"Dar menos que seu melhor é sacrificar o dom que você recebeu." Steve Prefontaine
pmdv
O caminho mais curto entre dois pontos é uma reta e entre dois empregos uma moto. Hoje com o trânsito horrível que encontrei minha certeza a este respeito se reafirmou. É impossível se locomover em São Paulo nos chamados horários de pico. São quase sete da noite quando chego ao hospital, encosto a moto e praticamente corro para o relógio de ponto. Não estou tão atrasado como pensei. Terei tempo para um “pit stop” no sofá da fofoca antes de ir ao Pronto Socorro.
Após a breve pausa, que ajuda a me preparar psicologicamente para começar o plantão, sigo para o PS onde encontrarei o corriqueiro caos. A primeira vista já desperta preocupação, uma equipe do SAMU e uma guarnição dos bombeiros aguardam a liberação das macas onde estão acomodados os pacientes trazidos por eles há não sei quanto tempo.
A sala de emergência tem que melhorar muito para ficar ruim: seis pacientes onde cabem quatro apertados. O corredor dispensa comentários, lotado, insalubre com pacientes ainda aguardando admissão e pelo menos seis em cadeiras. Estamos achando isto normal e não é. É ruim para os pacientes, para os acompanhantes, para os profissionais e parece que ninguém se move para resolver... Bem, chorar não adianta. Vai ficar pior se não fizermos o melhor que pudermos. Então vamos lá.
Hoje estaremos a MC, AND e eu. Nossa equipe é de primeira: AL, FB, PT, IV e CL no corredor; HD e LC na emergência; AD e JN nas observações. Ainda temos SL e LD na semi. Comparado com o plantão passado, é uma multidão e da melhor qualidade.
Ainda estou recebendo o plantão da emergência quando sou chamado para atender o telefone:
- Pronto, enfermeiro J. – atendi contrariado.
- J, Doutora CR, médica da regulação do SAMU, boa noite.
- Boa noite, doutora. Posso ajudar?
- Sim. Tem uma equipe nossa aí há bastante tempo. O que acontece?
- Na verdade, tem uma equipe de vocês e outra do Corpo de Bombeiros, não temos maca. A coisa está feia aqui. Muito feia.
- Passa um fax para mim então...
- OK, ate mais doutora...
Eles devem estar esperando o fax até agora.
Gritos na emergência: entro correndo e encontro uma paciente idosa com camisola hospitalar aberta nas costas e a fralda caída a seus pés. Esta assustada, encolhida no canto da sala. À sua volta estão a AD e a LC, tentando convencê-la a voltar para a observação feminina onde está internada.
- J. Você sempre cuida de mim. Elas querem me queimar – disse a paciente, me reconhecendo mesmo em momento de delírio – não deixa não. Eu quero ir embora daqui, ela vai me matar...
Abracei a dona M e a levei de volta ao quarto. Com muito custo a colocamos de volta na cama onde ela só ficou porque eu prometi que voltaria para cuidar dela. Após acomodá-la, convenci o LC a prescrever algo para que ela dormisse um pouco.
No corredor um rapaz com anemia falciforme não para de chorar. Ele está internado desde o plantão anterior e até agora não acertaram a analgesia para ele. Volto no LC e peço para que prescreva a morfina.
- Isto vicia J.
- Melhor que ficar com dor o dia todo, não acha.
Ele prescreveu o medicamento, aproveite e coloquei o paciente no isolamento onde a cama é mais confortável, ou melhor, tem cama. Isto me deu uma maca para liberar a equipe dos bombeiros. A do SAMU saiu que eu nem vi.
Mais tarde a AND e a MC conseguirão uma vaga na clínica médica e eu peço para que o transfiram para lá. Quem sabe com o mesmo médico o vendo todos os dias consigam uma continuidade no tratamento...
Pausa para o jantar. Os funcionários estão revoltados, não vão mais nos servir o jantar. A partir de hoje teremos que trazer marmitas ou sair para comer, não vai ser fácil. Vou jantar com a MN, ela sempre traz uma marmita a mais para mim e a comida dela é tão boa quanto o café, ambos deliciosos.
Se algo está ruim tenha certeza que pode piorar, na emergência chega um paciente removido de uma unidade periférica: jovem de 26 anos, renal crônico e que teve uma PCR, está entubado, mas sua saturação não passa de 70 a HD me chama:
- Olha este tubo, parece que esta fora...
O paciente espumava muito, uma secreção rósea, característica de EAP. Acordado, brigava com o tubo, um horror. Chamei o LC:
- Dá uma olhada aqui, acho que vamos ter que entubar este menino de novo.
- Caramba, este cara não me deixa em paz, parece veado – reclamou ele, usando a liberdade que damos um ao outro.
Reclamou, mas entubou. Depois de algum sacrifício o paciente começou a saturar melhor.
Na sutura, um senhor com retenção urinária urrava de dor. A SH preparou o material para sondagem e na hora de sondar encontrei o menor meato urinário de adulto que já vi na vida. Como a sonda não passava a AND veio me ajudar e terminou por assumir o procedimento. Passou uma sonda de alivio número 10. Mais tarde passaria uma de demora e o paciente foi pra casa, feliz e sem dor.
O plantão foi assim: cansativo, mas satisfatório, não perdemos nenhum paciente e nenhum teve piora no plantão. Vamos passar lotado, mas com todos estáveis.
Cinco e alguma coisa da manhã, a AND descobre que trancou a chave no carro e pede ajuda:
- J. Ajuda-me a arrombar meu carro...
- Não faço mais isto. Agora sou enfermeiro.
- Tranquei a chave lá dentro, tenho que sair mais cedo e não dá tempo de chamar o seguro...
- Vamos lá.
- Em pouco tempo o carro estava aberto e ela poderia sair no horário planejado
A AND saiu mais cedo e a MC as seis, de forma que fiquei só por algum tempo. Passei meu plantão, juntei minhas coisas e quando deixava o PS um paciente me chama:
- Enfermeiro...
Até pensei em fingir que não ouvira o chamado, com receio de que ele me pedisse alguma coisa, afinal já havia passado o plantão, mas não consegui:
- Pois não.
- Só queria dizer obrigado. Vocês são uns anjos na vida da gente. O trabalho de vocês não é fácil. Você e sua equipe estão de parabéns.
- Obrigado – respondi meio constrangido, pois não tinha sequer olhado para ele a noite toda.
- Eu que agradeço J. Todos deveriam trabalhar com o amor que você trabalha.
Nada de choro.
Até amanhã
“Talvez não tenhamos conseguido fazer o melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito. Não somos o que deveríamos ser, não somos o que iremos ser.. mas Graças a Deus, não somos o que éramos.” Martin Luther King
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