quarta-feira, 2 de março de 2011

Entre pacientes e goteiras…

goteiras

Após uma semana de folga, retorno ao hospital. Chego cedo, tomo um banho pára tirar o cheiro da capa de chuva e me dirijo à sala da Rg. Conversamos sobre uma das auxiliares que está tendo problemas com a gerência. Esta cada dia mais difícil defender a Db. Ela não consegue entender o famoso ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. É ridículo, mas verdadeiro.

Na saída encontro a Gr, ela me previne da situação do Pronto Socorro, acho que não me assusto mais.Conversamos amenidades e vou logo para o PS, seis da tarde e já estou atravessando a porta vai e vem. À minha frente um cenário assustador. Macas e pacientes em cada canto. Mas ainda vejo duas macas vazias. Estranho, duas macas são o suficiente para o enfermeiro pensar: “Ainda tem vaga”.

A sala de sutura está em outro lugar, mais tarde vou descobrir o motivo: o corredor da sutura está cheio de baldes para aparar as goteiras que brotam do teto. Quem conhece hospital e está lendo isto pode achar impossível, mas não é. Havia pelo menos seis baldes no corredor. Não bastasse, no corredor da medicação não havia baldes, a água caia livremente em panos espalhados pelo chão e os pacientes espremiam-se junto à parede para não ter as cabeças atingidas pelos pingos que despencavam do teto. “Os hospitais de campanha tem mais condição que isto aqui”, pensei.

Vamos á escala. Desta vez, fiquei encarregado de confeccionar a escala mensal. Está pronta. Mesmo assim tenho que adequar à realidade. O Ad e a Jn estão afastados por licença médica o Rn abandonou de vez o trabalho, a Lc foi transferida para a ortopedia... Ainda temos duas de féria Ml e Al. Resumo da ópera (ou do samba); Dois no corredor, um em cada sala de medicação e vamos torcer para dar tudo certo. Recebo o plantão. Não bastasse a falta de auxiliares a emergência está cheia, temos cinco pacientes em quatro vagas; Uma senhora de 74 anos com HIV e mais outros sete ou oito diagnósticos, outra de 54 com dor torácica, um senhor de 48 com insuficiência renal, uma moça, 24 anos, que tentou suicídio (comprimidos), um senhor de 57 pós operatório de laparotomia exploradora e duas auxiliares, P e Ns, para cuidar de todos e ainda ajudar no corredor que literalmente ferve.

O An me liga: Não poderá vir hoje. Isto me deixa só no plantão, pois acabo de descobrir que o Ln está de folga e o Rn de férias. Legal.

Começam a chegar meus auxiliares, brincadeiras quanto ao número de dias que fiquei em casa, beijos, abraços, despedidas e o PS é nosso.

O Ed assume o corredor com a N, e já assume com três lavagens intestinais para fazer. Incrível como ele consegue ter bom humor com isto. É só não apressá-lo como ele mesmo diz “Até as sete vou fazer tudo que conseguir”.

Começo a ajudar nas admissões, temos três para fazer. Forro uma maca e quando vou deitar o paciente... A N já deitou outra. Preparo outra maca. O paciente um senhor de 45 anos alto e forte, após beber o suficiente, caiu, bateu a cabeça, fez um traumatismo e está muito confuso. Converso com a esposa e peço para que ela fique junto dele, pois se resolver levantar, ninguém segura. Encaminho-o para a tomografia e medico. Ele ficou calmo. A esposa pede para ir em casa ver os filhos menores, ele dorme… Ótimo.

Enquanto isto o Ed explicava para o primeiro paciente o procedimento da lavagem: “Não, o senhor não vai tomar nada. Vamos colocar isto aqui lá atrás e deixar pingar”. Enquanto o Ed fazia a primeira lavagem outros dois que aguardavam desistiram. Um ainda disse: “Não vou tomar soro no c*, não. ‘Tô’ fora”. Nem tive tempo de explicar nada. Ele foi embora.

Sou chamado à frente do PS. Um cidadão inconformado com as goteiras fez-me um discurso de seus direito, dos impostos que paga, etc., etc. Não acho que ele está errado. Mas c****, tinha que escolher logo a mim para desabafar? Quando ele me deixa falar dou-lhe as opções de reclamação do hospital e oriento-o a voltar para seu lugar na fila. Pois, enquanto falou, passou na frente de quatro pessoas.

Chega uma garota na sutura. A aliança de compromisso está apertando seu dedo. Peço dersani e fio de sutura... Acho que ainda sei fazer isto. Alguns minutos e gemidos depois o dedo está livre.

