São 17:30, começa mais uma noite. Sim, a minha noite começa antes das 18:00 e só me dou conta disto quando cumprimento as pessoas pelo corredor:
- Boa noite.
-Boa tarde, enfermeiro.
-Boa noite.
-Ainda é boa tarde, J.
De qualquer forma ao passar pela já descrita porta vai e vem. O Inferno se apresenta ante meus olhos. A visão é assustadora. Não fosse a privacidade dos pacientes postaria aqui algumas fotos para que os leitores tivessem uma vaga noção do que é. Vaga pois foto não tem cheiro.
Passo discretamente por detrás do balcão e chego quase íntegro ao posto de enfermagem. Já estou trocado. Preparo minha bandeja, e vou à guerra. É uma guerra sem vencedores. Mesmo os pacientes que após alta, já curados, se julgam vencedores perderam. Perderam dias preciosos de suas vidas literalmente depositados em um ambiente hostil e patológico. Perderam seus impostos jogados em qualquer lugar ou bolso e não necessariamente usados para o bem comum.
Sentado no balcão inicio minha rotina, ainda são 17:40 portanto tenho tempo de deixar pronta a escala de minha equipe. Entra uma senhora, auxiliar de enfermagem, acompanhada de um rapaz com a mão no peito e queixando-se de dor intensa. Ela tenta passar o “problema” para alguém. Sua colega da emergência sequer saí para ver o paciente e pergunta-lhe:
- Não tem médico lá na frente?
Observo por alguns segundos e ao perceber que ninguém fará nada decido intervir.
- Pode deixar comigo, me traga a ficha dele.
Exame físico, história. Não gosto do que está parecendo. Apesar de o rapaz ter o arquétipo do viciado em drogas baratas (emagrecido, face encovada e senhor pra lá, senhora pra cá) não parece estar fingindo a dor. Peço para fazer um ECG e constato que ele não está fingindo mesmo. Chamo o clínico de plantão.
- Faz AAS, Clopidogrel e Isordil – ele pede.
- Já foi feito.
- Então vamos “estreptar”.
- Ele teve um IAM há pouco mais de um mês. Provavelmente recebeu estrepto. Vai arriscar?
- É mesmo, né? Caramba, acho que vou chamar o IVN. Ele é cardio.
-Beleza. Podemos esperar as enzimas também. Já estão colhidas é só você fazer o pedido.
Pedido feito. Os resultados confirmarão o IAM. “Este rapaz está ficando sem músculo cardíaco” penso.
Recebo o plantão das meninas da tarde. Nenhuma novidade. Mudaram os pacientes e os dramas continuam os mesmos.
- Você sabe quando eu vou operar?
- Não tem um quarto para meu pai?
- Ele vai ficar nesta maca até quando?
- Posso trazer um cobertor para minha mãe?
- Este paciente está sem a prescrição do dia. Já chamei o médico várias vezes e nada – diz a DN.
- E como ele foi medicado?
- Pela anterior.
- Não podemos fazer isto DN.
- Eu sei. Mas ou faço isto ou ele fica sem medicação.
Pego o prontuário, levo até o conforto medico e fala para o EG, cirurgião do dia.
- Se você não quer ir ver o paciente, tudo bem. Mas se não prescrever ele ficará sem medicação à noite.
- Como fizeram de dia?
- Não é problema meu. A noite só será medicado com prescrição do dia.
- Ô cara chato, meu!!!
-Também te amo – sai enquanto ele fazia a prescrição.
Hoje estou escalado nas observações. O corredor está tumultuado, exames para fazer. Pacientes para reavaliar. Outra para levar para casa...
Entre uma correria e outra a noite vai passando. A emergência não pára. O AN fica nervoso, observo-o de longe e concluo que definitivamente não sou o mais estressado do plantão. O LN, responsável pelo corredor hoje, tem uma calma admirável, é calmo sem ser passivo. Gosto dele.
