sábado, 12 de março de 2011

Sexta-feira: Entre dores e odores

odores Seis e quinze da tarde (ou noite, como querem alguns) chego ao hospital, já atrasado pelos meus padrões. Atrasei-me prestando socorro a um motociclista derrubado na marginal do rio Tietê. Chego, passo pela diretoria onde tenho que retirar o material para estudo do ACLS e vou direto ao Pronto Socorro. Ao chegar à porta vai e vem não sei por que lembro o apelido dado a ela pela Hl, eterna melhor amiga e leitora assídua do blog: “Porta do Inferno, é passar e abraçar o coisa ruim.” Dou risadas e entro rindo no PS o que faz com que meu colega do dia pergunte:

- Endoidou, J. “tá” rindo do quê?

- Nada, deixa prá lá, respondo ainda rindo.

Estou com dor de cabeça e febre. Gripe ou resfriado, não sei. O que sei é que agora não dá pra ficar com frescura. Tomo o “benegripe” e encaro a noite.

Troco de roupas, o An chegou mais cedo hoje, já fez a escala. Estamos com poucos auxiliares e o telefone já tocou por três vezes com auxiliares dizendo que não vem. Vn e Ld estão doentes ou melhor, apresentarão atestado médico, a Al bateu o carro e o PS tem que funcionar. Ser enfermeiro nos obriga a conviver com esta angústia. Fazer funcionar a qualquer custo. Enfermeiro é o único profissional que conheço que faz de tudo para tocar o plantão seja qual for a situação que encontra. Mas esta cordialidade funcional às vezes cansa.

Mexemos aqui e ali, e temos uma escala minimamente satisfatória. Recebemos o plantão e vamos encará-lo porque fugir não dá mais. Já que está no inferno…

O corredor está lotado. Na emergência temos um paciente e as meninas que deveriam assumir ali ligaram. Vão se atrasar hoje (todos temos direito a duas entradas postergadas ou saídas antecipadas no mês). Assumo a emergência e o An fica com a parte “de fora”.

Logo no início o paciente da emergência, com síndrome hepato renal (o mesmo que, de tão amarelo, brilhava no plantão passado) pára. Preparo o material, início a massagem e chamo o HB, clínico de plantão. Nada mais a fazer. Começamos mal. Agora a emergência está vazia. Já parei de contar os óbitos do ano. Vou preparar o corpo, faz algum tempo que não faço isto. Aliás, faz muito tempo. A Db, vem me ajudar e aproveitamos para conversar sobre seus problemas com a chefia. Todos resolvidos, que bom. Enquanto preparamos o corpo chegam as atrasadas P e Ns, assumem a emergência e levam o corpo ao morgue.

O plantão parece ser calmo. Os clínicos não estão internando muito isto me dá tempo para passar visita no corredor. Quase todos os pacientes são da Ortopedia. O rapaz que caiu da moto e quebrou a perna de novo ainda está aqui, faz dias que espera pela cirurgia. Ao seu lado outro rapaz com fratura e rompimento de tendões da mão, também está aqui há mais de cinco dias. Não deixo de sentir pena, mas logo caio na real e volto à minhas visitas. Uma senhora, fratura de ombro, quatro dias aguardando. Todos na maca com um colchão de menos de cinco centímetros de espessura sob suas costas. O paciente da perna me chama e pede apontando para uma maca cujo paciente acaba de sair de alta.

- J, me deixa mudar para aquela maca ali. O colchão é mais grosso. Olha minhas costas não agüento mais.

- Vou mandar limpar e mudamos você.

Mal a maca foi limpa e ele já estava sobre ela com a garantir um prêmio recém conquistado.

O plantão flui. Corrido, mas com poucos tumultos. An e eu trabalhamos bem juntos. A divisão de trabalho e responsabilidades é equânime e não sobrecarrega nenhum dos dois.

Reclamo com o An, demos folga ás duas Ml e N, e não ficou ninguém para fazer o café. Ele ri.

Somos chamados na soroterapia, um paciente está convulsionando. Chegamos lá e constatamos que não é convulsão. Ele está se contorcendo de dor. Olho a prescrição e observo, ele chegou às seis da tarde, mas seu medicamento foi “aprazado” para as 22:00h com olhar An e eu decidimos o que fazer. Medicamos e deixamos para conversar com o auxiliar depois. (O mesmo do erro de medicação do plantão passado)

Primeiro, e único, resgate da noite. Os bombeiros trazem uma senhora com “falta de ar”. Pedem uma maca e ajuda. Justificam que será difícil tirá-la da viatura, logo vou entender porque: 230 quilos, muito mal distribuídos (se é que tem como distribuir 230 kg). Recebo, ausculto, acho que é edema agudo de pulmão. Punciono uma veia e chamo o HB. Ele concorda.

- Vamos enxugá-la”.

-Tudo bem, mas prescreva uma sonda vesical antes.

