a gente.

- Moço, eu não posso ficar internada. Tenho um monte de coisas para fazer. Sou eu quem cuida dos meus netos tem que tirar isto (a tala) da minha mão para eu poder cozinhar.

- É assim, dona M, seu punho esta quebrado, então os netos vão ficar uns dias sem a comida da vovó e a senhora vai ficar uns dias de repouso aqui no hospital.

Ainda conversava com ela quando uma guarnição dos bombeiros entra pelo saguão trazendo um jovem de 22 anos, vítima de atropelamento.

- O que temos aqui – perguntei ao bombeiro.

- Atropelamento, GLASGOW 15, aparentemente sem fratura. Somente um ferimento no membro inferior esquerdo.

Fiz a avaliação inicial e pedi uma tesoura para abrir o curativo do citado membro e para minha surpresa este não tinha nada de somente. O tornozelo estava dilacerado com exposição de osso e tendões e um visível rompimento destes tendões. Tratei de trocar os curativos e lavara o local. Mais um para passar a noite conosco

Aos poucos vamos resolvendo os problemas. Estou muito envolvido na assistência, mal termino um paciente e já estou com outro. AND se preocupa, já que estamos em quatro, mais tarde ficarei sabendo da conversa dela com a VC:

- Ele não para. Estamos em três aqui, manda ele pra supervisão, VC. – disse a ruiva.

- Não. Deixa-o lá. – respondeu a loira mostrando que me conhece bem.

Realmente, tudo o que preciso é de trabalho e adrenalina.

O plantão caminhava para a calmaria quando

Uma das pacientes da emergência resolveu parar. Idosa com 88 anos e mal de Alzheimer, estava intubada. Fizemos os procedimentos, mas ela não reagiu. Perdemos. As técnicas LC e SD ficam chateadas. A LC já assimila melhor a intercorrência fatal. Ainda sofre, sempre acha que dá para fazer mais. Gosto disto nela, é o primeiro óbito da SD e tento confortá-la.

- Está chateada? – perguntei.

- Sim. É meu primeiro óbito. Não estou acostumada...

- Olha, trabalhamos em um hospital, na sala de emergência e nestes lugares as pessoas também morrem. Não é um fim desejado. Mas é esperado. Devemos nos proteger, pois temos outros para cuidar. Parece duro, mas é verdade.

- Não é fácil.

- Não perca isto, a sensibilidade, mas não deixe que te afete demais. É o nosso trabalho e precisamos fazê-lo.

Com a chegada da madrugada o plantão se acalma e voa. Mal percebemos e os colegas do dia seguinte começam a entrar porta adentro.

Passamos o plantão e sentamos, AND, VC e eu, para “desintoxicar” no sofá da fofoca. Ficamos por 15 ou 20 minutos falando besteiras e brincando como adolescentes. Trabalhamos bem juntos, temos sintonia e nos conhecemos a ponto de não precisarmos falar... Como o fato da VC perceber que quando estou enfiado no trabalho o melhor é me dar mais trabalho.

- Vamos embora crianças. Temos outros empregos para cuidar.

- Vamos sim – responderam

Abraços, beijos ...

até amanha

“Acreditamos ficar tristes pela morte de uma pessoa, quando na verdade é apenas a morte que nos impressiona.” Gabriel Meilhan

Um comentário:

  1. O dificil é conseguir dosar a sensibilidade, onde haja carinho no tratar sem sofrer as consequencias deste envolvimento, ....

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