segunda-feira, 14 de março de 2011

Domingo inesquecível

 trem-lotado Domingo, trânsito tranqüilo. Chego cedo ao hospital. São Seis da tarde quando atravesso a porta do Pronto Socorro, lotado. Há um clima de cansaço no ar. Auxiliares e Enfermeiros deixam transparecer em seus semblantes os resultados de quase doze horas de trabalho estafante.

Vou direto para a escala, tenho problemas sérios para distribuir os funcionários. É uma conta que não fecha. Ou sacrifico os auxiliares deixando um onde deveriam estar dois ou até três ou simplesmente não há como cobrir todos os setores. Meus colegas do dia estão com problema semelhante ou pior. Não há como exigir muita coisa na passagem de plantão. Estamos priorizando as medicações e deixando de cobrar tudo o que for a mais que isto. Não deu para trocar o curativo? Tudo bem. Banho? Apenas se for estritamente necessário.

É angustiante, para alguém que se propõe a cuidar de gente, aceitar esta situação.  Há um clima de revolta no ar. Enfermeiros se reúnem, confabulam e expressam sua indignação. Auxiliares verbalizam sua revolta e cansaço. Não sei onde isto vai parar.

Recebo o plantão. Há algo em torno de 25 a 30 pacientes no corredor. Entre eles uma paciente com meningite que está “isolada” na sala da antiga psiquiatria, hoje sala de procedimentos.

Na emergência temos três, incluindo o paciente que teve hemorragia gástrica no último plantão (Ainda não resolveram o problema dele). Voltando ao corredor observo que o rapaz da perna fraturada continua aguardando cirurgia. Mais de quinze dias em uma maca. Ele não agüenta mais e a equipe não o agüenta também. Já está recebendo adjetivos como chato, chorão, tigre, etc. Não sei como eu reagiria em seu lugar. É difícil se colocar no lugar de alguém. Principalmente quando este alguém está sob seus cuidados e você apesar de todo esforço não consegue agradá-lo. Simplesmente por que não pode fazer nada mais a respeito.

Meus auxiliares estão atrasados. O Ad ligou. Não vem. Ficará afastado por dois meses após contrair tuberculose. Estou começando a ficar preocupado com o plantão. Ed ligou, vai chegar atrasado, desta forma estou sem ninguém para assumir o corredor. Meu parceiro de hoje é o AN, isto é um consolo. Conseguiremos sobreviver?

Começamos o plantão tentando entender o que acontece. Priorizo aqueles que não tiveram nenhum atendimento ainda, protelo alguns procedimentos como repuncionar veias e trocar lençóis.

Sete e vinte, o Ed entra pela porta do PS e eu provoco;

- Você chama isto de atraso, quando for atrasar se atrase de verdade não apenas para me deixar preocupado?

- É. Só um pouquinho. Mas se quiser eu volto.

Agradeço que ele tenha vindo. Agora somos ele e eu no corredor. O AN ligou, chegará mais tarde também. A AL não vem. Está de licença médica. Remanejo a ML para seu lugar e vamos “tocando”.

Primeira Emergência; Mulher, 50 e poucos anos, câncer de pulmão em estágio avançado. Está com falta de ar e dores. Ainda não temos clínico da noite. Colho os exames, coloco-a no oxigênio e ela fica mais confortável. Vai melhorar logo e irá para casa durante a madrugada. Não quer ficar no hospital. Eu entendo. A família, nem tanto. Na emergência está a dupla do mês P e NS, gosto do trabalho delas. Preciso lembrar-me de dizer-lhes isto, pois cobro demais, não interessa o quanto esteja cheio. Às vezes, esqueço de elogiar.

Com a chegada do AN o plantão começa a ganhar ritmo, assumimos alguns procedimentos, a P e a NS deixam a emergência e vem para o corredor ajudar.

Um paciente em todo amarrado à maca me pede para que o deixe urinar. Faço uma breve avaliação e concluo que ele pode ser solto, solto uma das mãos e lhe forneço um papagaio. Vou arrepender-me profundamente deste ato. Dez minutos depois ele se solta completamente, urina no chão e torna-se confuso e agitado. A DB olha para mim e prepara o material para refazer a contenção. Após contê-lo, fico a seu lado, preparando-o para uma punção venosa quando ele sinto algo entre minhas pernas, ele agarrou-me por baixo e entrou em crise convulsiva. No primeiro momento achei que ele estava consciente e brinquei:

- Moço, larga disto. Vou precisar no final de semana.

Mas ele apertou ainda mais e começou a tremer, enquanto eu gritava por ajuda. O AN, do outro lado do corredor perguntou rindo:

- O que foi?

- O cara está apertando meu s***.

Ele vem ajudar, me solto e vou ao posto de enfermagem com uma dor indescritível ainda solto mais uma:

- A tremidinha até que é gostosa, faz apertou demais. Se eu falar em soltar mais alguém hoje, vocês me amarrem.

Rimos e voltamos ao trabalho.

A DB me chama para comer esfihas, não posso ir na hora. Estou estressado com o trabalho. Parece que não anda. Ela fica brava por eu não ter-lhe dado atenção e faz bico, diz que não chama mais. Mais tarde, pede para a M me chamar e vamos comer.

Mal acabo minha esfiha e um Auxiliar de Enfermagem do SAMU, já conhecido da equipe, chega à porta:

- Boa noite, chefe. Intoxicação exógena. Tomou uma cartela de diazepan e está saturando 87%.

