A noite promete ser fria esta promessa traz consigo a possibilidade de ser um plantão tranqüilo no PS do emprego número 2. Ao encostar a moto observo a recepção, relativamente vazia. Vou para o vestiário, troco de roupas e pronto. São 18h40min quando me apresento para receber o plantão.
Estou nas enfermarias, que por sua vez estão tranqüilas. Um homem na masculina com desconforto respiratório importante e uma intolerância à atividade que há muito eu não via. Magro, para não dizer caquético, chega a dar pena só de olhar para a figura franzina e indefesa que praticamente desaparece entre os lençóis. Esta rodeado de familiares, que querem transferi-lo para um hospital com mais recursos mas não sabem exatamente qual.
A irmã me procura:
- Quem é o J? – Pergunta
- O Enfermeiro J, sou eu.
- Então eu quero saber do caso do meu irmão...
- Então, a médica acabou de falar com vocês. Eu estava no quarto.
- Na verdade eu não entendi nada.
Expliquei novamente que seu irmão tem uma pneumonia extensa e que no momento estava dependente de oxigênio, que não seria removido pois não havia necessidade e que o emagrecimento dele era algo a ser investigado com os exames que foram solicitados. Inclusive o teste para HIV que ele recusou
- Não posso autorizar o teste?
- Não. Ele está lúcido e toma as próprias decisões.
É uma família grande: filhos, irmãos, cunhados. Todos parecem muito preocupados. Ele parece ser amado. Neste momento penso em minhas próprias escolhas. De repente é bom ter alguém que se preocupe de verdade com você...
Ainda teria que repetir a explicação por quatro ou cinco vezes e pedir por dez ou doze vezes que ficasse apenas um acompanhante no quarto, já que naquele momento estavam “apenas” seis.
No isolamento um senhor com suspeita de tuberculose, aguarda transferência. Logo sua vaga é cedida e temos mais um leito vago. Que luxo.
Na enfermaria feminina uma senhora de 38 anos e outra de 72. A primeira com distúrbio de comportamento e dando sinais de ficará agressiva, após seu primeiro surto da noite sugeri ao médico uma ampola de fernegam e outra de haldol que foram suficientes para que tivéssemos uma noite tranqüila. A mais velha um amor. Está ótima. Internada devido a ICC mas no momento assintomática. Não quer ir para casa. Está frio e não tem quem cuide dela. Entendo. Me limito a anotar o exame físico, temos camas disponíveis. Por um momento me lembro da situação que deixei pela manhã no outro hospital: pacientes em cadeiras por falta de macas.
A pediatria tem uma criança internada e duas observações. A criança internada, uma menina de quatro meses com bronquiolite, precisa de novo acesso venoso. A CS, técnica de enfermagem e grávida de 07 meses, prepara o material e diz:
- Boa sorte enfermeiro. Ela é impossível de veia.
Depois de dez minutos a menina estava recebendo a medicação na veia e mamando. Uma coisa boa daqui: voltei a trabalhar com crianças.
A noite avança e com ela vão diminuindo as visitas e as consultas. Logo seremos nós e alguns pacientes e acompanhantes que não foram para casa.
Sou chamado por três ou quatro vezes para puncionar outras crianças. Um garoto de quatro anos, forte como homem, segundo ele. Sequer mexe os braços na hora da punção mas quando eu falo em injeção no bumbum... Precisei de muita força para mantê-lo entre minhas pernas e assim que acaba ele dispara sem lágrimas:
- Nem doeu. (risos).
- Ele é assim. Forte. O homem da casa – diz a orgulhosa mãe de quase cincoenta anos – é meu único filho e tudo para mim. Somos só nós dois. Um pelo outro.
Meia noite. Ouvimos o som de buzinadas insistentes. A primeira reação é calçar luvas e aguardar o que chegará. Com a demora decido ir até a entrada e me deparo com um senhor de uns 50 anos tentando tirar alguém do carro. Peço ajuda e retiramos uma mulher da mesma idade e com sinais claros de parada cardiorrespiratória. Levamos para dentro, veia, massagem e entubação. Inócuo. Não há mais o que fazer. O companheiro está desolado, segundo ele quando a namorada começou a demorar no banho, foi ver o que acontecia e a encontrou caída ao chão.
Ainda teremos que dar a notícia a única filha da mulher que não se conforma em perder a mãe. Sua companheira e confidente. Coisas da vida e da morte.
- Tem alguém que possa ir à delegacia para fazer o B.O? – pergunto após ela ter visto e chorado sobre o corpo da mãe.
- Não. Somos apenas nós duas. Uma pela outra. Você não entende moço… Ela é minha vida.
Já ouvi a expressão “Um pelo outro hoje”
Mais uma vez sou levado a pensar em minhas escolhas. Hoje ninguém me encontraria no banheiro…
O resto do plantão fez jus à minha expectativa, sossegado. Eu precisa disto…
Fim de plantão, converso com minhas parceiras JC e CM, enfermeiras que farão parte desta nova jornada. Tem o BD, mas está de folga hoje.
- Acabou – falo para as duas, que estão no balcão da enfermaria fazendo o famoso livro.
- Sim foi tranqüilo - diz a JC.
- Foi ótimo - completa CM
- Só passar o BO.
Chega a colega do dia e recebe o plantão. Passamos como pegamos. Tranquilo
Até amanhã.
Refletiu sobre suas escolha tio? é eu tambem. Muitas coisas que acontecem no dia-a-dia nos faz refletir, mas somente refletir se arrepender nunca. Bjos te amo
ResponderExcluirEscolhas, escolhas e escolhas... O que e a vida senão uma sucessão de escolhas... Basta saber qual e a correta e seguir, enquanto isso vai tentando... Se precisar de opções... estou aqui!!! Bjs
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