Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro. Confúcio
pmdv
Já passavam das seis e meia da noite quando cheguei ao hospital. Não pude deixar de observar uma moto no local onde costumeiramente estaciono a minha e reparei igualmente o fato de ter um espaço justo para que a minha condução fosse estacionada no local de sempre, como se estivesse reservado. Estou atrasado e com muito frio. Minhas articulações reclamam a cada passo e a noite está só começando, ou melhor, ainda não começou.
Hoje mal deu tempo para uma pausa no sofá. Quando acabei de tirar a capa de chuva o alarme do celular já despertava denunciando a hora de registrar o ponto. Em frente ao relógio encontro a VC e, juntos, vamos ao PS. A noite promete, seremos ela e eu.
A falta e enfermeiros é um problema sem soluçãom possível a curto prazo…
Ao passar pela porta do Pronto Socorro ficamos mais tranquilos, tudo parece calmo. O corredor tem uns oito ou nove pacientes, uma equipe do SAMU aguardando a liberação da prancha e pela cara da Auxiliar de Enfermagem, já fazia muito tempo que esperava e se depender da minha boa vontade, vai esperar mais um pouco. Ou melhor, mais um muito.
Na passagem de plantão a VR, enfermeira do dia informa que já chamou o ortopedista por duas vezes para liberar o SAMU e ele ainda não havia dado o ar da graça. Ao ver o JB ela pediu:
- JB, chame o ortopedista de novo.
-Assim que ele passou por mim, chamei:
- JB!
-Oi chefe, boa noite.
- Boa noite, não vai chamar ninguém, termine de receber o plantão...
- OK, entendi.
Eles cansaram de esperar e foram embora sem a prancha, e o ortopedista entrou por uma porta no momento em que saiam pela outra.
O plantão está muito tranquilo. Melhor que VC e eu havíamos previsto ao fazer a escala no plantão anterior. Mas na semi, uma paciente não esta bem. A VC cobra o HB, clínico que está deixando o plantão para que ele avalie a paciente e ouve um “Já terminei meu plantão, agora é a CT”.
Chamei a CT :
- Dá uma olhada no leito seis, não está bem...
- Já vi- respondeu – aumenta o oxigênio...
Nem quis ouvir o resto da “orientação” e sai.
Mais tarde a IV, auxiliar escalada na semi, me chama:
- J, dá uma olhada na paciente do seis, ela não está bem, vai acabar parando...
Se tem uma coisa que eu aprendi nesta profissão foi ouvir bons auxiliares. Portanto fui logo atender a solicitação da IV e quando cheguei não gostei do que vi. A paciente estava muito desconfortável, usando musculatura acessória par respirar e com saturação de 80%.
- Não vai adiantar chamar a CT de novo. Ela não intuba... – pensei alto.
- E você não pode fazer nada? - Perguntou a IV.
- Vamos lá. Me arrumem uma máscara de ambú grande e monte o respirador...
Assim que elas, IV e SL, providenciaram o material, passei a improvisar um sistema de CPAP. Em alguns minutos a paciente estava com a saturação em 98% e aparentava melhora.
- Ela não vai escapar do tubo. Quando o LC chegar falo com ele.
- Me sinto segura quando você está J. Você é um enfermeiro mesmo.- elogiou a IV
- Não faz assim que posso até me apaixonar, IV. – respondi rindo
A paciente ficou bem e com a chegada do LC, não demorou muito para que fosse entubada. Agora sim passaremos a noite mais tranquilos em relação ao leito seis...
Os Bombeiros trazem uma mulher que caiu sobre o braço: luxação de cotovelo. Isto dói pacas. Raios x, redução, medicação e liberada.
A controladora de acesso me chama, uma paciente quer fazer uma reclamação:
- Boa noite, pois não?
- Boa noite. O senhor é o enfermeiro J?
- Sim...
- É que estamos há mais de uma hora para passar no médico e temos compromisso, você não pode fazer alguma coisa...
- Me deixe ver a ficha... Aparentemente faz 20 minutos que a senhora está esperando... Então vamos combinar assim: se chegar a uma hora, de verdade, a senhora me chama...
Ela simplesmente virou as costa e saiu. Na volta o RD me chama:
- J, tem uma grávida que foi picada de aranha. Vai precisar ficar até a meia noite. Fica na cadeira mesmo?
- Vou ver...
Ao avaliar a garota, mais ou menos 20 anos, percebo que a picada de aranha era o menor dos problemas. Ela se contorcia na cadeira segurando a barriga.
- Quantas semanas?
- É para o dia cinco agora...
- Acho que não. – imediatamente puxei uma maca da emergência e deitei-a, enquanto chamava a LC para me ajudar.
Ao examinar a paciente os seis dedos de dilatação denunciaram um parto iminente, e rapidamente a colocamos de volta na ambulância que a trouxera para avaliação e mandamos de volta à maternidade.
Madrugada, uma parente de paciente me procura, esta vindo de longe e quer dar “só uma olhadinha” no ente querido.
- Claro que pode.
Mais tarde outra parente do mesmo paciente também solicita a exceção e hoje não estou a fim de dizer não a ninguém
- Obrigada, você é muito humano. Deus te abençoe.
- Amém. – respondi.
O amém foi a deixa para a VC começar a rir.
- J, você não existe.- e saiu rindo do jeito que só ela sabe... e eu sei por que ria…
São cinco da manhã, quando a AD, técnica de enfermagem da emergência, me chama.
- J, uma paciente precisa ser entubada, colher gasometria...
Ao chegar na emergência encontro uma paciente que acabara de receber alta, com respiração difícil e que logo evolui para PCR, com a intervenção rápida conseguimos trazê-la de volta... O respirador não funciona. mexe, remexe e nada. depois de algum tempo descubro uma válvula com defeito e tome mais um improviso no plantão.
- Pode deixar vou dar um jeito, preciso de um equipo e um fluxometro…
- Vai fazer gambiarra? – Pergunta o ED, clínico de plantão.
- Gambiarra não.- respondi ofendido - Improviso. Ou melhor: Adapitação Provisória com Materiais Alternativos. E vai dar certo.
Deu certo. O atendimento durou até perto das sete da manhã. Tempo para fazer relatório e passar o plantão.
Saímos VC e eu, como entramos; juntos e desta vez acompanhados pela FB que aproveita a carona para deixar o PS para trás.
- Plantão tranquilo – comentei.
- Ainda bem, pois quando estou de folga tem quatro enfermeiras no plantão e no meu plantão somos apenas nós. Você me ama.- provocou
- Não duvide disto – respondi
Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos. Albert Einstein
Até amanhã
Tua agilidade no atendimento de emergência faz a diferença... entendo porque o PS é o teu setor favorito....
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