terça-feira, 24 de abril de 2012

Segunda feira. Normal: um caos

 

 

Mesmo desacreditado e ignorado por todos, não posso desistir, pois para mim, vencer é nunca desistir. Albert Einstein

pmdv

Já passam das seis da tarde quando consigo encostar a moto no local de sempre. O trânsito estava horrível em virtude de um acidente na rodovia. Decido descansar um pouco antes de assumir o plantão e me jogo no sofá onde pretendo passar os próximos quarenta minutos que me separam do início do plantão.

Ainda no sofá assisto a chegada dos funcionários da noite que aos poucos vão me fazendo companhia no sofá onde diversos assuntos se misturam, de celular do Paraguai a acidente de cantor famoso.

Com a chegada da VC chega também o momento de encarar o plantão e lá vamos nós: A porta vai e vem descortina a perfeita visão do inferno, uma verdadeira babel. Confusão total, pacientes em cadeiras , outros aguardando a admissão há mais tempo do que eu acho aceitável, a emergência lotada, cinco onde deveriam ter quatro pacientes uma série de providências pendentes entre exames, retornos e encaminhamentos.

- Enquanto pegamos o plantão vou dando as primeiras orientações para nossos auxiliares:

- Colhe este exame para mim, - Faça outro eletro, por favor, - vamos levar para o raio x, Verifique a pressão e por aí vai.

Uma paciente me aborda:

- Moço, você que é meu médico?

- Melhor que isto. Sou teu enfermeiro.

Todos me olham e a KT, médica, diz:

- Olha que FDP. (risos)

- FDP, nada. Eu tenho que valorizar minha profissão

Recebemos o plantão e eu ligo meu motorzinho. Não consigo ver tanta coisa para ser feita e ficar apenas olhando. A equipe entende bem isto e logo estamos a todo vapor.

No corredor um rapaz aguarda a avaliação da ortopedia após ser atropelado por um ônibus, à primeira vista parece embriagado, mas não está. Tem uma dificuldade de fala em virtude de uma cirurgia no cérebro há alguns anos e com isto, sua fala ficou enrolada como a de um bêbado.

A noite acontece com naturalidade, mas não temos descanso a todo instante chega um paciente: dor abdominal, dor de cabeça, febre, pressão alta... No corredor um paciente em síndrome de abstinência a alcoólica me chama atenção está “largado” no cantinho do desterro que é um espaço onde colocamos os pacientes que, por qualquer motivo, não podem ficar junto aos outros, ou pelo comportamento ou pelo estado de higiene ou para algum procedimento pouco perfumado… 

- PT, me ajuda aqui. Puncione um acesso venoso e verifique os sinais vitais deste paciente. Ele me parece com febre.

Mas tarde encontro o MC e a PT “dando um trato” no paciente.

- Está com febre – informa a PT – já medicamos, demos banho e trocamos.

Medicado e colocado sob compressas frias o paciente terá uma noite tranquila, bem diferente da forma que o encontramos.

- Agora sim. Limpo e medicado.

A emergência me preocupa, ainda não conseguimos acertar com a equipe. Falta algo. Sei que a exigência é alta, mas é necessária. Paro por uns instantes e me pego olhando para as salas de emergência tentando achar uma solução para o problema. Precisamos de pessoas com habilidade e responsabilidade e comprometimento. A emergência é o coração do PS, se ela funcionar bem, o resto é manutenção e rotinas.

Um dos pacientes da emergência me preocupa, esta hipotenso, sem causa aparente, com o nível de consciência diminuindo. Precisa de sonda vesical e um exame de urina, único foco de infecção ainda não pesquisado.

- Preocupado, chefe? – a pergunta vem da VC que está aprendendo, ou já aprendeu, a ler meus pensamentos.

- Pensando. – respondi de forma lacônica.

- Na emergência, né? Eu também.

O plantão está corrido e percebemos que ainda não jantamos. Não há o que fazer, temos que ir os três de uma vez, ou não teremos mais comida.

Estamos no refeitório, já no fim da refeição quando a FB aparece esbaforida:

- Desculpem enfermeiros, mas a médica pediu para chamar um enfermeiro, tem um paciente convulsionando... – a FB sempre se refere a nós como enfermeiros, gosto disto.

- Deixem que eu vou, já terminei – disse já saindo do refeitório e sem dar tempo de uma contra proposta.

No caminho entre o refeitório e o PS pensava o que faria uma médica experiente como a PT solicitar a presença de enfermeiros para manejar uma crise convulsiva e a FB tentava acompanhar meus passos...

