Seis da manhã, já estou no Hospital e decido tomar um café antes de encarar o PS. Não sei como está , mas ultimamente lotado tem sido uma palavra demasiada fraca para definir a situação. Com os hospitais da região em estado de greve ou com “portas fechadas” a população não encontra alternativa senão se dirigir à nós onde encontrará filas, falta de macas e leitos e outras dificuldades.
São 06:30 quando passo a porta vai e vem, esperava coisa pior. A emergência com cinco, corredor lotado, mas apenas um paciente “internado” na cadeira. Passo o olho pela escala dos enfermeiros e auxiliares e converso um pouco com a colega da noite. Novidades, não há. Mudaram os rostos desde meu ultimo plantão há sete dias (tirei minhas folgas) mas os dramas continuam os mesmos. Idosos com fraturas de fêmur e quadril aguardando cirurgia, uma senhora com colecistite a quem prometeram operar hoje e, pelo que conheço, não será feito, jovens vítimas de acidentes de moto e de trabalho aguardando transferências para cirurgias ortopédicas e outros casos das mais diversas especialidades que, pelo manual, deveriam estar nas enfermarias há dias, mas superlotam a observação do PS dada a falta de vagas crônica em nosso sistema de saúde.
O plantão começa, chegam as enfermeiras, SM, LL e DN, rapidamente os auxiliares começam a adiantar os controles para que avaliemos quem pode receber alta e liberar algum espaço. Pela manhã é muito tumultuado, entra e sai de pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde além dos problemas administrativos que surgem a todo instante.
Primeiro SAMU do dia: Homem. 38 anos com “alteração” de comportamento. Interpelo o médico que o acompanha:
- Por que não levou para a psiquiatria?
- Levei, não tem médico lá. Já fiz um haldol, ele está tranqüilo
- Beleza, vamos passar para a maca e liberar vocês.
Converso com a esposa e descubro que a alteração de comportamento é devido ao fato do marido ter recebido um “orixá” que quer acabar com o casamento deles. Enfim, ficarão no hospital por três horas e serão liberados, com atestado para 10 dias o orientação para procurar um psiquiatra.
Uma moça com 20 e poucos anos me procura. Quer seringas e agulhas para auto transfusão.
- Não posso ajudá-la. Este procedimento não é autorizado no Brasil.
- Você já leu a respeito? Na Europa fazem, com sucesso. Brasileiro é atrasado mesmo...
- Pode ser, mas eu trabalho no Brasil e, por isso, não posso ajudar.
Ela sai dizendo palavras nada elogiosas a meu respeito, nada que nunca tenha ouvido não vá ouvir de novo. Sorrio para mim mesmo. Quanto auto controle...
O plantão vai transcorrendo com tranqüilidade, sem emergências, algumas altas e igual número de internações.
A LL me chama para colher uma gasometria
- Já tentei duas vezes e acho que é venosa...
- Vamos ver... pronto. Sangue arterial para você.
Ela sorri, ainda me chamará de novo pelo mesmo motivo e com o mesmo resultado.
Sou chamado na soroterapia, um acesso venoso difícil, entro punciono e saio antes que os outros tenham tempo de reclamar da demora,
Paciente no corredor, o cirurgião está reclamando que pediu uma sonda nasogástrica e ainda não foi passada. Pego o prontuário e penso rápido.
- O Sr pediu sonda 18 ou 20. Não temos aqui mandei buscar... (mentira, estou ganhando tempo)
- Faz uma hora.
- Temos 50 pacientes.
Ele sai, decidiu não brigar agora. Não somos muito amigos há algum tempo. Separo o material e passo a sonda, que estava disponível no estoque, chamo a SM e peço para que converse com a auxiliar responsável. Recém formada, ainda vai passar muito aperto antes de ganhar experiência.
O filho da paciente com colecistite me aborda. O cirurgião disse a ele que sua mãe não foi operada porque a enfermagem não encaminhou ao centro cirúrgico. Se tem uma coisa que me tira do sério são profissionais que tentam se livrar de um problema transferindo-o para a equipe de enfermagem. Não pensei duas vezes peguei o prontuário e confrontei o cirurgião.
- O Sr disse que a paciente não foi operada por que não a levamos?
- Sim.
- Então explique para o acompanhe e mostre para mim onde está o teu aviso de cirurgia e o que significa para você a frase “reavaliar as 12 horas” que você escreveu aqui.
- A enfermagem não respeita mais os médicos.
- Não respeito mentirosos e pessoas que não assumem suas falhas.
- Eu mandei...
- Você manda na tua empregada, no teu cachorro ou nos teus filhos. Aqui você prescreve. Por favor, resolva teus problemas com a família e não adianta colocar a culpa na minha equipe. Já tirei cópia do prontuário.
Ele saiu, inconformado com o enfermeiro “topetudo”, o filho entendeu onde estava a falha e eu voltei ao meu trabalho.
Fim de plantão. Tenho algumas coisas administrativas para fazer, ainda...
Uma colega me diz:
- J, como você está calmo. Nem ouvi tua voz enquanto discutia com o cirurgião. Você anda muito diferente.
- É, nem eu acredito
Por hoje é só. Estamos passando melhor do que encontramos. Chegam as meninas do noturno junto com o RN, RS e AN. O nosso terminou.
- Bom plantão pra vocês.
Até amanhã
Não sabia que orixás rendiam dez dias de atestado, se a moda pega...
ResponderExcluirA que atribui sua calma nos últimos tempos?
Achei o máximo a postura com o babaca do cirurgiao. parabéns
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