Seis e meia da tarde, passo pela porta vai e vem e me dou conta que estou fechando minha primeira semana no noturno. É uma nova fase, novos desafios e os mesmos problemas. A diferença é que agora não posso apenas reclamar, tenho que propor soluções e resolver problemas que nem sempre são simples muito menos fáceis.
A imagem que se abre ante meus olhos não chega a assustar, PS lotado, mas ainda restam duas ou três macas disponíveis. Estranho, saindo gente pelo ladrão e o enfermeiro consegue ver duas macas vazias como alento.
Há dias não trabalho na assistência, mas hoje será necessário. E, já que posso escolher, prefiro o PS.
Hoje está “apertado”, temos auxiliares de menos, enfermeiros de menos e pacientes graves demais. Faço minha “ronda” pelo hospital e algumas mudanças nas escalas para melhorar um pouco ao Pronto Socorro.
Estou começando a me acostumar com a nova equipe, que agora não se restringe ao OS e sim ao Hospital todo. No entanto ainda é no PS onde passo a maior parte do tempo e onde as coisas acontecem.
A emergência está lotada, meu colega se ocupa com um paciente em insuficiência respiratória. Ele tem HDA e está rebaixando o nível de consciência muito rápido, foi intubado, recebeu sangue, mas não vemos grandes melhoras.
Uma menina de 14 anos chega transferida de um periférico. Abscesso dentário, precisará de cirurgia. Começo a prepará-la e colher a história. Alergias, medicamentos de rotina. Última menstruação etc. Quando noto que a mãe pergunta tudo para ela antes de me responder. A gota d’água foi a data de nascimento. Ela consta da ficha mas não sei por que sempre pergunto para preencher o histórico.
- Qual a data de nascimento da M?
-Qual a data de seu nascimento? - Pergunta a mãe, para a adolescente.
- Espera aí. A senhora não sabe o dia que tua filha nasceu? Esta com os documentos aí?
- É que...
- Hum...
- Vou falar a verdade ela não é minha filha, sou vizinha dela. A mãe mora na Bahia.
- E ela não tem nenhum parente maior de idade aqui?
- Só a irmã.
- Então vamos esperar a irmã chegar.
Cirurgia suspensa. Já tínhamos até vaga pra transferir após a cirurgia. Mas não posso deixar uma criança ir ao centro cirúrgico sem o conhecimento dos pais. Neste momento me dei conta do tamanho da responsabilidade que está sob meus ombros.
Pelo corredor entra uma cadeira de rodas, sobre ela uma mulher chorando e a empurrá-la o marido preocupado. Dor lombar com teste de Jordano positivo, litíase renal. Acesso venoso, medicação e soroterapia.
SAMU, primeiro da noite. Intoxicação exógena. O rapaz resolveu tomar toda a cartela de carbamazepina de uma só vez. Sonda, lavagem, família preocupada e observação, sem novidades.
Uma senhora entra na cadeira de rodas aos gritos. Paraplégica, queixa-se de fortes dores no quadril. Após alguns minutos e ao ver o tamanho da agulha para punção venosa ela melhorou.
Brinquei um pouco com ela, o que fez com que se sorrisse um pouco. Medicada e liberada, ela me pareceu precisar mais de atenção afetiva que de cuidados médicos.
Outro SAMU, outra intoxicação, segundo a auxiliar do SAMU ela estava inconsciente e deu muito trabalho para tirá-la da banheira. Mas ao chegar ao hospital e “ver” a sonda nasogástrica em minha mão levantou, conversou, negou a ingestão de remédios e foi levada à psiquiatria.
A noite passa rápido, vários casos, soluções rápidas. Nos outros setores tudo corre bem alguns problemas administrativos, atrasos, folgas nada que me prenda por muito tempo.
01H00m e vejo o GCM entrar com uma senhora na cadeira de rodas, pálida, dispnéica, diaforética...
- Alguém me empresta um esteto... Vamos levá-la pra emergência, acesso venoso, oxigênio e monitor. Chamem um clínico e diga que é um EAP. Ela esta saturando 80 vai pro tubo
Foi minha primeira emergência com esta equipe. A auxiliar estranhou um pouco, mas logo pegou o jeito. Em minutos a paciente estava entubada e no ventilador. Ficará bem. Lá fora os parentes choram, alguém viu a paciente ser entubada pela fresta da porta. Não é uma cena agradável...
A RS, minha colega do outro plantão e que hoje está fazendo extra conosco, me chama na semi. Um cateter está estranho, não infunde a medicação.
- Nem vai infundir, RS, está na artéria. Vamos puncionar um periférico e chamar o cirurgião para passar outro.
Realmente o cateter estava na artéria. Assunto resolvido, mas o paciente piorou muito durante a madrugada e no final do plantão o perdemos.
Chega um resgate dos Bombeiros, acidente de moto. A cirurgiã avalia e diz para o ortopedista;
- Tranqüilo, dá pra ficar pra amanhã cedo, só escoriações...
Intervenho:
- Não quero ser desmancha prazeres, mas dêem uma olhada naquela perna. Acho que é uma exposta
- Sai pra lá - brinca o ortopedista
Raios X, e... Fratura da tíbia, comparando a fratura com o ferimento na pele não resta dúvida: Exposta. Terá que ir para o centro cirúrgico. O ortopedista está inconformado, são três da manhã... Azar.
Fim de plantão. Os funcionários do dia começam a chegar.
Nosso saldo foi positivo hoje. Muito trabalho, poucos problemas.
Converso com MC, enfermeiro e companheiro de plantão.
- Acabou.
- Caramba, ralamos muito.
- É, amanhã tem mais.
Até amanhã
Estava sentindo falta, desta leitura obrigatória, ótimo, vc voltou......
ResponderExcluirEu fiz um enfermeiro feliz comentei, ótimo suas observações já não sou mais o idolo de meus alunos agora o ídolo é vc meio ídolo Parabéns
ResponderExcluirPreciso de leitura!!! Cade vc????
ResponderExcluir