- E você me fala isto com esta calma?

Corro para a emergência. P e NS vêm me ajudar. Passamos a sonda nasogástrica, puncionamos veia. A paciente de 40 anos, mãe de seis filhos, tomou uma cartela de benzodiazepínicos após o namorado ter rompido o relacionamento. Observo-a e não o culpo. Admiro o fato de ele ter começado o relacionamento. Peço para a NS chamar o médico, ela foi.

-Já chamei. Ele nem se mexeu.

Dez minutos depois estou no conforto médico:

- Dr, a auxiliar não veio chamá-lo?

- Para ver a mulher que quer se matar?

- Não. Para ver a paciente com intoxicação exógena.

-Preciso ir lá para dizer o que você tem que fazer? Você já sabe tudo.

-Não precisa ir para dizer o que tenho que fazer. Precisa ir fazer o teu trabalho. O meu está sendo feito e não inclui ficar correndo atrás de você.

-Xi... Deixa-me ir. Ele está afiado hoje.

Ele vem. Faz a prescrição e ouve um irônico “Muito obrigado” de minha parte. LM é bom médico, mas às vezes leva as coisas na brincadeira, demais.

Duas horas depois a paciente está estável, fora de perigo e reclamando da sonda. Pronta para outra.

A noite avança rapidamente. Uma dor aqui, uma reclamação ali. Nossa equipe é muito boa. Já estamos com as medicações e cuidados em ordem. A Ab conseguiu que um auxiliar da psiquiatria fizesse extra. Ele assumiu a observação masculina. Assim a N pode vir para o corredor com o ED.

Duas da manhã. Resgate. Paciente esfaqueado no tórax. A lâmina perfurou o pulmão. Enquanto é submetido à drenagem, percebo o linguajar próprio da cadeia. É senhor prá cá, senhora prá lá. Parece a pessoa mais educada do mundo. Sem uma arma na mão.

Colhemos a história. Brigou com a mulher e a espancou. Após a briga, pegou carona com o cunhado e como ele estava “dando razão” para a mulher, espancou-o também. O cunhado reagiu e cravou-lhe uma faca no peito. O cunhado está muito machucado e senda trazido em outra ambulância.

Chega o cunhado, o rosto todo desfigurado. Inchado, o maxilar parece fraturado. Está respirando mal. Limpo e aspiro sua boca. Coloco oxigênio. Vai ficar bom. Feio, mas bom.

Levamos o esfaqueado para radiologia e, na volta, ele surtou. Passou a mão no seu dreno e saiu do hospital. Não vai ficar. Tentamos conversar com ele, sem sucesso. Não quer correr o risco de dar explicações à polícia. Não sei como vai se virar com o dreno. Pego o prontuário e registro os fatos. Isto ainda vai me dar dores de cabeça. Terei que ficar até as dez da manhã providenciando papéis devido ao risco de morte que o “cidadão” corre.

A correria foi boa. O plantão está acabando. Nada mais acontece. Nem um “pitizinho” para alegrar a madrugada.

Me preparo para passar o plantão. Quando entro na observação masculina vejo o auxiliar da psiquiatria perdido em meio a um monte de fraldas sujas. Não sei onde começa o auxiliar e onde terminam as fraldas. Chamo a equipe e peço para que ajudem o rapaz. Damos risadas da situação. O menino se enrolou todo e ficou envergonhado para pedir ajuda ao final pergunto-lhe:

- E aí. Gostou do PS.

-O Sr quer a verdade?

- Não. Deixa pra lá.

Passo o plantão. Converso com a MN, enfermeira. Faz tempo que precisamos conversar sobre alguns “diz-que-me-diz” . Colocamos os pingos nos is e zeramos os problemas.

Fim de plantão, ainda sinto a “pegada” do paciente entre as pernas.

Preciso descansar.

Passo pela sala da RG, relatório, BO eletrônico de evasão (que a polícia recusou) e uma bate papo com a chefe a respeito da falta de funcionários.

- Por hoje chega, vou pra casa

- Vai descansar filho. Você merece.

- Vou sim, chefe. Até amanhã.

-Até amanhã.

7 comentários:

  1. Nossa o paciente poderia ter pegado outra coisa... Sacanagem, ai deve estar doendo até agora! Boa sorte p o moço do dreno.

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  2. Só vcs mesmo para rir de tudo isso, Aff ainda bem que não tb com vc não aguentaria.

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  3. TO ADORANDO ESSAS HISTÓRIAS!!!!!!!!!!!! PARECE Q CONHEÇO...srsrsrsr

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  4. PUXA!!!!!!!!!!! QUE PANTÃO HEM!!!!!!!!!! SOBREVIVEU??????????

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  5. Amigo;
    Eu não acredito que tenha feito isso! Tantos anos de experiência e mesmo assim...soltou a mão do moço, affhh!!! acho que vc esqueceu da aula de psiquiatria, onde um certo J...foi o paciente e nenhuma professora conseguiu conter...adoro as histórias, parece até que estamos nessa loucura de plantão.

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  6. Si dá um desconto... rsrs o cara começou a convulsionar de repende. E aquele tal de J que tentaram conter na Sala de Aula era doidão kkkkkk

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  7. Bianca voçê foi perfeito fez oque tinha de fazer boa sorte continue sendo esssa pessoa que voçê é uma braço de uma amigada area de enfermagem

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