segunda-feira, 30 de abril de 2012

Domingo – Problemas… Improvisos

 

Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro. Confúcio

pmdv

Já passavam das seis e meia da noite quando cheguei ao hospital. Não pude deixar de observar uma moto no local onde costumeiramente estaciono a minha e reparei igualmente o fato de ter um espaço justo para que a minha condução fosse estacionada no local de sempre, como se estivesse reservado. Estou atrasado e com muito frio. Minhas articulações reclamam a cada passo e a noite está só começando, ou melhor, ainda não começou.

Hoje mal deu tempo para uma pausa no sofá. Quando acabei de tirar a capa de chuva o alarme do celular já despertava denunciando a hora de registrar o ponto. Em frente ao relógio encontro a VC e, juntos, vamos ao PS. A noite promete, seremos ela e eu. 

A falta e enfermeiros é um problema sem soluçãom possível a curto prazo…

Ao passar pela porta do Pronto Socorro ficamos mais tranquilos, tudo parece calmo. O corredor tem uns oito ou nove pacientes, uma equipe do SAMU aguardando a liberação da prancha e pela cara da Auxiliar de Enfermagem, já fazia muito tempo que esperava e se depender da minha boa vontade, vai esperar mais um pouco. Ou melhor, mais um muito.

Na passagem de plantão a VR, enfermeira do dia informa que já chamou o ortopedista por duas vezes para liberar o SAMU e ele ainda não havia dado o ar da graça. Ao ver o JB ela pediu:

- JB, chame o ortopedista de novo.

-Assim que ele passou por mim, chamei:

- JB!

-Oi chefe, boa noite.

- Boa noite, não vai chamar ninguém, termine de receber o plantão...

- OK, entendi.

Eles cansaram de esperar e foram embora sem a prancha, e o ortopedista entrou por uma porta no momento em que saiam pela outra.

O plantão está muito tranquilo. Melhor que VC e eu havíamos previsto ao fazer a escala no plantão anterior. Mas na semi, uma paciente não esta bem. A VC cobra o HB, clínico que está deixando o plantão para que ele avalie a paciente e ouve um “Já terminei meu plantão, agora é a CT”.

Chamei a CT :

- Dá uma olhada no leito seis, não está bem...

- Já vi- respondeu – aumenta o oxigênio...

Nem quis ouvir o resto da “orientação” e sai.

Mais tarde a IV, auxiliar escalada na semi, me chama:

- J, dá uma olhada na paciente do seis, ela não está bem, vai acabar parando...

Se tem uma coisa que eu aprendi nesta profissão foi ouvir bons auxiliares. Portanto fui logo atender a solicitação da IV e quando cheguei não gostei do que vi. A paciente estava muito desconfortável, usando musculatura acessória par respirar e com saturação de 80%.

- Não vai adiantar chamar a CT de novo. Ela não intuba... – pensei alto.

- E você não pode fazer nada? - Perguntou a IV.

- Vamos lá. Me arrumem uma máscara de ambú grande e monte o respirador...

Assim que elas, IV e SL, providenciaram o material, passei a improvisar um sistema de CPAP. Em alguns minutos a paciente estava com a saturação em 98% e aparentava melhora.

- Ela não vai escapar do tubo. Quando o LC chegar falo com ele.

- Me sinto segura quando você está J. Você é um enfermeiro mesmo.- elogiou a IV

- Não faz assim que posso até me apaixonar, IV. – respondi rindo

A paciente ficou bem e com a chegada do LC, não demorou muito para que fosse entubada. Agora sim passaremos a noite mais tranquilos em relação ao leito seis...

Os Bombeiros trazem uma mulher que caiu sobre o braço: luxação de cotovelo. Isto dói pacas. Raios x, redução, medicação e liberada.

A controladora de acesso me chama, uma paciente quer fazer uma reclamação:

- Boa noite, pois não?

- Boa noite. O senhor é o enfermeiro J?

- Sim...

- É que estamos há mais de uma hora para passar no médico e temos compromisso, você não pode fazer alguma coisa...

- Me deixe ver a ficha... Aparentemente faz 20 minutos que a senhora está esperando... Então vamos combinar assim: se chegar a uma hora, de verdade, a senhora me chama...

Ela simplesmente virou as costa e saiu. Na volta o RD me chama:

- J, tem uma grávida que foi picada de aranha. Vai precisar ficar até a meia noite. Fica na cadeira mesmo?

- Vou ver...

Ao avaliar a garota, mais ou menos 20 anos, percebo que a picada de aranha era o menor dos problemas. Ela se contorcia na cadeira segurando a barriga.

- Quantas semanas?

- É para o dia cinco agora...

- Acho que não. – imediatamente puxei uma maca da emergência e deitei-a, enquanto chamava a LC para me ajudar.

Ao examinar a paciente os seis dedos de dilatação denunciaram um parto iminente, e rapidamente a colocamos de volta na ambulância que a trouxera para avaliação e mandamos de volta à maternidade.

Madrugada, uma parente de paciente me procura, esta vindo de longe e quer dar “só uma olhadinha” no ente querido.

- Claro que pode.

Mais tarde outra parente do mesmo paciente também solicita a exceção e hoje não estou a fim de dizer não a ninguém

- Obrigada, você é muito humano. Deus te abençoe.

- Amém. – respondi.

O amém foi a deixa para a VC começar a rir.

- J, você não existe.- e saiu rindo do jeito que só ela sabe... e eu sei por que ria…

São cinco da manhã, quando a AD, técnica de enfermagem da emergência, me chama.

- J, uma paciente precisa ser entubada, colher gasometria...

Ao chegar na emergência encontro uma paciente que acabara de receber alta, com respiração difícil e que logo evolui para PCR, com a intervenção rápida conseguimos trazê-la de volta... O respirador não funciona. mexe, remexe e nada. depois de algum tempo descubro uma válvula com defeito e tome mais um improviso no plantão.

- Pode deixar vou dar um jeito, preciso de um equipo e um fluxometro…

- Vai fazer gambiarra? – Pergunta o ED, clínico de plantão.

- Gambiarra não.- respondi ofendido -  Improviso. Ou melhor: Adapitação Provisória com Materiais Alternativos. E vai dar certo.

Deu certo. O atendimento durou até perto das sete da manhã. Tempo para fazer relatório e passar o plantão.

Saímos VC e eu, como entramos; juntos e desta vez acompanhados pela FB que aproveita a carona para deixar o PS para trás.

- Plantão tranquilo – comentei.

- Ainda bem, pois quando estou de folga tem quatro enfermeiras no plantão e no meu plantão somos apenas nós. Você me ama.- provocou

- Não duvide disto – respondi

Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos. Albert Einstein

Até amanhã

Um comentário:

  1. Tua agilidade no atendimento de emergência faz a diferença... entendo porque o PS é o teu setor favorito....

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