Meia hora depois alguém chama de novo. “Quero saber onde está o médico?”. A noite promete. Explico que não sou chefe dos médicos e oriento a procurar a administração. Enquanto a cidadã, pagadora de impostos, exibe seu vasto vocabulário de palavrões e injurias afasto-me contando as goteiras no teto… Trinta minutos depois a pessoa está sentada no consultório onde passou uns dois minutos e saiu sem dizer uma palavra de insatisfação.

A água continua a cair do teto.

Uma mulher de 32 anos entra na sala de emergência. Crise asmática. Inalação. Está grávida, não há ginecologista no hospital. Melhora com a inalação. Vai para o consultório. Avaliada, liberada com orientação de procurar o serviço de obstetrícia do município.

O plantão transcorre tranquilamente. Muitos pacientes, mas nada de muito grave. O que atrapalha é a grande quantidade de medicações. Dez da noite chega o Ln, a Ab ligou para ele. Assim vai ficar mais fácil.

A moça da tentativa de suicídio é liberada da emergência. Quer ir embora. Explico os riscos, mas ela quer ir embora. Oriento novamente.

Mas tarde ela pede para ir ao banheiro e... Foi.

Chamam-me na soroterapia, dificuldade em conseguir colher sangue de uma paciente. Ao chegar o filho me aborda. “Enfermeiro, não pode deitar minha mãe? Ela sente muitas dores”. “Não temos macas”, respondi. Ao ver a paciente me senti muito mal. Ele tem filariose. A perna estava do tamanho de meu tronco. Para completar contraiu erisipela. Estava com febre e gemia de dor. Peço para a Rd buscar uma maca no centro cirúrgico, coloco a paciente e encaminho para o corredor. Ela precisa de uma cama. Mas a maca é tudo que posso oferecer agora, além de uma atenção maior. Colhi seus exames, peguei os resultados e fiquei no pé do RB para que ele fizesse uma prescrição “decente” já que seu colega mal tinha olhado para ela.

Um rapaz com a perna fraturada geme baixinho. Aproximo-me e descubro que está com muita dor. Medicado, ele consegue dormir um pouco.

O café da N é um bálsamo neste plantão cansativo. E com o friozinho da noite, fica melhor ainda. Ainda conseguimos conversar e rir um pouco. Não tivemos nenhuma emergência. Uma intercorrência aqui, outra ali. Mas o saldo foi positivo.

Enquanto conversamos penso nos problemas da P e Db. A P, por inexperiência , jogou uma roupa de paciente, que estava toda suja de fezes fora. É claro que a família apareceu dizendo que havia dinheiro junto à roupa. As meninas negam, mas isto vai dar dor de cabeça. Alguém consegue saber que o outro tinha exatamente R$612,00 no bolso, quando passou mal? Não vi a cena, foi na minha folga e portanto, não posso ajudar muito.

A goteira continuava a castigar os pacientes no corredor da medicação.

Seis da manhã os bombeiros entram com uma maca. Sobre ela alguém que dormiu ao volante e derrubou um poste. Avalio, corte na cabeça. Faço a tricotomia, chama o cirurgião, sutura e fim de plantão.

Ainda vou passar minha última raiva. A Ab, já no estacionamento, me mostra a escala de folga. Estou de folga no próximo. Não é possível que escala seja uma coisa tão complicada de fazer assim...

Saí tão contrariado que esqueci uma coisa importante...

Converso com a P:

-Vai ficar aí? Pergunto.

-Sim, tenho que conversar com a Gr

-Qualquer coisa me liga

-Beleza.

-Até sábado.

6 comentários:

  1. Conheço essa história de goteira, dentro de consultório, no meio do corredor, na sala de curativos, um monte de balde várias cores e tamanhos (o que é possível arrumar)e para completar vários panos para enfeitar o ambiente!
    Depois de um plantão desse e uma escala de folga detestável não tem problema esquecer alguma coisa...

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  2. Conta uma coisa prá nós.... Vc não pega ninguém?

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  3. Fala sério, cada dia que passa fico com a impressão que este lugar não existe (rsrs)Não estou duvidando de vc nao. Fico é com pena. Como vc aguenta?

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  4. A porta vai e vem é uma espécie de porta do inferno né? Depois que você entra só resta abraçar o capeta... ... hehehehe

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  5. Putz, este lugar é de dar medo. O pior é que é a realiade. Viciei no blog, visito todo dia e indico para meus amigos

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  6. Que legal!! Adoro o blog. Tem como publicar fotos?

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