Após um dia cheio, devido ao final do curso e prova de ACLS, chego ao hospital por volta da 17:30. Minha primeira preocupação é saber o resultado do jogo a fim de ter munição para provocar os colegas logo de cara. Me dei mal, o jogo estava e continuaria 0 x 0 até o seu final.
Registro meu ponto, retiro o uniforme privativo na rouparia e vou para o PS. A porta vai e vem mostra-me uma cena assustadora daquelas que a vontade é sair de fininho, sem ser visto e voltar para casa. Está tão lotado que o puxadinho, onde não deveria ter ninguém, está com quatro macas. Avalio a situação quando uma auxiliar de enfermagem se aproxima:
- Está um inferno isto aqui, enfermeiro, não tem mais onde por ninguém.
- Adoro.
Olho a escala de enfermeiros, estou na triagem novamente. Mas desta vez não preciso ficar. Desde os últimos acontecimentos ficou acertado que nós, enfermeiros, podemos trocar de postos sempre que julgarmos necessário. Sem a “autorização” da AB.
Recebo plantão e mal o RN chega já pergunto se ele não quer ir para a classificação de risco em meu lugar. Ele gosta de lá.
- Claro.
Começou a brincadeira, rapaz 19 anos, caiu com a moto. Acaba de ser avaliado pelo RD, cirurgião de plantão. Seu amigo está visivelmente contrariado com ele.
- Vacilou, caiu de bobeira e agora fica dando trabalho.
Decido fazer sua admissão, chegou há horas e ainda não recebeu nenhum analgésico. Ao puncionar a veia ele reclama de dor.
- Puxa, isto dói.
- Poderia ser pior – respondo com um sorriso.
- Como assim?
- Eu poderia estar sem óculos.
Eles riem, colho os exames e o levo à radiologia.
Raios-x, exames e o diagnóstico, fratura de costelas. Vai ficar de molho uns dias, mas ficará bem.
Junto a sala de emergência, outro paciente, queda de moto. Está em melhores condições que o primeiro. Raios-x, reavaliado e alta.
Uma garota de 16 anos entra no PS, está hiperventilando e gemendo alto. A acompanhante, alterada, grita que ela está morrendo. Decido não dizer nada. Peço para as meninas, NS e AL, escaladas na emergência hoje, atenderem.
Após verificarmos os sinais confirmamos o que já sabíamos, não tem nada. O LM, clínico, prescreve duas injeções e libera.
Estou voltando do Raio x e encontro um GCM empurrando uma maca. O rapaz sobre ela está estranho, sudoreíco e com a fala pastosa.
- O que aconteceu?
- Ele tomou um vidro de chumbinho.
Levo para emergência…
- Sonda nasogástrica 20. Acesso venoso. Soro de 1000 para lavagem. Soro de 500 para a veia. Chamem o clínico. Monitorizem por favor.
Enquanto as meninas preparavam o material o LN foi chamar o clínico, que disse que já viria. Passei a sonda, a AL demonstrou ter bastante habilidade para o acesso venoso. Está um pouco nervosa. É seu primeiro dia na emergência. Vai sobreviver.
Em instantes o paciente de 32 anos estava com sonda, acesso venoso, monitor cardíaco e lavagem gástrica. Está com 37 batimentos por minutos. Olho para a NS e disparo:
- Vá até o consultório diga ao Dr LM que eu disse que é para ele vir AGORA. Não discuta com ele, apenas diga isto.
O efeito foi o que eu esperava, o LM chegou um passo atrás dela. Há certo preconceito por parte de alguns em atender tentativas de suicídio. Também não gosto, mas ele está aqui se eu não fizer o meu trabalho estou cometendo um crime. Pior que o dele.
