quarta-feira, 25 de julho de 2012

Terça feira – Quando um ato revela um ser desprezível

pmdv

 

RECEITA DA ARROGÂNCIA
Junte uma porção de vaidade
Com um pacote de orgulho
Ferva com ganância
e aspirações de poder
Adicione oportunidade
e uma plateia
Tempere com egocentrismo
e com indiferença
Deixe resfriar nos ares da superioridade
e decore com estupidez
Está pronta a arrogância!

Sergio Fajardo

Eram, 18h45m quando me encontrei com a VC, ainda no estacionamento. Meus dias de chegar cedo se foram junto com o prazer de andar de moto. De carro tudo parece mais longe, mais estressante e demorado.

Mas o plantão nos espera e hoje somos nós dois a pegar o plantão a MC esta de folga e a AND chega as 20h00.

Ao passarmos a famosa porta vai e vem a visão do inferno descortina-se ante meus olhos. Não há espaço para mais paciente, de relance observo dois aguardando admissão enquanto um corredor lotado é passado aos auxiliares da minha equipe que hoje estão em numero reduzido. Não fossem as horas extras, retiradas a fórceps da secretaria, pela minha chefa, a situação estaria muito pior.

Recebemos o plantão e passamos a tentar entender o que acontece. Temos a emergência lotada, o corredor indescritível e os quartos com sua lotação esgotada.

Como sempre as auxiliares começam a organizar o corredor separando os pacientes por sexo e encaminhando aqueles que têm exames a ser realizados. Na emergência tendo entender o raciocínio de um ser humano que prescreve noradrenalina e tridil para o mesmo paciente com pressão 80x40 e ainda se acha a ultima Coca-Cola do deserto, prescrição confusa, paciente instável e necessitando de reavaliação...

Vou ao telefone e começo a tentar os remanejamentos. Não há de onde tirar funcionários o hospital inteiro está lotado e em todos os setores parece ter um problema a ser resolvido, mas com um pouco de insistência consigo auxilio de duas auxiliares as quais, pelo menos, completam o mínimo necessário para o plantão.

Ainda estou no telefone quando vejo entrando pela emergência uma moça a empurrar uma cadeira de rodas onde sua mãe está completamente largada. O bichinho da razão cochicha em meu ouvido para atender de imediato e eu vou até lá.

- Boa noite, sou o enfermeiro J. O que aconteceu?

- Ela estava bem, de repente desmaiou, acho que ela teve uma parada cardíaca – respondeu a desesperada filha.

A examinar a paciente descarto a parada cardíaca, mas quando peço para que a mesma se levante percebo que ela não tem força muscular do lado direito. Peço para que sorria e diga em seguida “O rato roeu a roupa do rei de Roma”. O teste comprova a suspeita, nossa paciente tem um AVC. Monitor, oxigênio, veia, tomografia... AVC isquêmico comprovado. A paciente vai ficar uns dias com a gente e a família terá que se adaptar a uma nova rotina, após a alta. Apesar de tudo esta estável. Vai para a observação, pois a emergência está lotada e sem monitor.

Estava no corredor, quando o MC, funcionário da psiquiatria, me chama em voz alta:

- Chefe, tem uma PCR lá embaixo e pediram para que viesse chamar alguém...

- Legal, vou descer. Chame o clínico lá na frente e leve-o até a PQ.

Ao chegar na Psiquiatria a cena era no mínimo surreal, a equipe trabalhando na reanimação enquanto um paciente na maca ao lado contava as compressões torácicas e dava ordens:

- Um, dois, três, quatro, cinco. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco. Respira.

De tanto atormentar o psiquiatra pediu que fizessem midazolan e ele antes de receber a droga soltou mais uma:

- Agora eu durmo.

Junto comigo, chega o clínico, ED. Novo no hospital, e que demonstra conhecer bem o ACLS atual, alivio para quem quer trabalhar direito. Assumimos a PCR, oriento os auxiliares e após a intubação da paciente, uma senhora de 40 e poucos anos que dera entrada há dois dias, após tentar suicídio ingerindo todos seus psicotrópicos de uma vez. Parou do nada, segundo os auxiliares e após quase uma hora de trabalho concluímos que parou para sempre.

Voltamos para o PS onde o entra e entra de pacientes não tem fim. A noite avança e parece que as coisas só pioram. Na recepção uma moça me aborda, está com a irmã desde a tarde, sentindo dores e até agora não foi vista por um médico. Outro aproveita para dizer tudo oque ele pensa sobre o hospital, os políticos e quem mais tentar acalmá-lo, uma terceira lembra que ela está pagando por tudo isto e eu decido que é hora de ir jantar. Volto para a emergência e de lá vamos MN, VC e eu para o refeitório. A MN não está bem, sente fortes dores na coluna e mais terá que receber medicação e cuidados.

O plantão avança e a madrugada chega. Uma guarnição do corpo de bombeiros traz uma vitima de colisão entre autos;. Ainda fazíamos a verificação dos sinais quando um cirurgião demonstra toda sua frustração em ter que levantar na madrugada para realizar seu trabalho, tratando de forma grosseira a paciente, retirando a manta térmica e jogando ao chão tudo que estava sobre ela.

Minha vontade imediata foi de disparar uma meia dúzia de palavrões mas percebi que meus exercícios de paciência estão dando algum resultado, pois consegui apenas ignorar. Ignorei, pois acho lamentável uma pessoa ser tão idiota a ponto de desrespeitar a todos quando é chamado para fazer o seu trabalho. Ignorei um imbecil, ou seja, ninguém.arrogante01

A madrugada passa rápido, sem novidades. E quando nos damos conta está na hora de entregarmos o plantão. Fim de turno. Minha equipe estampa nas faces de seus membros, o resultado do sacrifício e, mais uma vez, demonstra o quanto ela é diferente, unida e comprometida.

Em companhia da VC, a caminho de meu carro, passamos pela MN, que já está no carro e com aparência de muita dor:

- Consegue ir para casa?

- Consigo sim chefe. – responde

- Tem certeza? - insiste a VC.

- Tenho – reforça a MN

Então até amanhã.

"Todos aqueles, cuja alma é sufocada pela soberba e a arrogância, sempre estão fazendo se identificar também pela ingratidão, um dos mais baixos sentimentos que assolam a humanidade"

Ivan Teorilang

3 comentários:

  1. Olá, enfermeiro, belo texto, apesar de ter sido visível sua indignação em certos momentos no seu dia de plantão devido a indiferença de pessoas. De fato concordo com essa frase abaixo de Ivan T. e com isso "escuto" mais uma vez sobre ser grata! Eu falo sobre ser grata a Deus, pois Ele é quem me deu a vida, que me deu tudo! Fato é também que o ser humano precisa perceber e entender muita coisa.
    Eu confesso que venho no seu blog pra aprender um pouco mais sobre Assistência na Emergência e Urgência, saber mais sobre a rotina, já que ainda não tive prática nessa área.
    Paz.

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  2. Olá ! Faz tempo que não passo por aqui ! como sempre, admirando muito a batalha do profissional de saúde ! estou para começar estágio no meu curso de auxiliar de enfermagem e estou bem ansiosa...um abraço e continue com o blog, um incentivo para todos nós !

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  3. As vezes o silencio fala mais que mil palavras!

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