A Madrugada gelada quase me fez desistir de trabalhar hoje. Por volta das seis da manhã jê estou na padaria da esquina tomando um reforçado café da manhã e observando as pessoas. As 06h40min não tem mais jeito, vou para o PS. É estranho enxergar o PS pela manhã, tudo é diferente, o cheiro, as caras a aglomeração de pessoas junto às portas na esperança de uma notícia sobre seus parentes.
Faço a escala dos enfermeiros, e começo a avaliar a situação enquanto LL, e DN chegam e recebem o plantão. Como sempre temos pacientes no “puxadinho”, isto tem que acabar. Não é um bom lugar para deixar pacientes... Lá estão um rapaz que caiu da bicicleta e uma jovem com insuficiência renal crônica que está com o cateter de Shilley sangrando desde a chegada às dez da noite. Meu primeiro objetivo: Resolver isto. Depois de falar com os cirurgiões e clínicos um cirurgião vascular conseguiu estancar o sangramento após um longo tempo suturando e comprimindo o local.
A emergência está lotada, dois pacientes graves e instáveis. Os outros três poderiam estar no corredor. A LL está se dedicando a isto.
Uma professora do curso técnico está na emergência com quatro alunos, dois em cada sala, é muita gente pra pouco espaço, mas os alunos precisam aprender. Relevo e continuo minha luta diária para organizar a assistência.
A controladora de acesso me chama, tem uma usuária reclamando da auxiliar de enfermagem da medicação. “Começou cedo”, penso enquanto me preparo para ouvir.
- Bom dia, queria fazer uma reclamação. A “Enfermeira da sala 6 é muito mole. Estou aqui há mais de uma hora e não fui atendida ainda.
-Deixe-me ver. Estranho, como a senhora pode estar aqui há mais de uma hora se faz 35 minutos que fez a ficha?
Mais uma para minha coleção de “amigos” saiu batendo o pé, sem dizer uma palavra.
A GR me chama na diretoria. Ela e a RG querem falar comigo. Ao chegar…
- Feche a porta, por favor, J.
- Aff, o que foi agora…
(………………………….)
conversas de portas fechadas não podem ser publicadas, entendam, por favor.
Volto para o corredor e de passagem pela emergência observo que um dos pacientes está parado. Justo aquele que os alunos deveriam estar olhando. Faz cinco ou dez minutos que estive na sala e ele estava respirando.
Chamo o médico e concluímos que não havia o que fazer. Idoso com 94 anos e dois AVCs. Descansou.
Chamo a professora de lado:
- Colega, não leve a mal, mas não podemos deixar uma sala com pacientes graves sozinha. Se eu não entro que horas veríamos o paciente morto?
- Você tem razão. Vou orientar as alunas e me policiar também.
- Beleza...
Mais tarde encontro as alunas transportando o corpo, recém preparado, para o necrotério. Sem um lençol a cobri-lo. Apenas o saco plástico. Passando por uma multidão de olhares assustados e dedos a se benzerem. Seria cômico, se não fosse lastimável.
Ao voltar para o PS chamei as meninas da emergência.
- A responsabilidade é nossa. Não podemos deixar um corpo sair assim.
- Está certo, chefe, responde a AG, auxiliar da sala. Não vai se repetir.
O plantão promete, AD, auxiliar de enfermagem, me chama para tentar um acesso venoso. Sem chance, o paciente não tem mais onde ser furado. Converso com o ortopedista que muda sua prescrição. Tudo via oral ou intra muscular. Mais tarde este paciente começa a passar mal, dispneico, com muita falta de ar. Levado para a emergência, intubado, ventilado e o perdemos. Ninguém se conforma, menos ainda a família. Seu problema era uma fratura no pé. Morreu com insuficiência respiratória. Não ganhamos todas, mas esta não deveríamos ter perdido. Não dá pra entender. Em algum lugar ficou uma ponta solta.
Um paciente transferido da clínica médica, chega a emergência. Não há muito o que fazer a não ser dar conforto. Ele pára e não é reanimado. Antes de preparar o corpo fomos atender a emergência do paciente do corredor e quando volto...
Horário de visitas, filha e neta estão visitando um corpo. Ele já estava morto há dez minutos e nós pedimos que não deixassem ninguém entrar até a liberação. Não adiantou. A filha me aborda.
- J, porque ele está gelado e roxo? Não tem um cobertor?
- Venha aqui, vamos conversar. O seu pai teve três paradas nesta internação, tem 92 anos e cinco derrames. Desta vez não conseguimos trazê-lo de volta. Ele descansou.
Ela me abraça, chora e agradece por tudo que fizemos. Me emocionou quando disse:
J, não tenho o que falar. Vocês, enfermeiros é que realmente cuidam e salvam os doentes. Obrigada.
Pedi que lhe dessem um copo d’ água e sai. Não gosto de me envolver demais. A dor da perda é estranha… Só quem perde sabe.
Não é função do enfermeiro comunicar o óbito à família. Mas o que fazer quando a família encontra o parente morto na cama e você é o único presente?
Não foi a tarefa mais fácil do dia. Mas ainda temos um paciente com HDA que possivelmente está sangrando, já que a pressão está caindo muito rápido. Levado para a endoscopia de urgência, confirmado o sangramento, ganhou um balão esofágico. Transferimos para emergência. Não gosto do que vejo, ele está triste, pálido, resignado.
Fim de plantão, enquanto as meninas passam para o pessoal da noite, me dedico a resolver coisas administrativas. Uma conversa aqui, outra ali. De repente me dou conta de que este foi meu último plantão de dia.
No próximo mês volto para o noturno. Outra mudança. Ótima mudança
Ainda não posso publicar aqui, mas em breve deixarei os leitores a par do que acontece.
Até amanhã
o blog para mim é leitura obrigatória. Adoro
ResponderExcluirVai mudar de novo? Gostamos tanto de vc durante o dia. Nunca vi tanta disposição em resolver as coisas, competencia e conhecimento tecnico juntos. Vou sentir saudades
ResponderExcluirImaginei que voltaria para o noturno, sentiu saudades né?? boa sorte.
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