Após a atropina, que seria mantida a cada 15 minutos durante todo o plantão, o paciente consegue conversar comigo. Seu batimentos cardíacos estão em 70 por minuto e a lavagem gástrica foi efetiva. Conta-me que está sob pressão. De um lado a ex-mulher cobrando pensão e dificultando a visita á filha do casal. De outro a atual, cobrando atenção e um rompimento de relações com a antiga família. Motivos à parte lá fora estão as duas mulheres, a filha, a mãe e mais algumas pessoas. Pedirão informações durante toda a noite. Estes casos não costumam ter bom desfecho, mas passaremos o plantão com ele consciente, orientado e conversando.
Outro SAMU, outra queda de moto.
Outro bombeiro, outra queda moto.
Outro SAMU, outra queda... da própria altura. Mulher alcoolizada. Bebeu todas e mais algumas. Irá fugir do hospital antes de ser vista pelo psiquiatra. Mais tarde voltará, arrependida, que passar no médico.
- Agora faz a ficha e pega a fila.
Uma senhora com a maior calma do mundo me aborda:
- O Sr que é o J?
- Sim.
- Pediram para lhe entregar isto.
Era um eletro. Com registro 210 batimentos por minuto.
Emergência, monitor, oxigênio e veia. Ficará durante quase toda a noite. Somente às três da manhã seus batimentos chegarão a 100. Após receber amiodarona a fazer manobras vagais. Recebe alta com orientações para procurar seu cardiologista.
O corredor está lotado. Ainda assim me divirto. Corremos, ajudamos uns aos outros e rimos de algumas situações.
O LN sai para jantar. Na volta traz uma marmita de sua casa para mim. Fiquei muito feliz com o gesto. Comi e voltei para a batalha.
O plantão transcorre normalmente, mais dois ou três atendimentos do SAMU, quedas de moto. Dois dos bombeiros: quedas de moto.
- Estão fazendo boliche de motoqueiros por aí? – Pergunto ao sargento dos bombeiros - Oito hoje.
- Isto sem contra os que não vieram para cá. O Geral está lotado.
- Cinco da manhã. O LN me chama:
- Você é a última tentativa. Acorda esta senhora – diz apontando para uma paciente que até o início da noite estava bem.
Levamos parta emergência. Não responde a nada. Não tem reflexos. A saturação de oxigênio está baixa. Seu escore na Escala de Glasgow é 03: Coma irreversível.
- LN, acho que ela teve um AVC-H. Na nossa cara e dormindo. Por isso ninguém percebeu.
Foi o último caso do plantão. Ao sairmos do PS a paciente ainda aguardava uma avaliação mais profunda e o exame de tomografia que, tenho certeza, confirmarão minha suspeita.
- Nossa que plantão corrido, diz a AL
- Que bom, voltamos à rotina.
Quando estou saindo a esposa do paciente com intoxicação exógena me aborda:
- Moço, como ele está?
- Melhor, mas ainda corre risco.
- Obrigada, obrigada mesmo. Se não fosse você e as meninas ele não estaria mais aqui. Se ele for não será por falta de atenção
- De nada.
A filha, uma garota de 07 anos, segura a mão da madrasta pergunta para mim:
- Porque você colocou aquele negócio no nariz do meu pai e aquela televisão?
- Por que precisou. Seu pai tomou remédio errado e agora está passando mal. Depois a gente tira.
- Tá bom. Ainda bem que vocês tiraram tudo. né?
Não consegui responder. Dei um sorriso, fiz um carinho em seus cabelos e me afastei com um nó na garganta.
Até amanhã.

Agora sim o plantão do jeito que você gosta! E cada dia me convenço mais que andar de moto não é uma boa idéia...
ResponderExcluirAdoro o Plantão. Parabéns
ResponderExcluirHum, já estrava com szaudade dos plantões
ResponderExcluirMoto, moto, moto
ResponderExcluirUma coisa me intriga; Você vai aguentar até quando. Eu já teria me mandado daí...
ResponderExcluirPor isso eu digo...Louco quem anda nessa coisa "MOTO" Ahhh!!!incluindo vc e meu marido nessa...Beijão, adoro o blog.
ResponderExcluirTambém sou Enfermeira de hospital público, e vivencio esta mesma loucura....rsrsr...Parabéns pelo blog :)
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