-Não precisa.

-Então vou te chamar para me ajudar a trocar as fraldas dela.

-Opa, já “tá” pedido. Passe a sonda

Passei a sonda. Confesso que não foi fácil. Duas  auxiliares para afastar as pernas da paciente, e ainda assim tive quase que subir na maca para achar o local certo, limpar e introduzir a sonda. Ao terminar o Ed, solta a dele:

- Parabéns, você é um herói.

- Se não errei esta não erro mais nenhuma. (risos)

Algum tempo depois, ela está compensada. Bem humorada, diz que está um pouco acima do peso. Arrumo uma cama maior e a retiro da emergência. Só aguardar o seguimento.

Hora do jantar, chamo a P para jantar comigo “já jantei”, a Ns nem adianta, traz a comida e janta no carro. Chamo a Db. “Não quero comida, quero coisa gostosa”. Convenço-a de que o melhor é jantar e fomos. Peixe com pirão e nada gostoso.

De volta ao PS o An vai jantar. Telefone. Estão mandando um paciente de outra unidade com Infarto. Preparo a emergência para recebê-lo. No mesmo instante a Ab, surge com a notícia de que subirá um paciente que está “vomitando escuro”. Chega o paciente do infarto; apenas com auxiliar de enfermagem, sem monitorização, sem exames. Ligo para unidade, questiono minha colega que tenta justificar a conduta, mas não tem em mim um ouvinte muito compreensivo. “Ok, eu vou relatar as condições em que ele chegou e você justifica depois”.

Ao mesmo tempo, sobe o paciente da clínica, está vomitando sangue e com diarréia (haja diarréia) também com sangue. Pede desculpas pelo seu estado e eu brinco. “Não liga, a vida é uma m..., mesmo.” Ele ri.

O odor é insuportável. Procuro uma máscara, nenhuma á mão. Cheguei a nausear.

A Rsm, o prepara para um banho, não há como cuidar dele, neste estado. Eu sei, mas fico contrariado: “Primeiro devemos acabar os cuidados do IAM, depois cuidamos de higiene, prefiro dois vivos sujos que um morto limpinho” (ás vezes eu pego pesado, tenho um ritmo próprio de trabalho e acho que todos têm que acompanhar).

Depois de algum tempo, os dois estão cuidados e estáveis. O paciente do infarto é muito tranqüilo. Sessenta e sete anos, simpático. Nunca ficou internado. Achei que teria um monte de efeitos colaterais da streptoquinase, nada.

Um paciente, que aguarda na recepção, entra em crise convulsiva. Coloco-o em uma maca. Punciono acesso. Passada a crise, o HB resolve não “hidantalizar”. Eu disparo:

- Ele vai convulsionar de novo.

- Não vai, diz ele. Vamos colher os exames.

Três da manhã. O paciente convulsiona à espera dos exames. Punciono outra veia. Medico com diazepan, e chamo a LC, clínica do horário.

- E aí?

- Prescreve o diazepan, que eu já fiz e o hidantal. Por favor

-Quanto?

- Três ampolas em 250 de soro. Deixa 100mg de oito em oito. ( As vezes “sugerimos”)

-Feito, não estou acostumada com PS. Muita correria.

-Nem eu.

Rimos e fomos tomar um café juntos. Simpática a moça. Este é meu segundo plantão com ela.

Volto ao PS, a P fez café. Eu já tinha reclamado da falta de café umas dez vezes. O café dela é realmente bom, está gostoso.

Noite tranqüila, vai chegando ao fim. Ainda temos uma difícil tarefa. Comunicar ao auxiliar que trocou as medicações que ele está suspenso nos próximos plantões. Decisão da Rg, diretora. Conversa tensa. Ele não admite que esteja errado. Tentamos, de todas as formas, mostrar-lhe que seus argumentos não convencem. Nada. Desisto, não é mais criança. Aliás é mais velho que eu.

Fim de plantão. O An já foi. Ele sai às seis.

Preparo o censo. Passo o plantão.

Foi corrido, mas divertido e tranqüilo. Nem lembrei da gripe.

Até amanhã.

4 comentários:

  1. Como sempre tudo de bom, adoro este blog

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  2. Tenho muita dó desses pacientes da ortopedia e pelo que tenho observado falta de ortopedia é um problema crônico na rede pública!
    E o blog está cada dia melhor!

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  3. Vou até ali dar uma choradinha e volto já... O caso da paciente que chegou de ambulância me faz lembrar o última pesquisa divulgada na "TV aberta" esta semana: No Brasil, 44% das mulheres e quase 54% dos homens estão acima do peso. Teremos cada vez mais pacientes chegando ao PS com IC descompensada e IAM, como se a estatística já não fosse alarmante... Você vai praticar e muito os conhecimentos que vai apreender no "ACLS".

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  4. NEM ME CONVIDOU P JANTAR.............

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