São 15h00min quando chego ao hospital, estou acompanhando de meu filho para, em virtude de seu tratamento, receber medicação e conseqüentemente passará a noite comigo. Além disso, preciso conversar com a RG e GR sobre o meu futuro na instituição. A conversa foi bastante proveitosa foram tomadas algumas decisões que em breve os leitores deste Blog ficarão sabendo.
As 17:45 registro meu ponto e vou para linha de frente, ao passar a porta vai e vem uma alegria estranha toma conta de mim. Apesar de lotado o PS me traz paz. Sinto-me em casa, logo me envolvo em um procedimento, atendo um acompanhante e quando percebo meu plantão começou. O LN chegou cedo e recebemos o plantão juntos, nenhuma novidade, duas vagas na semi, emergência vazia. Em pouco tempo colocamos o corredor em ordem. Novidade no plantão a RD recebeu uma “promoção” e saiu do hospital, o JQ está de licença médica, SC não vem hoje e temos três furos na escala. Remanejamentos feitos. E pronto, temos três no corredor. Está apertado, mas dá para tocar, não sem sacrifícios.
Pausa para uma ligação. Hoje é aniversário da PT-M. (20 anos) Está de folga. Ligo para ela e coloco o o celular no viva voz, um coro de parabéns à você se inicia logo após o alô do outro lado da linha. Ela fica feliz e brinca dizendo que não temos trabalho para fazer. Festa feita, voltamos ao trabalho.
O plantão vai tranqüilo até as 22:00 quando a GR me chama para fazer minha avaliação anual em companhia da AB que se recusou a fazer sozinha em virtude de minha não disfarçada antipatia por seus métodos de trabalho e, diga-se de passagem, ela não morre de amores por mim também.
A avaliação foi mais fácil do que parecia, tanto para mim, quanto para ela. Apesar do amor recíproco não pode tirar mais que 04 pontos dos cento e vinte possíveis, sendo dois em virtude do recente desentendimento com um paciente. Parto feito, sem distócia, volto para o PS.
A GCM traz uma garota de 19 anos, aparenta muito menos, achei que fossem 14 ou 15, franzina, com rosto de criança, não aparenta a idade que tem. Vitima de agressão sexual. Foi dominada e violentada por dois rapazes em uma movimentada avenida da cidade. Acompanho a consulta médica e percebo o quanto estas mulheres sofrem. O cirurgião que a atendeu não teve o mínimo de tato e compreensão, foi rude. Parecia que a culpa era dela. Seguindo o protocolo, ela foi encaminhada para consulta e orientação de enfermagem. Tentei deixá-la à vontade para relatar o ocorrido, o que não é fácil para uma mulher, ainda mais na presença de um homem.
Após colher a história e liberar os medicamento de emergência (ARV, contraceptivos e outros) faço seus encaminhamentos e ela é levada para exame médico legal. Não sei o que leva um homem a agir desta forma, penso nisto enquanto me dedico a outros pacientes. Um travesti mudo que caiu do muro e quebrou a perna. O AD o atende e eu não deixo passar a chance de azucrinar:
- Muito bem AD, estou orgulhoso de você. Apesar de que você trata bem todo mundo que tem saia, não interessa o que tem por baixo.
Ele ri e ameaça não cuidar de mais ninguém hoje se eu continuar a provocação. Não adiantou continuei.
Estou na sala da GR registrando o caso de violência sexual no livro quando a TS me chama:
- J, estão te chamando na emergência, é urgente.
Meu coração vem à boca, meu filho está na emergência tomando os medicamentos, estava bem na última vez que o vi.
Quando chego à sala encontro uma mulher de 30-35 anos, em parada cardiorrespiratória. Nossa suspeita é uso de drogas associados à asma. Não há o que fazer o LC declara o óbito, mandamos o corpo ao IML e voltamos à nossa rotina. Um acompanhante percebe a naturalidade com que tratamos o caso e fala:
- Vocês se acostumam com isto. Né?
- Infelizmente sim. Senão não conseguimos trabalhar.
- Tenho vindo aqui desde que meu pai teve derrame e só tenho elogios.
- Que bom. Fico feliz.
Um senhor, etilista crônico e “freguês” do hospital chega, descorado e sudoreíco. Está sangrando de novo, HDA. Ficará na emergência até o fim do plantão estável não dará problemas.
O plantão termina. Sobrevivemos alegremente à noite de hoje.
Converso com o LN:
- Obrigado pelos remédio de meu filho (ele conseguiu na UBS)
- Não por isto. Se precisar é só pedir.
- Pedirei sim.
- Até amanhã
- Até amanhã
Acordo meu filho, agradeço a NS por ter cuidado dele durante a noite e saio.
Há tempos não sentia prazer em trabalhar como senti hoje.
Até amanhã.


PT - M:
ResponderExcluirMuuuuuuuuito feliz pelas msgs e ligação de vcs....muuitovobrigsdo
Adoro trabalhar com todo mundo nesse plantao...ate amanha..bjuss
Trabalhar em PS é isso né? Nunca sabemos o que vai entrar... por isso temos que nos preparar para qualquer coisa. Só não dá pra ensinar um profissional deste tipo a respeitar o paciente.Será que ele tem uma filha ou irmã??? Aff, já não sei se é mais difícil cuidar de pacientes doentes ou trabalhar com profissionais doentes... Nunca vou me acostumar.
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