São 18:00 quando chego no PS. Estou atrasado devido uma longa conversa com a RG, que durou mais que o esperado. Após esta conversa, saio com a impressão de que está na hora de eu mudar. Algumas coisas não mudarão, pelo menos tão cedo. A falta de equipamentos, materiais e espaço físico é contornável. Mas a hipocrisia esta tem que ter estômago para agüentar e eu já tenho minha gastrite.
O corredor lotado, sem macas disponíveis me dá a tônica de como será a noite. Faço a escala e recebo o plantão. Caras novas, doenças velhas, problemas mais velhos ainda.
Emergência cheia, quatro pacientes. A NS vai virar só por um tempo. Sua parceira AL vai se atrasar.
No corredor um venezuelano, encontrado bêbado no quarto de hotel aguarda que os funcionários do hotel venham buscá-lo. Ainda está alcoolizado quando eles chegam e o levam de volta ao hotel.
Uma maca livre é rapidamente ocupada por uma senhora com dores abdominais que pioram a cada visita de um parente. Esta paciente ainda irá protagonizar outra situação interessante esta noite. Ela chegou praticamente junto comigo as 18:00 e como não tinha mais macas foi acomodada na cadeira.
Mais dois para as cadeiras, fratura de braço e mão.
Dois pacientes no corredor aguardam o psiquiatra, esperança de mais duas vagas. Negativo ele veio, avaliou, prescreveu, mas não levou.
Uma professora, fratura de quadril. Falante, simpática. Quer ir para casa. Fez tomografia. Fratura simples, fechada e pequena. Tratamento: repouso a começar por hoje, aqui. Ela argumenta:
- Não posso ir para casa.
- Hoje não. Vamos esperar a avaliação médica amanhã e veremos
- Me mostra onde eu quebrei...
Pego sua tomografia e mostro o pequeno ponto de descontinuidade óssea em seu quadril:
- Bem aqui, está vendo?
- Sim, obrigada. Você é ótimo. Vai ficar a noite toda?
- Sim.
- Então eu fico. Você pode cuidar de mim?
- As meninas são ótimas nisto. Pode ficar tranqüila – respondi como se não tivesse entendido.
- Que pena...
Gritos no corredor, alguém está caído. Uma garota 16 anos. Está com a mães apavorada ao lado.
- Ela engoliu um monte de comprimidos, ajuda ela.
Pulso forte, respiração normal, pálpebras tremendo, adolescente simulando.
- Vamos para a emergência. Família aguarda aqui fora.
Na emergência ao ver o tamanho da sonda nasogástrica e do jelco 14, que eram ostensivamente preparados para ela, a moça “acorda”:
- Onde estou. O que está acontecendo.
- Você é que me diz. Tomou comprimidos? Quantos?
- Moço, eu não tomei nada. Só briguei com meu namorado e estou nervosa.
- Então vamos levantar e andar até o consultório.
- Não consigo (choro)
- Consegue sim. Eu te ajudo.
- Ela caminhou até a cadeira de rodas e a levei. Na volta o porteiro me provoca:
- Mão santa, J? Cura tudo.
- Quer que veja as hemorróidas?
- Sai fora.
Ambulância, transferência de unidade periférica. Paciente idosa e desidratada. Ficará conosco uns dias. A família parece apreensiva. E são muitos. Finjo não ver que trocam a todo instante de acompanhante.
Chega outra ambulância de um PA. Paciente inconsciente saturando muito mal. Oxigênio, exames e medicação. Ao acordar a primeira coisa que faz é evacuar muito. Mas muito mesmo.
As meninas me “chamam” para ajudar.
- Pode deixar a PT-M vai ajudá-las.
- Fugindo né? – brinca a NS
- Não. Escolhendo a melhor parte. Se eu posso delegar esta nobre tarefa, por que fazer?
- Mas você pode ajudar… – ela provoca.
- Arrumo quantos ajudantes você quiser, eu não. (risos)
Realmente, ale da quantidade o cheiro demorou horas para sair. Parece que ainda o sinto.
A NS chama:
J dê uma olhada na paciente da outra sala ela não está bem.
E não estava. Com taquicardia a mais de 160.
- Chamem o médico. Se não reverter ela vai parar. Prepare o desfibrilador.
Não deu tempo. Ela fibrilou e parou, começamos a ressucitação, com dois ciclos e um choque ela estava de volta. Mas iria parar de novo após meia hora. Idosa, 90 anos. Óbito. Saí da RCP chateado, não pela perda da paciente (com 90 anos merece descansar). Mas por constatar que ainda tem médico que não sabe o que faz em uma PCR.
Chamo a família, dou as orientações. A neta me faz perguntas técnicas que se justificariam depois. Estudante de enfermagem quer saber tudo. Oriento que leia o prontuário.
A noite passa rápido. Temos alguns momentos de calmaria. Conversamos sobre família, condições de trabalho. Sobre a greve que ronda o hospital. Estão todos insatisfeitos.
Recebemos os resultados dos exames. O paciente que veio do PA está enfartando. Vai para angioplastia.
A paciente da dor abdominal se levanta, vai ao banheiro e na volta deita-se junto com outro paciente na maca. Confusão ele fica doido. Tiro-a da maca e oriento.
- Mas cabe dois... Esta cama é melhor...
- Senhora, calma. Deixe eu te ajudar...
Não sei se ela esta dormindo ainda, mas é estranha.
Um senhor de 66 anos está enrolado em um lençol com frio.
- Está tudo bem com o senhor?
- Sim meu filho, só frio.
- Não temos mais cobertores, é ruim isto.
- Está ótimo, meu filho. Obrigado. Vocês cuidam bem da gente.
Aquilo me doeu, muito. A RSM tentou arrumar um cobertor, não conseguimos. Restou colocar mais dois lençóis.
Meu plantão acabou. É mais curto hoje. Vou usar uma de minhas ocorrências para fugir do trânsito matinal.
Antes de ir ajudo o AN com alguns exames. Passo o plantão. Acabou.
Até amanhã


Como as pessoas se conformam com isto/ Só de pensar em um paciente com frio dentro do hospital me assusta. Triste, muito triste.
ResponderExcluirOlha NS, eu também pediria para alguém te ajudar se eu puder fugir disto... já fui. Parabéns pelo Blog, leio sempre
Com um pouco de esforço é possível comprar alguns equipamentos e materiais. Agora, quanto à hipocrisia... o que fazer? Quem tem uma solução??? Nem adianta dizer que "estou cansado". Sempre tem pelo menos um no caminho... não é simples de eliminar... Um tipo de "flora residente da enfermagem", as vezes não sai nem com fricção vigorosa... KKKKK
ResponderExcluirO que me incomoda é ser "subordinado" a esta flora residente. Às vezes quero desistir de remar contra a maré mas lembro-me de Séneca que disse:
ResponderExcluirMuitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las.
Este problema (hipócritas) é um câncer disseminado na saúde. Quando maior a hipocrisia maior a chance de ter sucesso (carguinhos)
ResponderExcluirTambém não me arrisco a por a mão na "MASSA" não. Principalmente se for mole e estiver espalhada
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