- Calma enfermeiro, minhas pernas não aguentam....

- Nem estou correndo (risos)

Chegando ao PS encontro a PT, ainda no início do atendimento:

- Diga meu anjo. Queria me ver, saudades?

- Eu achei que seria mais grave... Mas é só convulsão mesmo. Vamos por uma Guedell nele...

Enquanto retirava a dentadura do paciente e introduzia a Guedell observei-o melhor. Cianótico, sem movimentos respiratórios...

- Vamos para emergência, PT. Realmente é mais grave, o cara está parando.

- Vamos lá – concorda ela, já prevendo que terá que entubar o paciente

Rapidamente levamos para a emergência e lá ele foi premiado com o tubo da noite. Estava saturando 21 quando foi entubado. Vai ficar bem.

- Precisa de sondagem – diz a PT.

- Sim ele e o do lado, está hipotenso e não tem urina I.

- Pode passar

- JB, prepara o material para a enfermeira VC passar as sondas.

- Eu? - pergunta a VC , sabendo a resposta.

- Sim, você. – vai dar tudo certo.

Ela me odiou, mas passou as duas sondas com perfeição. Minhas suspeitas se confirmaram ao ver a piúria na sonda do paciente hipotenso.

- Você poderia ter me dado um tempo para passar sondas – reclamou a VC

- Quanto tempo?

- Sei lá... um ano ou dois (risos)

De volta para o corredor, encontro o paciente do ônibus, ainda aguardando avaliação do ortopedista.

- Enfermeiros, o cara esta aqui desde as seis da tarde e nada. Olhem aquele braço pode desenvolver uma síndrome compartimental...

- Já chamamos o ortopedista – respondeu a AND

Peguei os os filmes de raios x e fui ao consultório.

- E aí doutor, beleza?

- Fala J.

- Olhe este braço...

- Caraca, o cara moeu o cotovelo...

- E está esperando há um tempão para ser reavaliado...

- Putz, vamos lá.

Reavaliado, imobilizado e medicado. Vai precisar de cirurgia e por isto ficará internado.

Uma garota de 24 anos, diabética e com a perna já amputada como consequência da doença, é internada. Acesso venoso difícil e minha facilidade para punção fez com que ela se apegasse/;

- Este enfermeiro é diferente- disse ela para a VC.

- Diferente como ? - provoca a colega com um sorriso no canto dos lábios

- Diferente, ele não é igual aos outros, sei lá.

- É mesmo – concorda a paciente do lado, uma menina de 20 anos com dores abdominais e em tratamento para deixar o crack.

Saio de perto, com um sorriso. A VC também decide não alongar o assunto, estamos cheios de trabalho, mas um elogio sempre é bem vindo.

Plantão corrido, mas tranquilo. Vai chegando ao fim. São seis e quarenta quando o CL, enfermeiro da clínica médica traz uma paciente. EAP: , lasix, sonda, CPAP e ela fica estável para o plantão diurno continuar com os cuidados. Para nós deu, por hoje.

- Plantãozinho corrido- diz a AND, enquanto nos dirigimos para o relógio de ponto.

- Vou parar cinco minutos no sofá para desintoxicar – completo.

- Eu também – diz a VC

_ Vocês estão aí amanhã? - pergunto.

- Não. Eu estou de folga. Graças a Deus. – comemora a VC

-Eu estou aqui – diz a AND

-Então até amanhã, AND. Boa Folga VC

Ainda preciso resolver o problema da emergência.

-Até amanhã

Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez. Thomas Edison

4 comentários:

  1. porque será que este enfermeiro é diferente dos outros hem??? quem o conhece sabe.... boa sorte sempre J...

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  2. Diferente?
    Ele é inigualável, não tem meio termo. Ou você gosta dele ou detesta mesmo. Estou no primeiro time. Profissionalmente, estou para conhecer alguém que tenha a enfermagem como religião e leve isto tão a sério a ponto de incomodar as pessoas.

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  3. Incrível> As vezes penso em desistir, mas quando vejo o J. trabalhando sinto um orgulho muito grande do meu chefe. Ele é um chefe presente, sabe mandar, ouve e não deixa nunca um subordinado na mao. Depois que ele assumiu a equipe nunca mais teve medico gritando com a enfermagem. Tem gente que fala mal mas nem Jesus agradou todo mundo...

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  4. Seus relatos sempre emocionam e nos dá a dimensão da arte que é ser enfermeiro ! Obrigada por compartilhar conosco ! Abraços !

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