Chega um garoto de 17 anos. Tiro no braço. Sua história não convence ninguém. Mas a mães acredita que ele, correndo de uma briga conseguiu levar um tiro no braço. Pela frente. Projétil não faz curvas. Mãe é cega, porque não quer enxergar. Pai também.
Meu paciente com ascite começa a ter dispnéia. Avalio e acho que ele precisa de paracentese. A DN, clínica do horário, também acha. O cirurgião que veio avaliar também acha. O ED, meu auxiliar na masculina também acha. Mas o paciente não foi drenado. O cirurgião, mesmo julgando necessária, preferiu “tratar” com furosemida ao invés de realizar o procedimento. O paciente vai melhorar após um litro e meio de diurese. Mas com certeza terá que ser puncionado para realizar a paracentese amanhã. (Por que não hoje?)
Quase meia noite e ouço o AN chamando meu nome. Respondo. Mas não era comigo. Ele tentava acordar um paciente homônimo meu. Avaliamos juntos e decidimos levá-lo para emergência. Ele está saturando mal, não responde a estímulos. Chamamos o clínico, depois de duas horas o paciente evolui com parada cardíaca e não conseguimos reverter. Óbito.
Uma paciente que estava na emergência se recusa a sair de lá para o corredor. Diante da insistência do AN ela vai à procura do médico que, para seu desespero, confirma nossa avaliação. Deve ficar no corredor. Ela não se conforma. Decide ir embora. Oriento, entrego os exames e ela sai. O LN e o AN não se conformam com a minha gentileza.
- Você está meloso demais - diz o LN.
- Nem parece você – completa o AN.
- Quem morre por gosto: cova bem funda. (risos)
Um paciente com cirrose hepática está tentando fugir. Falo com ele umas dez vezes, e ele atende. Algo me diz que em algum momento não o veremos mais no PS.
Um idoso japonês esta gritando em japonês enquanto as meninas (RSM e TS) tentam trocá-lo.
- Se vocês soubessem japonês, sairiam correndo daí- brinquei.
- Fui ajudar e consegui, com algum esforço, explicar-lhe que só queremos trocar a fralda. Ele achava que iríamos deixá-lo sem. Por isso não queria tirar a fralda molhada. Limpo e seco ele sossegou.
No “puxadinho” outro oriental com câncer em estágio terminal grita o tempo todo. Medicado com morfina (após termos insistido muito com o clínico) ele melhora e dorme.
Segue o plantão. Avalio e prescrevo os pacientes internados. Durante as avaliações uma ferida infectada me chama a atenção. Merece um tratamento mais cuidadoso. No momento não há muito que fazer. Fecho com “colagenase” e deixo pedido de avaliação. É o que posso fazer por ela neste momento. Mas não estou satisfeito. Mesmo após chegar em casa, ligarei para cobrar materiais para este curativo. Infelizmente eu sou assim.
Hoje eu vou sair mais cedo, de novo.
É minha última ocorrência do mês. Mas estou de folga no próximo e depois só resta um plantão.
Passo os casos para o RN, que estava na classificação e entrou para ajudar.
- Por favor, cobre a avaliação do curativo do leito 02
- Beleza, você pode trocar uma folga comigo?
- Troque aí. Só não o dia 21.
- Tudo bem, obrigado.
- Até segunda.
Até segunda.

Os bons enfermeiros podem não durar muito... Se esforçam para fazer seu trabalho da melhor forma e ainda tem que implorar para outros profissionais fazerem o básico... No final, são chatos! Ô mundo injusto viu!!!
ResponderExcluirChato ele é. Viu Heloisa? Mas que o cara é bom isto ninguem discute... mas bnão vou falar muito naõ pra nao encher a bola
ResponderExcluirmuito massa o blog!estou sempre por aqui lendo os relatos do dia-a-adia de um enfermeiro do PS!sou novo na área,e trabalho num PS de um hospital de referência no Estado do Tocantins!ao ler os posts,sinto-me no lugar do J!heheh!continue os relatos diários!sempre nos ajudar e nos faz refleti de muitas coisas na nossa profissão!
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