sábado, 26 de maio de 2012

Sexta feira: Impotência

pmdv

E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará...

Cecília Meireles

Passam alguns minutos das seis da tarde quando estaciono a moto e jogo-me no sofá a espera do horário para começar o plantão. Munido de um DVD Alcione e com “Cânticos” de Cecília Meirelles às mãos, fecho-me em meu mundinho mágico de forma que mal noto o que acontece á minha volta.

A hora passa rapidamente e logo o despertador do celular me avisa que devo registrar o ponto e começar minha noite. Cartão batido. Encontro a VC e juntos vamos para o PS.

A cena que se descortina é animadora, temos várias macas vazias e conseguimos enxergar o chão, coisa rara ultimamente.

Recebemos o plantão e nossa noite começa. Um paciente que aguardava no corredor esta com hiperglicemia e começamos por ele. Alguns minutos de plantão e ele está na sala de emergência com sinais de cetoacidose diabética. Insulina, soro fisiológico, exames e ele afunda a cada hora. A saturação cai muito, 80, 70, 60 e apresar de tudo não descobrimos o que ele tem.

Neste meio tempo a emergência não para. Parece o dia municipal da pressão alta 20x10, 18x12, 17 por alguma coisa. Um atrás do outro vai chegando, sendo medicado internado, liberado colocado na emergência... Neste meio tempo minha atenção se volta a todo instante ao paciente diabético, não consigo entender o que acontece com ele. A gasometria indica acidose, e daí? Já fizemos bicarbonato... Nada parece dar certo.

Na outra sala um rapaz de 30 anos com rebaixamento do nível de consciência. Precisa de uma sonda enteral, passo a sonda com a cabeça na sala ao lado. A VC percebe minha angústia e provoca quando me pega olhando o monitor do rapaz:

- Assistindo televisão, enfermeiro?

- Ah, sim... Pensando

- Não fica se martirizando, estamos fazendo o melhor.

- Não entendo o que ele tem. Isto acaba comigo.

A EM me chama na soroterapia para avaliar uma paciente com dor. Ela tem prescrição de observação mas mandaram-na para a soroterapia. Não entendi porque e fiquei muito bravo com os auxiliares:

- Família, porque aquela paciente foi encaminhada para soroterapia? Temos macas vazias e vamos deixar uma paciente com dor passar a noite sentada?

- Foi o cirurgião que mandou - respondeu alguém.

- Não interessa. Quem decide onde acomodar o paciente é o enfermeiro. Quero que a peguem na cadeira de rodas, e com todo carinho tragam para cá e coloquem em uma maca.

Dito e feito. Minha equipe é muito boa. Até para perceber quando erramos. Em minutos a paciente estava em uma maca e recebendo medicação para dor.

Ainda acho que nosso grande desafio na enfermagem é não se “acostumar” e se acomodar com o sofrimento alheio. Isto tem que nos incomodar a ponto de sentirmos a necessidade de intervir.

De madrugada nosso paciente piora e evolui para PCR, estávamos em cima e conseguimos reverter em apenas um ciclo de RCP. Mas, mesmo no ventilador, a saturação não passava de 70% e a pressão nos 80x40. Pensa daqui, mexe dali e nada de melhora. Começamos a pensar em H1N1... O HB, médico do horário, resolve entrar com drogas vasoativas e pede um cateter central.

- Deixa que eu passo um PICC – disse.

- Tem isso aqui?

- O pior é que tem.

Volto para o corredor e provoco a VC:

- Enfermeira, pode me ajudar a passar um PICC?

- Você quase não fez nada a noite toda e ainda vai inventar PICC a esta hora – respondeu a loira, já calçando as luvas.

O procedimento foi fácil e rápido, logo o cliente especial e intrigante estará recebendo as drogas prescritas. Mas saber o que ele tem... Isto já é outro assunto.

Meu plantão ficou neste paciente, e a equipe deu conta do resto com maestria. Passamos o PS lotado, com muito mais pacientes do que recebemos.

Fim de plantão, enquanto tomamos café a VC comenta:

- Você passou a noite toda com aquele paciente. Não que não tenha dado atenção aos outros. Mas se dedicou muito a ele... Acho que vai até ligar para saber como ele está.

- Não. Fiz minha parte no plantão. Passei-o vivo. Mas não vou ligar... – respondi meio sem certeza.

- Hã, hã...

Até amanhã.

"Nem a maior frustração, o maior fracasso, o pior, o mais indesculpável engano, constitui erro maior do que o de nunca sequer ter tentado."  Elenita Rodrigues

3 comentários:

  1. O chefe só não escreveu que ele mandou pedir desculpas pra pacte. Ficou bravinho rsrsrs

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  2. adoro este blog. E o autor dele é tuuuuudo. Me disseram que ta solteiro...

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  3. Ainda que que voltou a escrever. parabéns pelo trabalho

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