terça-feira, 14 de junho de 2011

Segunda feira. ADEUS NOTURNO - B

despedidas

Mais uma vez cheguei bem cedo ao hospital. Levar meu filho ao médico, conversar com a GR são coisas que tenho que fazer cedo, antes do início de meu plantão. Minhas conversas com a GR estão cada dia mais produtivas e o tratamento de meu filho começa a me dar esperanças. São 17:30 quando atravesso a porta vai-e-vem, quase me assustei, o Pronto Socorro fervilha , parece ter vida própria e acho que é isto que me fascina na Urgência/ Emergência. Todos envolvidos em algo que mal percebem quando chega alguém. Por longos minutos fico observando a dinâmica do lugar, sem me envolver diretamente nela. Observo meu colegas, enfermeiros, cada um com sua preocupação e todos com as mesma. Um óbito há pouco na semi ocupa os auxiliares daquela sala. O murmurinho as vozes altas até o cheiro desagradável faz parte da rotina. Mas hoje tem algo estranho, um cheiro diferente que não identifiquei o que era. Procurei, passei pelos pacientes e nada. Não achei a fonte do odor. É familiar, mas não sei o que é. Quando já tinha desistido um funcionário da manutenção surge em minha frente e diz para a LD.

- Já lubrifiquei todas as rodas das macas.

- Obrigada, que Deus lhe abençoe e lhe dê muitas latas disto aí – disse ela sorrindo e apontando a lata de spray lubrificante, origem do odor desconhecido.

Recebo o plantão. Hoje estamos AN, RS e eu. O corredor está um verdadeiro inferno, já assumimos com dois em cadeiras e duas ambulâncias SAMU e Bombeiros esperando. Os auxiliares vão chegando, não sei por que hoje todos resolveram atrasar cinco minutos. Mas se tem uma coisa que aprendi é que em dias assim o melhor é não valorizar detalhes. Todos assumem seus postos e a “festa” começa. Somente uma falta. Isto jê é um bom começo.

Troco com a RS, o corredor esta pesado demais e o AN vai precisar de ajuda. Assim ela vai para a classificação, o que ela vai descobrir é que foi uma péssima troca. Houve mudança na rotina e aquilo está pior do que era. Garanto que não sabia.

Atendo as ambulâncias, minha intenção é organizar logo o corredor para que possamos entender o que acontece. Queda de moto, marido e mulher. Escoriações e um dedão do pé dela quebrado. (Por que a garupa sempre leva a pior?). Medicados, imobilizados e liberados.

As observações estão colaborando. Tudo tranqüilo fui chamado apenas uma vez para estabelecer um acesso venoso. No mais plantão liso. Nem reclamações. O corredor não pára. Internação atrás de internação e minha cabeça está a mil. Já pegamos todas as macas possíveis no Centro Cirúrgico a ponto de comprometer a assistência naquele setor. Conseguimos liberar alguns. Mas não o suficiente para termos macas disponíveis.

Quando tudo parece ruim piora. Uma mulher, vestida como homem e com mais pelos embaixo dos braços que eu, dá entrada na emergência. Baleada com quatro tiros um deles atingiu a femoral. Nada a fazer. Está morta e sem documentos que a identifiquem. Depois de algumas horas a polícia consegue identificá-la e colher a história. Traficante de drogas, atuante em uma escola da região. Provável acerto de contas. O Plantão continua.

Apesar de corrido, o plantão está em paz. A supervisão está a cargo do C e todos notam a tranqüilidade com que transcorre a noite.

Admissão, medicação, admissão, procedimentos e o plantão vai sem maiores acontecimentos. Na madrugada as coisas se acalmam e temos tempo para conversar, rir um pouco e, obviamente, comentar a paz do plantão.

Uma senhora com uma fratura no dedo da mão que não sabe explicar como aconteceu.

Outra que quer ser transferida para o convenio que já a transferiu para nós por questões financeiras.

Um homem com dor no peito, que só piora na presença do médico…

O AN teve mais trabalho, dois pacientes instáveis que o ocuparam a noite toda.

A noite voa. É meu último plantão com eles, penso em cada um e descubro que vou sentir falta

Da alegria da RSM, dos lindos olhos da PT-R, da simpatia da MC, do humor do ED, da discrição do EN, da “delicadeza” da ML, do falso mal humor do AN, da jovialidade e dedicação da PT-M, da doçura da NS, do carinho quase maternal da N (e do café também), e da DB amiga sentimental, da educação impar do LN, da humildade exemplar da RS e de todos os outros (e outras). Aprendi muito com eles. Vou para uma nova etapa de minha vida, mas meu coração está ficando neste plantão. Tenho vontade de abraçar todos e agradecer por todas as vezes que me apoiaram. Elogiar por todas as conquistas que participaram e rir de novo de cada momento engraçado.

Fim de plantão estou chorando, e não quero que me vejam assim.

Até amanhã.

8 comentários:

  1. acho que o blog merece uma repaginada agora, ja que você vai mudar de plantão. Eu particularmente acompanho seu Blog como se fosse uma série de TV, e isso é como se fosse o fim de uma temporada, e o início de uma nova, e a cada temporada ocorrem mudanças na estética do show.
    É simplesmente uma analogia sugestiva, um conselho. Adoro seu Blog, e me emocionei com o fim do plantão.

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  2. Uma sugestãoo: Facilita as Siglas pros próximos nomes, é meio dificil de lembrar / entender.

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  3. Boa sorte novamente! Você merece, muito sucesso!

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  4. Que bom que se escondeu, você chorando... digamos que não é tão bonito de se ver... hehehe. Despedidas fazem parte,nos ajudam a valorizar o que e "quem" faziam parte. Sucesso na nova etapa!

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  5. Sabia que isso tudo não podia ser somente razão, a emoção desabrochou! Boa sorte nessa nova empreitada. Será que vai ter mais ou menos tempo para o blog?? bjs

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  6. Sucesso nessa nova temporada!

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  7. ESTOU CHORANDO,VOU SENTIR SAUDADES.....BOA SORTE E SUCESSO NA SUA NOVA ETAPA......

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